Chineses devem receber incentivo para assumir fábrica da Land Rover no RJ

admin
30 Oct, 2026
Resumo Quatro meses depois de a Jaguar Land Rover (JLR) encerrar a produção de veículos em Itatiaia, no sul do Rio de Janeiro, o futuro da fábrica continua indefinido. O grupo chinês Chery mantém o interesse em assumir a unidade, mas um dos pontos centrais das negociações envolve a manutenção dos incentivos fiscais concedidos à montadora britânica. Ao UOL Carros, o governo fluminense confirmou que os benefícios poderão ser aproveitados por uma eventual sucessora, desde que sejam cumpridas as condições do contrato. "O eventual sucessor poderá usufruir do benefício fiscal já concedido, desde que esteja regular e atenda aos requisitos legais, assumindo as obrigações e contrapartidas pactuadas originalmente", informou a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico. As condições para a continuidade desse ambiente tributário estão entre os assuntos discutidos desde o início das tratativas para o futuro da fábrica. Ainda no primeiro semestre, conforme revelou esta coluna em junho, a Chery havia assinado uma carta de intenções para que a Omoda & Jaecoo assumisse a operação industrial de Itatiaia. O governo estadual confirmou agora que permanece em contato com empresas potencialmente interessadas na unidade, mas não identificou os participantes dessas conversas. "O Estado segue em interlocução com empresas potencialmente interessadas na fábrica, mantendo as oportunidades oferecidas pelo Rio de Janeiro, incluindo os instrumentos de incentivo disponíveis, além de facilidades nas condições de infraestrutura e logística da região e o suporte institucional necessário à avaliação e possível implantação de novos projetos", afirmou a secretaria. Eleição pode destravar negociações A definição do novo governo estadual é vista como um fator importante para o avanço das negociações. Segundo Bruno Mendonça Streva, diretor administrativo do Sindicato dos Metalúrgicos de Itatiaia e Porto Real (Sindireal), havia a expectativa de que as tratativas sobre incentivos fiscais ganhassem andamento depois das eleições, diante da necessidade de interlocução com uma administração que permanecerá à frente do estado nos próximos anos. Uma fonte ligada ao governo do Rio de Janeiro confirmou à coluna, sob condição de anonimato, a expectativa do sindicato. "Tem grandes chances do acordo com a Chery se concretizar, mas falta um governo com força política para bater o martelo em relação aos incentivos e as contrapartidas que serão exigidas da chinesa", disse ao UOL Carros. O Rio de Janeiro é governado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, após uma crise na sucessão estadual, enquanto o governador eleito Douglas Ruas aguarda a posse em janeiro de 2027 Ao UOL Carros, a assessoria do governador eleito informou que ele acompanha a situação da fábrica e mantém diálogo com representantes do cluster automotivo do Sul Fluminense para compreender os desafios enfrentados pela indústria e identificar oportunidades de investimento. Segundo a equipe de Ruas, a preservação dos empregos diretos e indiretos, o fortalecimento da cadeia produtiva regional e a criação de condições para a retomada industrial estão entre as prioridades da futura administração. A assessoria acrescentou que eventuais negociações com empresas interessadas deverão respeitar as competências das partes envolvidas. Também destacou que o plano de governo prevê uma política de incentivos baseada em competitividade, segurança jurídica e responsabilidade fiscal. Fábrica tem funcionários, mas não produz carros Enquanto as negociações continuam, a unidade de Itatiaia permanece sem produzir veículos. A fabricação do Discovery Sport e do Range Rover Evoque foi encerrada em junho, e a planta está sem atividade produtiva desde julho. Apesar da paralisação, aproximadamente 380 trabalhadores continuam vinculados à empresa e recebendo normalmente seus salários e benefícios, segundo o sindicato. Em vez de atuar nas linhas de montagem, parte dos funcionários participa de atividades de capacitação, reciclagem profissional e atualização de normas. Há também trabalhadores realizando cursos de pós-graduação custeados pela JLR. "A fábrica não passou por um processo de desmobilização de suas instalações, continua tudo igual, como se estivesse funcionando. Mas não sabemos até quando vai continuar assim. O sindicato acompanha as