Como é a trajetória do cotista: da entrada na universidade ao mercado de trabalho

admin
20 Oct, 2026
A Lei de Cotas (12.711/2012), que completou 14 anos em 2026, alterou o perfil dos estudantes nas universidades públicas brasileiras. Entre 2013 e 2024, mais de 1,4 milhão de pessoas ingressaram em instituições federais de ensino por meio de reserva de vagas, segundo o Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Parte dos efeitos dessa política de inclusão também são observáveis no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2010 e 2022, o percentual de pessoas com 25 anos ou mais graduadas em nível superior mais do que duplicou entre pretos e pardos — o aumento entre brancos, no mesmo período, foi em torno de 55%. Nas universidades públicas do Estado de São Paulo, os impactos da política de cotas também são evidentes: na Universidade Estadual Paulista (Unesp), primeira instituição estadual paulista a adotar o sistema, no vestibular 2014, os ingressantes vindos de escola pública são maioria desde 2017. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por sua vez, foi pioneira entre as estaduais paulistas ao ampliar as cotas, reservando vagas para estudantes trans, travestis e não binários no vestibular 2026. Já na Universidade de São Paulo (USP), que aderiu às cotas no vestibular 2018, 28,3% dos ingressantes se declararam pretos, pardos e indígenas (PPI) em 2025. Os caminhos da Lei de Cotas 2012: A Lei nº 12.711 criou a reserva de vagas nas instituições federais de ensino. Pelo menos 50% das vagas passaram a ser destinadas a estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. Dentro dessa reserva, são considerados critérios de renda familiar e de pertencimento étnico-racial. 2016: A Lei nº 13.409 incluiu as pessoas com deficiência entre os beneficiários da reserva de vagas. 2023: A Lei nº 14.723 trouxe mais mudanças com a inclusão de quilombolas, a redução do limite de renda familiar per capita de 1,5 para 1 salário mínimo e a alteração do mecanismo de ingresso. Os candidatos às cotas passam primeiro pela ampla concorrência e, caso não sejam aprovados, disputam as vagas reservadas. Apesar de a legislação garantir direito de acesso à graduação, o desafio que se impõe para os beneficiários dessa política pública é o da permanência no espaço acadêmico. Dados do mesmo levantamento do Inep mostram que, em 2024, 49% dos alunos cotistas em instituições federais concluíram a graduação, proporção maior que a dos demais ingressantes, de 42%. Esses números não explicam por que a maioria dos estudantes, cotistas ou não, ainda não conclui seus cursos. Identificar o risco de evasão com antecedência tornou-se o objetivo de uma pesquisa, na linha de Auxílio à Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp (FCT-Unesp), no campus de Presidente Prudente (SP). Conduzida por Sueyla Ferreira da Silva dos Santos, pesquisadora responsável pelo projeto, a equipe usou machine learning para construir um algoritmo classificador de risco de evasão, a partir de dados de mais de 50 mil alunos da universidade ao longo de uma década. O modelo analisa diferentes variáveis, como as notas dos alunos, a frequência, as reprovações, o curso e a distância da moradia até o campus, escolhidas a partir de uma matriz de correlação estatística. O resultado é um sistema capaz de sinalizar, já no primeiro semestre, quais estudantes correm mais risco de abandonar o curso. Entre essas variáveis, o desempenho acadêmico é o que mais pesa no risco de evasão já no primeiro ano. É também nesse período que a origem do estudante faz diferença: alunos que entraram por ações afirmativas reprovam mais do que seus colegas. Para a pesquisadora, uma possível explicação para esse fenômeno é o tempo de resposta das políticas de permanência, bolsas e auxílios, que deveriam amparar o aluno logo na chegada à graduação, mas cujos editais costumam abrir meses depois da matrícula. Uma vez que o suporte chega, “esse problema se anula”, diz Santos, e o rendimento acadêmico desses estudantes se iguala ao de quem entrou pela ampla concorrência. Atualmente, o sistema funciona com uma interface em que diferentes gestores acompanham o risco de evasão conforme seu nível de acesso. Um coordenador vê o cenário do próprio curso; um chefe de departamento, o da própria unidade; e a reitoria, o de toda a universidade. Os dados chegam à equipe já protegidos pela universidade, sem nome, CPF ou número de matrícula. Cada aluno é representado por um código que não o identifica. “Dentro da ciência de dados, não trabalhamos com informações vinculadas aos indivíduos, mas sim com o conjunto de dados. O importante é saber o comportamento daquele grupo, e não o de determinadas pessoas”, diz Santos. Na prática, isso permite que um professor identifique se a própria disciplina concentra risco de evasão e avalie o que pode ser alterado nela, por exemplo. O modelo estatístico elaborado pelos pesquisadores já é capaz de explicar as razões pelas quais um aluno poderia deixar o curso. Para os próximos meses, a expectativa é entender