A esperança venceu o medo

admin
14 Oct, 2026
Não sei se alguém será capaz de ler estas linhas escritas das profundezas polarizadas para onde os algoritmos nos jogam nestes dias insanos que separam o primeiro e o segundo turno. Novamente, não me interessa escrever sobre os modelos mais incríveis de inteligência artificial que saíram na última semana. Até porque, ao escrever a frase anterior, me torno persona non grata nos Estados Unidos da América. Segundo o presidente daquele país, o simples fato de seguir usando o termo IA — e não o seu “muito mais preciso” termo superinteligência — me coloca na lista de inimigos daquele Estado.Não quero ser inimigo da América. Tenho certo apreço por tudo o que aprendi com eles na colonização de soft power à qual, como latino-americano, fui submetido ao longo dos meus 42 anos. Foi vendo um filme norte-americano com dois atores norte-americanos, Robert De Niro e Dustin Hoffman, chamado Wag the Dog — Mera Coincidência, na versão Herbert Richers, que aprendi que, às vezes, o presidente pode inventar uma guerra para encobrir um escândalo. E que hoje existe uma tática aplicada por esses governantes contra a qual ninguém criou um antídoto: eles soltam declarações o tempo todo com o intuito de manter a mídia e a opinião pública em pânico, emendando uma bobagem lunática na outra. Assim, o público fica anestesiado e, ao mesmo tempo, em choque, obrigado a lidar e repercutir o que passa pela cabeça do líder da nação a cada minuto. A velha tática do “falem mal, mas falem de mim” funciona demais. Principalmente em tempos de algoritmos em que opiniões valem mais que fatos. Mas há um motivo maior pelo qual eu não vou adotar o termo superinteligência. E ele também tem a ver com um manifesto político. Quando ouço superinteligência, entendo que esse termo, ao contrário de “super-homem”, que é um alienígena, deveria ser usado como uma aptidão humana. Inteligência é humana. O termo “artificial” já compreende a capacidade de computadores processarem informações como se fosse inteligência. As redes neurais, o machine learning e a arquitetura transformer foram criadas emulando o que a ciência conseguiu traduzir do jeito humano de pensar. Mas não tudo. Muita coisa do que estamos vendo agora já estava, de alguma forma, prevista por Alan Turing e, depois, pela conferência de Dartmouth, em 1956, quando se criou o termo Inteligência Artificial. Então por que fazer esses senhores se revirarem no túmulo? Pensar sobre o que estamos vivendo agora lá nos anos 50: isso, sim, é superinteligência. O interessante é que não foi só lá atrás que fomos capazes de pensar de forma tão sofisticada. Por incrível que pareça, a superinteligência não está tão longe dos nossos tempos atuais, por mais que a eleição tente nos convencer do contrário. Para descobrir onde a superinteligência vive, costumo ouvir artistas. O paradoxo dos tempos atuais é que o mesmo algoritmo que te afunda na lama da política também oferece pérolas como a conversa entre Thom Yorke e Harry Styles, publicada pela Rolling Stone. Vale cada segundo para entender como funciona o processo criativo de seres humanos. É um papo entre um veterano e um novato já com certa estrada. Admiração mútua. Processos detalhados. Diferenças e semelhanças na tentativa de criar algo que inteligência artificial nenhuma jamais poderá criar. Por aqui, no próximo dia 06 de novembro, também teremos uma conversa entre gerações. Meu pai e eu estaremos no Memorial da América Latina para cultivar um diálogo sobre esses tempos de fúria. Ainda há ingressos disponíveis. Eu acho que é ali, caro Mr. Trump, nesses papos entre gerações, que reside a tal da superinteligência. Na nossa capacidade de coexistir e de nos fazer entender. É em conversas como essas que as pessoas conseguem cultivar esperança.[#Noticia_LeiaTambem-foto:337804030]Já o ruído gerado por governantes que “abanam o cachorro” é puro assassinato de futuro.PS: O título desta newsletter estava estampado numa camiseta que eu usava na faculdade no final de 2002. Pode não ser agora. Pode demorar bastante. Mas a esperança vencerá novamente. Nossa superinteligência está aqui e passará para as próximas gerações. Não há hard ou soft power no mundo capaz de fazê-la perecer.