Enem 2026: clima e IA são apostas de professores para a redação

admin
31 Oct, 2026
Resumo O uso da inteligência artificial nas escolas e a adaptação das cidades às mudanças climáticas estão entre os assuntos que podem chegar à redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, na avaliação de professores consultados pelo UOL. A lista inclui ainda a proteção de crianças na internet e os impactos das bets no orçamento familiar, temas que também podem orientar a revisão para a prova, marcada para 8 de novembro. A menos de duas semanas do exame, os professores explicam o que sustenta cada aposta. Também indicam livros, filmes e fontes de consulta para incrementar os assuntos antes da prova. Cidades versus clima As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 estão entre os acontecimentos que levam Everton Bastos, professor de Literatura e Produção de Textos do Colégio Católica Curitiba, a apontar o possível tema "Adaptação das cidades com relação às mudanças climáticas". De acordo com ele, o debate envolve planejamento urbano e a exposição desigual aos desastres. "A banca do ENEM valoriza abordagens que discutem desigualdades socioespaciais, já que eventos climáticos extremos afetam de forma desproporcional, sobretudo, as populações periféricas e vulneráveis." Amanda Correia, coordenadora da Rede Alfacem Global Academy, faz a mesma aposta: "O ponto central é que os desastres não atingem todos da mesma forma: quem mais sofre é a população pobre que vive em áreas de risco." Bastos sugere a leitura de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e artigos do Observatório do Clima, enquanto Correia indica o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak, e o filme Parasita, de Bong Joon-ho. Inteligência artificial e educação Adenildo Lima, professor de Língua Portuguesa do ensino médio técnico do Senac Nações Unidas, aponta o tema: "Desafios para o uso ético e consciente da inteligência artificial no Brasil". Para o docente, o tema coloca em discussão "a tensão entre o rápido avanço da inovação tecnológica e seus impactos éticos, sociais e jurídicos". Correia destaca o uso das ferramentas de IA nas salas de aula. Embora possam ampliar o acesso ao conhecimento, há preocupações com a dependência tecnológica e a perda do pensamento crítico. O plágio e a desinformação também estão entre os riscos apontados pela coordenadora. "Há também uma questão de desigualdade: nem todos os alunos e escolas têm o mesmo acesso a essas tecnologias." Para estudar o assunto, Adenildo Lima sugere consultar a Constituição e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A coordenadora recomenda Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, e avaliar o que vem sendo debatido sobre a regulamentação da tecnologia no Brasil. Leitura e formação crítica O analfabetismo funcional sustenta outra aposta do professor do Senac Nações Unidas: o papel da leitura na promoção da cidadania e do pensamento crítico no Brasil. "Aborda uma problemática sensível à população brasileira, que afeta uma parcela significativa dos brasileiros e brasileiras que leem, mas nem sempre conseguem compreender, interpretar ou elaborar uma análise crítica sobre o assunto abordado." O docente menciona a escassez de bibliotecas e de políticas contínuas de incentivo à leitura, sobretudo em cidades pequenas, como pontos a serem explorados na redação. Menciona ainda o consumo rápido e superficial de informações digitais que podem favorecer a circulação de notícias falsas. Entre as indicações estão A importância do ato de ler: em três artigos que se completam, de Paulo Freire, e o ensaio O direito à literatura, de Antonio Candido. O professor recomenda também consultar os dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) (https://alfabetismofuncional.org.br/). Crianças na web Letícia Lima, professora de redação e Linguagens da edtech AMentoria, levanta o tema "Vulnerabilidade digital de crianças" e aposta na proteção infantil na internet pelas discussões sobre o funcionamento dos algoritmos e o cyberbullying. Ela sugere a responsabilidade das plataformas digitais, compartilhada com o Estado e as famílias, no enfrentamento desses problemas, como mote para a elaboração do texto. Para melhorar o repertório, indica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Civil da Internet. "Não adianta citar uma lei apenas para mostrar que a conhece; o candidato precisa explicar como aquele princípio jurídico se choca com o problema apresentado na coletânea." Apagão de professores A dificuldade de atrair jovens para a docência, enquanto o quadro de professores envelhece, é outra aposta de Letícia Lima. A precariedade das condições de trabalho é outro ponto que pode entrar na análise dos riscos educacionais. A professora recomenda considerar a formação e a valorização profissional, observando como os jovens enxergam a carreira, na hora de estruturar o texto. A pesquisa Apagão dos professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, é uma sugestão para estudar o assunto. Alimentação saudável na infância Amanda Correia também aponta o tema "Os desafios para garantir uma alimentação saudável na infância brasileira" por reunir questões de saúde pública e desigualdade social. "De um lado, muitas famílias ainda enfrentam a insegurança alimentar; de outro, cresce o excesso de peso entre as crianças." A coordenadora relaciona esse quadro ao consumo de ultraprocessados, favorecido pelo baixo preço, pela praticidade e pela publicidade. Também menciona as restrições à compra desses produtos para a alimentação escolar. "Em 2025, o Governo Federal reduziu o limite desses produtos na merenda escolar, e a partir de 2026 eles só podem representar 10% dos itens comprados." Entre as indicações de Correia estão Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, e o documentário Muito Além do Peso, de Estela Renner. Impactos das apostas online A expansão das bets e seus efeitos sobre as famílias justificam outro palpite de Correia. A coordenadora destaca o papel da publicidade e da divulgação por influenciadores, além dos patrocínios no futebol, como pontos que podem ser explorados na redação: "Há ainda impactos na saúde mental, como o vício em jogos, e no endividamento." Para ter mais base sobre o assunto, ela recomenda acompanhar as discussões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets e compreender a ludopatia, o vício em jogos. Entre as indicações de leitura está O Jogador, de Fiódor Dostoiévski. Vício em discussão Everton Bastos também aposta em "Caminhos para superação do alcoolismo no Brasil". Para o professor, a discussão pode abordar a associação da bebida à diversão, a dificuldade de reconhecer os limites entre o consumo social e a dependência e o papel da publicidade na naturalização do consumo. Na avaliação de Bastos, o Enem costuma abordar problemas de saúde pública pela perspectiva da "quebra de tabus" e da "necessidade de políticas preventivas mais eficazes". Ele ainda destaca o papel dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) no acolhimento e no tratamento pela rede pública. Para reunir informações sobre o assunto, recomenda cartilhas do Ministério da Saúde e reportagens sobre a influência da publicidade de bebidas sobre os jovens. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.