também o que os leva a continuar a vida acadêmica. “Já sabemos o que faz eles saírem”, aponta Santos. “Queremos saber o que faz eles permanecerem.” Uma pista vem de seminários preliminares feitos com os próprios alunos: eles apontam a biblioteca como um dos espaços mais democráticos da universidade, em contraste com os grupos de pesquisa e laboratórios, cujo acesso depende do vínculo com algum coordenador. “Nem sempre os alunos se sentem pertencentes a esses espaços, porque isso vai exigir que ele tenha o melhor coeficiente, seja aprovado num processo seletivo, ou que o professor o eleja como alguém com potencial para contribuir com o grupo”, afirma a pesquisadora. Desafios étnicos A construção desse pertencimento, ainda que sob outra ótica, também orienta a pesquisa do antropólogo José Maurício Arruti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. O estudo, apoiado pela FAPESP, lança um novo olhar sobre o acesso e a permanência de estudantes indígenas e quilombolas no ensino superior. A pesquisa combina três frentes: a quantitativa, que cruza dados oficiais, como o Censo Escolar e o Censo da Educação Superior, do Inep, e o Censo Demográfico, do IBGE; a documental, baseada em editais das universidades e entrevistas com gestores; e a etnográfica, que acompanha de perto a experiência desses estudantes dentro da universidade, em parceria com pesquisadores que atuam junto a grupos específicos, como os povos Pankararu e Xakriabá. A escolha por uma pesquisa multimétodo é motivada pelas particularidades impostas pelos dados relativos a indígenas e quilombolas. “Estamos diante de uma situação de inúmeras lacunas de informação”, diz Arruti. Um exemplo disso é a escassez de conhecimento demográfico sobre a população quilombola, que só passou a ser contabilizada oficialmente pelo IBGE em 2022. O Censo da Educação Superior também só incluiu essa população em 2024 e deixou de registrar esse dado no ano seguinte. Para o pesquisador, um dos critérios que mais pesam na permanência de cotistas indígenas e quilombolas na graduação é a relação entre as instituições de ensino e o território de origem do estudante. Universidades mais territorializadas, ou seja, mais próximas às aldeias ou aos quilombos de onde vêm seus alunos, permitem que eles mantenham vínculos com a cultura de origem via alimentação, língua, rede familiar etc. Já as instituições desterritorializadas recebem estudantes que mudam drasticamente de contexto de vida. São Gabriel da Cachoeira é o terceiro município com maior percentual de indígenas no total da sua população, com 93,17%, segundo o Censo de 2022. Fica atrás apenas de Uiramutã, em Roraima, com 96,60%, e da também amazonense Santa Isabel do Rio Negro, com 96,17% É o caso da Unicamp, que chegou a receber até 80% de seus alunos indígenas vindos de São Gabriel da Cachoeira (AM), no extremo noroeste do país. Segundo Arruti, a distância e o custo das passagens tornam o retorno para casa inviável para muitos deles. “É comum não conseguirem voltar durante as férias, não ter dinheiro para voltar”, diz Arruti. “Não ter a farinha, aquele açaí ou aquele peixe com que estão acostumados também é doloroso”, ressalta. Dificuldades como essas têm obrigado as universidades a se adaptar. Na Unicamp, por exemplo, foram criados espaços como um jardim com redário e um ambiente sem paredes para a realização de reuniões. Ao mesmo tempo, multiplicam-se coletivos indígenas e quilombolas organizados por fora do movimento estudantil tradicional, abrindo novas frentes de diálogo e de demanda com as pró-reitorias. Outra das medidas de adaptação da Unicamp é o Programa Intercultural Formativo para Ingressantes pelo Vestibular Indígena (ProFIIVI), que oferece suporte acadêmico e interdisciplinar para aprovados antes de iniciarem o currículo pleno de suas graduações. De acordo com Arruti, o programa busca atuar logo no primeiro ano, por meio de um estágio de adaptação que favorece a fixação dos estudantes indígenas nos cursos. Há, porém, um limite que essas adaptações não alcançam: o critério que define o sucesso acadêmico. Nem toda interrupção do curso é evasão, argumenta o antropólogo. Ele cita o caso de um estudante indígena de engenharia agrícola na Unicamp, que, apesar do bom desempenho, decidiu voltar para a aldeia no meio da graduação. Questionado pela equipe de apoio estudantil sobre o motivo, o aluno respondeu que já tinha aprendido o que precisava no espaço acadêmico. Para o pesquisador, casos como esse mostram que a própria definição de uma trajetória acadêmica bem-sucedida pode variar e que um indicador pensado para a maioria dos estudantes pode classificar como fracasso aquilo que, para o aluno, foi um objetivo cumprido. “É difícil classificar situações assim como evasão, porque, para o próprio estudante, ele completou o que precisava”, diz. Cruzando a linha Conquistar a diplomação também está longe de resolver as desigualdades. É o que mostra uma pesquisa, conduzida no Observatório de Desigualdades no Ensino Superior e Mercado de Trabalho do Insper, coordenado