O triunfo da viola no campo e na cidade

admin
13 Oct, 2026
Livro oriundo de tese de doutorado multipremiada conta como o instrumento se confunde com as transformações da história brasileira, dos jesuítas e poetas às celebridades atuais O Violeiro (1899), de Almeida Júnior, óleo sobre tela 141 x 172 cm Reprodução / Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo O que os jesuítas, os bandeirantes, o poeta barroco Gregório de Matos (1636-1696) e o cantor sertanejo e celebridade Gusttavo Lima têm em comum? Mesmo separados por séculos, todos tiveram uma viola em suas mãos. Mais que um simples instrumento, a viola é uma chave para compreender a formação social do Brasil, principalmente no interior do país. Introduzida por missionários jesuítas vindos de Portugal logo após o descobrimento, no século 16, ela começou sua trajetória na colônia, sendo utilizada na catequese dos povos originários. Depois, foi adotada pela população das nascentes áreas urbanas e dedilhada em festas populares e religiosas. Aos poucos, foi se embrenhando território adentro, acompanhando bandeirantes e tropeiros, tornando-se um símbolo da identidade do Brasil rural que vem se transformando e se expandindo ao longo do tempo, sem perder seu caráter de organizadora das relações sociais, do modo de vida e das formas de pertencimento das comunidades rurais. “Desde sua chegada com os portugueses, a viola se ambientou bem no solo brasileiro, foi se acaipirando, até se tornar símbolo de uma sociedade, de uma matriz cultural. E, com as primeiras gravações, a partir de 1929, ela deu origem a um gênero, a música caipira, que sobrevive até hoje”, resume Luiz Antonio Guerra, violeiro, sociólogo, cientista político e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), que acaba de lançar o livro Uma sociologia da viola caipira (Edusp, 2026), baseado em sua tese de doutorado. Defendida em 2021, a tese ganhou o Prêmio Silvio Romero de melhor monografia sobre cultura popular, o Prêmio Capes 2022 e o Prêmio Destaque USP 2022. Com subtítulo Os mestres de ontem e de hoje, o livro é dividido em duas partes. Na primeira, Guerra apresenta o alicerce histórico da introdução da viola no Brasil pelos colonizadores e narra sua transição de instrumento de centros urbanos para o mundo rural em meio às transformações socioeconômicas. “Quando as violas chegaram aqui com os navegadores e jesuítas, elas não eram padronizadas pela fabricação industrial. Essa variabilidade continuou existindo no Brasil. Como o instrumento seguiu o caminho da colonização, a viola de cada região tem uma forma específica de fabricação, afinação e repertório. Era comum o próprio violeiro construir seu instrumento artesanalmente”, diz Guerra. Aquela que acompanhou os bandeirantes e tropeiros para o interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás ficou conhecida como viola caipira, objeto de estudo do sociólogo. Já no Recôncavo Baiano, por exemplo, a viola machete é instrumento importante no samba de roda, sendo considerada patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “É uma violinha pequena, tocada de forma totalmente diferente da caipira”, explica o pesquisador. No fim dessa fase inicial, surgem as primeiras fábricas brasileiras de violas padronizadas, a Del Vecchio e a Giannini, fundadas em São Paulo na virada do século 19 para o 20, na esteira do aumento da imigração de italianos, conta Guerra. Na segunda parte do livro, o autor demonstra como a trajetória da viola acompanha transformações sociais mais amplas, especialmente o êxodo rural que marcou o Brasil ao longo do século 20. A migração de populações interioranas para grandes cidades levou consigo práticas culturais, entre elas a viola caipira, que passou a ocupar novos espaços e adquirir novos significados. “Já na cidade, os migrantes do campo usavam a música caipira para expressar sua nostalgia e saudade da vida de outrora”, diz ele. Se antes era um símbolo quase exclusivo da vida rural, a viola passou a ecoar em um novo ambiente, formado por palcos urbanos, universidades, festivais contemporâneos e produções fonográficas que misturam tradição e experimentação. Para montar esse cenário, Guerra entrevistou mais de 60 violeiros, que preservam técnicas tradicionais de afinação, toques e repertório, ao mesmo tempo que dialogam com outras linguagens musicais, como a MPB, o rock e a música instrumental. Nesse diálogo, segundo o pesquisador, a música caipira passa a ser chamada sertaneja. Nessa fase, ela se diferencia da caipira por absorver instrumentos e arranjos urbanos e tratar de temas mais universais, longe do universo rural. “Os violeiros contemporâneos também são mediadores entre mundos, o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, o oral e o acadêmico”, explica. Lima e a viola Um exemplo é o cantor e celebridade Gusttavo Lima, um dos entrevistados do livro. Nascido em família pobre, acompanhava seu pai na Folia de Reis e mais tarde tocou viola caipira em um trio com seus irmãos. A partir de 2010, tornou-se símbolo do sucesso da música sertaneja nas baladas urbanas. Embora não utilize o instrumento tradicional