Nós precisamos continuar falando sobre o passado, diz a quadrinista Nora Krug

admin
14 Oct, 2026
Vasculhar o passado nazista da família se tornou uma tarefa acessível a partir deste ano, depois que o governo americano disponibilizou arquivos do NSDAP, o partido de Adolf Hitler. Sites em que é possível buscar filiados à legenda proliferam na Alemanha. "É um ponto de partida, mas não é suficiente", afirma Nora Krug, que levantou sozinha a trajetória de parentes há mais de uma década e transformou sua experiência pessoal no premiado "Heimat", publicado no Brasil pela editora Quadrinhos na Cia., em 2019. Escritora e ilustradora alemã radicada nos Estados Unidos, Krug está em São Paulo nesta semana para participar da quinta edição do Festival Literário do Museu Judaico. Ela dividirá uma mesa sobre "passados traumáticos", nesta quinta-feira, com o quadrinista Marcelo D’Salete. É preciso "continuar falando sobre o passado", mesmo que ele não esteja distante, demonstra Krug em sua obra mais recente, "Diários da Guerra: Ucrânia e Rússia em Dois Relatos Gráficos", também publicado pela Quadrinhos na Cia., no ano passado. Neste caso, a autora acompanha narrativas de personagens reais, cada qual de um lado do conflito, por um ano. Esse exercício de olhar para trás será necessário, diz a autora em entrevista por telefone, "enquanto existir antissemitismo, racismo ou qualquer tipo de agressão contra qualquer pessoa que sinta ou pense de maneira diferente de você". A atual Alemanha é diferente da que Krug deixou há 23 anos para estudar, mas ela não vê na sua geração ou nos mais jovens a curiosidade que ela tinha. A que a fez procurar em arquivos de pequenas cidades e nas casas de familiares e conhecidos pistas de como seus ascendentes se comportaram antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Em "Heimat", um livro de memórias ilustrado, Krug mostra a redação escolar de um tio, de 1939, que compara judeus a cogumelos venenosos, "que parecem bonitos" na floresta, mas "podem matar uma família inteira". Ela reproduz também uma análise sobre um discurso de Hitler, que fez no ensino médio junto com colegas de classe. "Aprendemos que nossa língua, um dia, havia sido considerada poética, mas agora era potencialmente perigosa", diz em um dos trechos. "Não sei se teria escrito e pesquisado sobre isso se não tivesse saído da Alemanha", afirma a autora. Outro motivador, acredita, veio do fato de ter ido parar em Nova York, que recebeu muitos judeus depois da guerra. Foi lá também que conheceu seu marido, "criado em meio a uma árvore de Natal e um senso de humor judeu". Alternar presente e passado, o outro e si mesma, a Alemanha do Holocausto com a memória da Alemanha de sua infância, não pareceu tarefa complicada para Krug. "O arquivo que encontrei sobre meu avô, sobre o qual escrevo no livro, me revelou muito mais sobre o tipo de pessoa que ele era do que o simples fato de ter sido membro do Partido Nazista", afirma. Porém, a tarefa não é para qualquer um. "Acho que muitas pessoas sentem que não conseguem olhar para o passado de seu país ou de sua família de forma crítica e, ao mesmo tempo, celebrar e se identificar com essa família ou com esse país. Para muitas pessoas, isso parece uma contradição, mas não acho que seja. Acho que deveríamos ser capazes de fazer as duas coisas." O momento alemão não ajuda. Com uma plataforma de governo que prega literalmente "mais Bismarck, menos Hitler", a AfD, Alternativa para Alemanha, coleciona vitórias eleitorais e deverá eleger seu primeiro governador, no estado de Saxônia-Anhalt, em dezembro. O fato é inédito para a extrema direita do país no pós-Guerra, com evidentes implicações em uma Europa cada vez mais seduzida por populistas. Lembrar do arquiteto da unificação alemã no século 19 e esquecer o ditador do século 20 é uma afronta à chamada cultura da memória, política de Estado que a AfD promete encerrar. "Não podemos deixar isso a cargo de cada pessoa, de pais ou professores. Deve ser um esforço pessoal, mas precisamos garantir que seja, no mínimo, um esforço coletivo. Precisa estar ancorado no governo", diz Krug. A autora lembra de uma visita a Auschwitz nos tempos de escola, também registrada em "Heimat". "Quando saímos do museu, nenhum dos professores chegou a perguntar como nos sentíamos ao saber que nosso povo cometeu esses crimes. Não houve nenhuma conversa sobre nossos sentimentos. Isso foi uma grande falha." Para Krug, o antissemitismo daquela época não é diferente do de hoje. "É o mesmo desde a Idade Média", ela diz. "Tem estado presente entre nós praticamente todo esse tempo. Não há motivo para deixarmos de falar sobre ele."