Gêmeas idênticas têm resultado diferente em avaliação de cotas em concurso

admin
30 Oct, 2026
Resumo Duas irmãs gêmeas receberam resultados diferentes na avaliação de cotas de um concurso da PC-ES (Polícia Civil do Espírito Santo). Enquanto Naiara Mendes Ferreira foi considerada apta, Natália Mendes Ferreira teve sua autodeclaração rejeitada e, agora, tenta reverter a decisão. Entenda o caso As irmãs passaram pela avaliação no mesmo dia e horário, mas foram encaminhadas a bancas diferentes. Ao UOL, Natália contou que ambas compareceram ao procedimento em 17 de outubro. Embora tenham entrado simultaneamente, cada uma foi avaliada por uma comissão distinta. A avaliação consistia em uma breve apresentação diante de uma câmera. Segundo Natália, as candidatas precisavam informar o nome, o CPF e como se autodeclaravam racialmente. Ela afirma ter se identificado como negra de cor parda, classificação contemplada pelas regras do concurso. Contudo, Natália recebeu um documento informando que não apresentava características físicas de pessoa preta ou parda. A ficha contém a marcação da opção "não apresenta aspectos fenotípicos de preto(a) ou pardo(a)" e as assinaturas de cinco integrantes da comissão. A página do documento não apresenta uma justificativa individualizada para a decisão. A ficha registra a conclusão da comissão, mas não especifica quais características físicas foram consideradas incompatíveis com a autodeclaração. "Mas no documento não tem uma justificativa de fato", afirmou Natália. A irmã, considerada apta, não recebeu uma ficha equivalente. Gêmeas já tinham sido reconhecidas em outras três seleções As irmãs tiveram suas autodeclarações raciais aceitas em três processos seletivos anteriores. Documentos oficiais consultados pelo UOL confirmam resultados favoráveis para Natália e Naiara em seleções da Justiça Eleitoral, da Polícia Penal do Espírito Santo e do Ifes (Instituto Federal do Espírito Santo). No concurso unificado da Justiça Eleitoral, as duas foram reconhecidas como negras. Seus nomes aparecem na relação definitiva de candidatos considerados negros no procedimento de heteroidentificação publicado pelo Cebraspe em abril de 2025. Ambas concorriam ao cargo de técnico judiciário, na especialidade de agente da polícia judicial, do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Na seleção da Polícia Penal do Espírito Santo, as duas também tiveram suas autodeclarações deferidas. O resultado preliminar da análise documental foi divulgado em janeiro de 2026 pelo Instituto de Desenvolvimento e Capacitação (IDCAP), responsável pela organização do concurso. O mesmo aconteceu em um processo seletivo do Ifes. Natália e Naiara aparecem como deferidas no resultado preliminar da verificação complementar da autodeclaração para o curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, na modalidade a distância, em 2025. Candidata apresentou recurso e pode procurar a Justiça Natália apresentou recurso administrativo para tentar reverter a decisão da Polícia Civil. Ela afirma ter utilizado como argumento os resultados anteriores e a semelhança física com a irmã, que foi considerada apta pela outra comissão. "Usei o argumento da minha irmã ser apta e eu inapta apesar da semelhança física", disse. A candidata também mencionou características físicas que, segundo sua avaliação, justificam seu enquadramento nas cotas raciais. No recurso, destacou a cor da pele, cabelo cacheado, nariz moderadamente largo e os lábios moderadamente grossos. A manutenção da decisão pode significar a eliminação de Natália do concurso. Pelas regras do edital, candidatos que não tiverem a autodeclaração confirmada podem permanecer na ampla concorrência, desde que tenham alcançado a nota de corte exigida. Natália afirma que, em sua situação, não conseguiria continuar na disputa caso o recurso fosse negado. Ela pretende recorrer à Justiça se a decisão não for revista administrativamente. Apesar disso, demonstra confiança em uma solução antes de precisar entrar com uma ação judicial. "Estou confiante em não precisar acionar o Judiciário", afirmou. A repercussão do episódio também trouxe conforto à candidata, que acredita que outros participantes possam ter sido prejudicados. Natália diz esperar que a discussão ajude pessoas que tiveram suas autodeclarações rejeitadas e consideram as decisões injustas. Ao UOL, ela afirmou que a repercussão "me traz um pouco de conforto" e ressaltou que a situação "não se trata só de mim". Como funciona a avaliação racial? A heteroidentificação é utilizada para verificar a autodeclaração de candidatos que disputam vagas reservadas a pessoas negras. A análise leva em consideração características físicas, chamadas de fenotípicas, como cor da pele, textura do cabelo e traços faciais. As regras do concurso determinam que a avaliação seja realizada individualmente. O procedimento considera as características apresentadas pelo candidato no momento da avaliação, independentemente de reconhecimentos obtidos em outras seleções. O concurso é organizado pelo Ibade (Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo). Em comunicado publicado em seu site, a banca informou que as justificativas de inaptidão estão disponíveis na área individual dos candidatos. Procurado pelo UOL, o Ibade não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem. A banca foi questionada sobre os critérios utilizados para avaliar as irmãs, os motivos dos resultados divergentes, a composição das comissões e os procedimentos de revisão das decisões. O espaço segue aberto para manifestação. O prazo para apresentação de recursos terminou na quinta-feira (29). A divulgação das respostas aos pedidos de revisão e do resultado definitivo da heteroidentificação está prevista para 11 de novembro, conforme o cronograma oficial. A seleção oferece 1.052 vagas para oficial investigador de polícia, sendo 210 reservadas a candidatos negros. O concurso foi aberto em outubro de 2025 e é considerado pela Polícia Civil do Espírito Santo o maior já realizado pela instituição. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.