em suas gravações, Lima afirmou que ele é a base de sua formação musical e costuma tocá-la pontualmente em suas apresentações ao vivo. “Ele se considera um herdeiro do Tião Carreiro [1934-1993], um dos principais expoentes da viola caipira”, conta o autor. Com base nisso, Guerra conclui que mesmo os principais artistas sertanejos, que protagonizam as grandes transformações estéticas no gênero com inclusão de novas sonoridades e elementos culturais urbanos, têm sido um dos principais vetores de difusão da prática da viola caipira. O livro é prefaciado por Ivan Vilela, também violeiro e professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da USP. Compositor com 20 discos gravados, Vilela foi ainda o responsável pela criação do bacharelado em Viola Caipira na universidade, a partir de 2005. “Um instrumento com mais de 800 anos de idade só foi ter um curso superior dedicado a ele no século 21”, observa. Segundo Vilela, a viola é uma moderadora do surgimento das relações dentro das culturas populares no Brasil. “A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sambistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que saberíamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário.” “A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sambistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que saberíamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário” — Ivan Vilela, violeiro e professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da USP O músico destaca o fato de que gravuras de viajantes e quadros de pintores do século 19 retratam apenas pessoas do povo tocando viola, as quais aparecem nas pinturas de violeiros de Almeida Júnior (1850-1899) e Oscar Pereira da Silva (1867-1939). Vilela nota que, quando é uma pessoa branca que está se apresentando nas imagens, ela não toca viola, e sim bandola, um instrumento cuja porção inferior é arredondada, quase circular — está presente nas gravuras de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e Jean-Baptiste Debret (1768-1848). “Quando o personagem é pobre ou negro, é uma viola que ele está tocando. Assim, a viola acaba trazendo junto com ela um traço cultural e étnico dos locais onde está ligada a esses grupos”, afirma. Até meados do século 19, a viola era o principal acompanhamento dos cantores. “Ela cumpria o papel que o violão tem hoje. E eu sempre vi a viola como um instrumento de uma difusão bastante democrática, permeando todas as classes sociais. A historiadora Isabel Lustosa comenta que dom Pedro 1º [1798-1834] tocava viola. O padre José Maurício Nunes Garcia [1767-1830] a usava em suas aulas de música porque não tinha um cravo [instrumento semelhante a um piano]. O biógrafo do poeta Gregório de Matos afirma que ele próprio tinha feito a viola que tocava”, conta Marcia Taborda, violonista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Já o violão chega ao Brasil trazido pela família real portuguesa, que foge para o Rio de Janeiro em 1808 para escapar das forças invasoras do imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). Chamado de “guitarra francesa”, o instrumento aos poucos foi ocupando o lugar que a viola tinha nas cidades. Mais fácil de afinar e tocar, acaba se popularizando. Enquanto o violão apresenta um corpo maior, seis cordas simples e uma afinação universal, a viola caipira possui cinco cordas duplas (totalizando dez), várias afinações e um corpo menor e mais estreito. É a partir daí que ela vai ficando mais associada às regiões interioranas. Para Guerra, a modernização dos ritos da Igreja Católica também contribuiu para o desaparecimento da viola nos centros urbanos. Segundo o pesquisador, era um instrumento muito usado em festejos religiosos, como Folia de Reis e Cururus. “A Igreja acaba desestimulando esses folguedos para controlar as formas de culto. Essas festas e danças vão sobrevivendo no interior, onde a fiscalização do Estado e a doutrinação religiosa eram menores, e a viola sobrevive com elas, tornando-se um importante elemento sociocultural dessas comunidades”, afirma. Nesse contexto, a viola se torna símbolo de pertencimento dentro da cultura da oralidade, em que saberes são transmitidos por convivência, prática e memória. “O violeiro não é apenas músico. Ele é guardião da memória, narrador e mediador cultural”, resume. Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio PiresCornélio Pires, pioneiro na gravação de viola caipira, em apresentação no início do século 20Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires Nas ondas do rádio No início do século 20, a viola caipira faz o caminho inverso e amplia seu alcance por meio da nascente indústria fonográfica e do rádio. Em 1929, o folclorista e pesquisador Cornélio Pires (1884-1958) foi pioneiro na gravação do que ficou conhecido como “música caipira” ao financiar o registro de violeiros e duplas. Foi a primeira vez que uma viola caipira entrou em um estúdio de gravação. Pires anunciou o lançamento de Moda de viola, em outubro de 1929, com a seguinte declaração: “Esse é o canto popular do caipira paulista em que se percebe bem a tristeza