negociações na expectativa de que um novo projeto industrial permita preservar os postos de trabalho e até ampliar a produção", afirma Streva. Chery negocia fábrica desde o primeiro semestre Em junho, o UOL Carros revelou que a Jaguar Land Rover se preparava para encerrar a fabricação de veículos no Brasil e que a Chery havia assinado uma carta de intenções relacionada à possível transferência da operação para a Omoda & Jaecoo. As conversas ocorrem com a operação global do grupo Tata Motors, controlador da Jaguar Land Rover, e são favorecidas pela parceria que as empresas já mantêm no mercado chinês. Paralelamente, a Chery iniciou negociações com o governo fluminense e com a Prefeitura de Itatiaia sobre a manutenção dos incentivos fiscais associados à fábrica. A unidade foi inaugurada em 2016, com capacidade para produzir 24 mil veículos por ano - apesar de nunca ter chega à metade disso. Para atrair o investimento, o governo do Rio concedeu à Jaguar Land Rover acesso ao RioInvest, programa vinculado ao Fundo de Desenvolvimento Econômico e Social (Fundes), que previa uma linha de financiamento de R$ 629 milhões e diferimento do ICMS. No âmbito municipal, a montadora também recebeu benefícios tributários relacionados ao IPTU, ITBI e ISS. Esses instrumentos fazem parte das condições econômicas que viabilizaram a instalação da empresa no município. Para uma nova fabricante, a manutenção dos benefícios influencia diretamente na viabilidade financeira do projeto. Em junho, representantes da Chery participaram de uma reunião virtual com a Prefeitura de Itatiaia para discutir a possibilidade de assumir a fábrica. Na ocasião, a empresa manifestou interesse em aderir às políticas municipais de incentivos fiscais. A intenção da Chery é utilizar o complexo para produzir veículos das marcas Omoda e Jaecoo, que integram o grupo chinês e já anunciaram o desejo de iniciar atividade industrial no Brasil. Por que a Chery quer a fábrica de Itatiaia? A aquisição da unidade poderia resolver um dos desafios da expansão da Omoda & Jaecoo no Brasil: estabelecer uma operação industrial própria sem depender da estrutura da Caoa Chery. Embora o grupo chinês tenha participado da instalação da fábrica de Jacareí, em São Paulo, a unidade está desativada desde 2022 e integra um arranjo societário com a Caoa. A operação da Omoda & Jaecoo foi estruturada de maneira independente dessa parceria. Itatiaia oferece a vantagem de já contar com instalações industriais, equipamentos e trabalhadores com experiência na montagem de veículos. Há, entretanto, diferenças importantes entre a operação anterior da Jaguar Land Rover e o projeto estudado para a Chery. A fábrica britânica utilizava o sistema SKD, no qual os veículos chegavam parcialmente montados ao Brasil e passavam pelas etapas finais de produção. A intenção atribuída à Chery envolve a ampliação da capacidade industrial e a adoção de processos mais complexos, como o CKD, com maior número de componentes enviados separadamente. Isso exigiria investimentos adicionais e uma readequação das instalações, além de influenciar as obrigações e contrapartidas associadas aos eventuais incentivos. Polo automotivo concentra milhares de empregos O futuro da fábrica também é acompanhado pelas demais empresas instaladas no polo automotivo do Sul Fluminense, que reúne operações industriais em municípios como Resende, Porto Real e Itatiaia. A região abriga importantes fabricantes de veículos e fornecedores de autopeças, formando uma cadeia produtiva que movimenta a economia local. Segundo dados do Cluster Automotivo informados pelo governo estadual, em 2025 foram criados 9.965 postos formais de trabalho no segmento de fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias na região. Boa parte está ligada à ampliação da produção na fábrica da Stellantis, em Porto Real, onde começou a ser produzido o Jeep Avenger. Procurada pelo UOL Carros, a Jaguar Land Rover afirmou que não comentará o futuro da unidade. "A Jaguar Land Rover (JLR) não tem comentários a fazer neste momento. Seguimos focados na construção e no posicionamento das marcas Defender, Range Rover, Discovery e Jaguar no Brasil." Sem um acordo anunciado, a fábrica de Itatiaia segue com as linhas de montagem paradas, enquanto trabalhadores, empresas e governos aguardam uma definição sobre o próximo capítulo da operação industrial. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.