pela professora Ursula Mattioli Mello, também com apoio da FAPESP. A equipe cruzou dados do Inep com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que reúne informações de todos os trabalhadores com carteira assinada no país, para reconstruir a trajetória de mais de 20 milhões de estudantes que ingressaram no ensino superior do Brasil entre 2010 e 2016, do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ao mercado de trabalho. O objetivo era entender se ter estudado na mesma turma aumenta a chance de colegas trabalharem juntos depois da formatura e, nesse caso, quais fatores influenciam mais. A equipe analisou características como gênero, origem socioeconômica e raça, e descobriu que esta última é a que mais conta nessa equação. “As pessoas que são brancas acabam indicando mais colegas brancos. As pessoas que são negras acabam indicando mais colegas negros”, destaca Eloiza Almeida, pesquisadora do grupo. O padrão, que os pesquisadores chamam de homofilia de rede, aparece mesmo em turmas universitárias que foram heterogêneas e tiveram a presença de pessoas de diferentes raças, rendas e origens. “Por mais que você tenha estudado com pessoas de outros grupos, você acaba tendo um relacionamento mais forte com tipos similares ao seu, e isso perdura após o ensino superior, no mercado de trabalho”, diz a pesquisadora. Para confirmar que se trata mesmo de uma tendência, e não de coincidências, a equipe observa um momento específico da vida dos profissionais: a promoção para cargos com poder de contratação, como o de gerente. Quando um ex-aluno chega a essa posição, os dados mostram um aumento na contratação de pessoas da mesma turma e do mesmo curso naquela empresa. E o recorte racial se repete: gerentes não brancos alavancam mais a contratação de outros profissionais não brancos, ainda que tenham estudado com colegas dos dois grupos. A força desse efeito varia por área. Em finanças, administração, economia, engenharia e tecnologia da informação, a indicação de colegas de turma é mais comum. “É normal uma pessoa chamar outra”, diz Almeida. Em educação e medicina, o efeito é menor. Não por falta de indicação, mas porque esses mercados têm menos empregadores e maior concentração regional, o que faz os profissionais se encontrarem de qualquer forma. Já no direito, área em que a literatura internacional aponta forte influência de redes na ascensão a sócio de escritórios, o efeito no Brasil é bem mais fraco do que em finanças ou em engenharia. Na próxima fase da pesquisa, a equipe quer investigar se esse efeito de rede é igualmente vantajoso para todos os indicados. A hipótese é que profissionais pretos, pardos, indígenas e amarelos sejam direcionados a empresas ou posições com salários mais baixos do que os de colegas brancos formados na mesma turma. “A gente acha valioso estudar junto e que esse relacionamento se estenda para o mercado de trabalho. Mas, se nem todos estiverem em uma boa posição, do que adianta?”, resume a pesquisadora. “Comecei a me perceber como indígena aqui” O percurso de um cotista que estendeu o vínculo com a universidade para além da graduação *Por Victor Martins Mais de 3 mil quilômetros separam São Gabriel da Cachoeira (AM), às margens do rio Negro, da Unicamp, no interior paulista. Foi essa a distância que Denilson Camico, de 25 anos, percorreu para desafiar os índices de evasão no ensino superior. No fim de 2026, o jovem da etnia Baré vai se graduar em pedagogia com um currículo que inclui intercâmbio internacional. Ao final de 2021, Camico assistiu a uma palestra de veteranos da Unicamp em sua escola. “Me interessei pelo vestibular indígena para buscar oportunidades”, relata. Sem dinheiro para o cursinho preparatório, montou um cronograma autodidata com provas de edições anteriores e foi aprovado para 2022. A viagem para Campinas colocou o estudante diante de incertezas. Selecionado para o Programa de Moradia Estudantil da Unicamp, dividiu casa com quatro desconhecidos. O deslocamento alterou até a maneira como ele se via no mundo. “Morando numa cidade de maioria indígena, você não se rotula assim. Comecei a me perceber como indígena aqui em São Paulo. Antes eu não tinha essa noção”, explica. Além da dedicação aos estudos, Camico passou a praticar esportes para conhecer pessoas e se inteirar dos costumes locais. A adaptação se consolidou via extensão acadêmica. A produção de um podcast que promove o diálogo entre saberes tradicionais e conhecimento científico — o Ecoa Maloca — abriu as portas para um intercâmbio em Portugal. A experiência abriu caminho para a iniciação científica com bolsa da FAPESP. Prestes a receber o diploma, Camico já se candidatou ao mestrado no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Ao olhar para o próprio percurso e orientar calouros que desembarcam do Amazonas, resume o papel da política afirmativa em sua vida: “As cotas foram importantes porque eu estava perdido sobre como entrar na graduação. Não que o caminho via cotas seja fácil, mas eu não tinha as informações. Quando tive acesso, aproveitei.”