do índio escravizado, a melancolia profunda do africano no cativeiro e a saudade enorme do português da sua pátria distante”. “Havia uma demanda por repertórios que representassem a cultura rural, e a própria elite paulista também tinha interesse no resgate de suas tradições”, avalia Guerra. Segundo ele, a iniciativa de Pires levou à consolidação de um novo gênero musical, ampliada pela difusão no rádio. “Ele não padronizou apenas um estilo, mas também um jeito de tocar viola, uma afinação específica”, afirma, ressaltando que, por outro lado, a indústria fonográfica acabou por dar uma forma menos variável à música caipira, eliminando os improvisos existentes do meio rural. Martha Tupinambá de Ulhôa, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), observa que, à medida que o país vai se transformando, as músicas que representam o Brasil rural do centro-sul também mudam. Nos anos 1950, por exemplo, a influência da música paraguaia, com as guarânias, foi forte e, a partir dos anos 1960, a música caipira absorve sonoridades mexicanas, da Jovem Guarda e até dos Beatles. “Então, na música caipira, vai haver sempre uma tensão entre o que se inova e o que é tradicional, mas a viola mantém sua identidade mesmo quando se reinventa”, afirma. Vilela avalia que, embora a urbanização tenha mudado as narrativas, a identidade da viola continua a mesma. “A viola é uma cronista social de seu tempo”, diz. “Quando Cornélio Pires grava músicas falando da Revolução de 1930, ou Alvarenga e Ranchinho cantam a falta de gasolina durante a Segunda Guerra Mundial, eles estão narrando exatamente o tempo em que estavam vivendo. Da mesma forma, músicas como ‘Menino da porteira’ e ‘Saudade da minha terra’ narram a nostalgia de quem abandonou o campo e migrou para a cidade, mas foram compostas anacronicamente por pessoas que já estavam no meio urbano”, conta. Para o violeiro, a manutenção da identidade do instrumento explica a existência de mais de 250 orquestras de viola no estado de São Paulo. Com 29 anos de estrada, a Orquestra Paulistana de Viola Caipira é comandada desde sua fundação pelo maestro Rui Torneze. Com formação em violão clássico, ele se apaixonou pela viola em suas andanças pelo interior paulista como auditor contábil. Aos 30 anos, decidiu trocar a contabilidade pela música. “Comecei a dar aulas de viola na Universidade Livre de Música, hoje Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim, e outras escolas de viola caipira. E os alunos desses cursos queriam também a prática do instrumento. A criação da orquestra foi um desdobramento das aulas”, conta. Com 54 integrantes, a orquestra tem um CD de viola caipira indicado ao Grammy Latino e acumula apresentações na Europa. Segundo Torneze, um diferencial é que todos os músicos leem partitura. “Ela funciona como uma orquestra sinfônica”, diz. O repertório é variado, unindo clássicos da música da roça com MPB e rock. “Tocamos de Vivaldi a Tonico e Tinoco, de Michael Jackson a Guns N’ Roses”, diz. Torneze define o repertório como dedicado à “formação de público”. “Tocamos as músicas mais conhecidas e depois partimos para os clássicos da viola.” Também com repertório que vai muito além das músicas caipiras, a Orquestra Filarmônica de Viola completou 25 anos. Fundada por Ivan Vilela em 2001 na cidade de Campinas (SP), a filarmônica é dirigida por João Paulo Amaral desde 2011. “A ideia inicial era criar um grupo a partir da socialização, dos violeiros e das violeiras que se encontravam para aprender e tocar viola. Depois o grupo naturalmente foi se profissionalizando e se aprimorando. O Vilela viu a possibilidade de tocar música caipira, mas também outros repertórios na viola. Ele teve a ideia de separar os violeiros como se fossem naipes de uma orquestra convencional”, afirma Amaral, ou seja, como os diferentes tipos de instrumentos musicais — cordas, percussão etc. No repertório, clássicos da música caipira se mesclam a obras de nomes da música popular brasileira, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e Tom Jobim (1927-1994), chegando até a Villa-Lobos (1887-1959) e à banda de rock britânica Led Zeppelin. Sem apoio institucional, a orquestra, de 15 componentes, sobrevive com cachê de shows e de recursos de outros trabalhos. Recentemente a orquestra se apresentou na Sala São Paulo e no Festival de Inverno de Campos do Jordão. “É um marco importante para a viola ter esse reconhecimento e tocar em um festival internacional, que é mais dedicado à música clássica e música de concerto”, diz ele. É permitida a republicação desta reportagem em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. É obrigatório o cumprimento da Política de Republicação Digital de Conteúdo de Pesquisa FAPESP, aqui especificada. Em resumo, o conteúdo não pode ser protegido por paywall, isto é, não pode ter acesso limitado a assinantes ou mediante pagamento, não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, assim como a fonte (Pesquisa FAPESP). O uso do botão HTML permite o atendimento a essas normas. Em caso de reprodução apenas do texto, por favor, consulte a Política de Republicação Digital.