Vírus roubou gene humano cerca de 100 mil anos atrás, mostra estudo

admin
13 Oct, 2026
Cientistas encontraram um vírus que tem um quê de humano: ele carrega um gene roubado de nossos ancestrais há cerca de 100 mil anos. E esse vírus pode estar usando nosso próprio gene para nos infectar. Estudos anteriores já demonstraram que os vírus podem incorporar genes de seus hospedeiros. Mas a nova descoberta, publicada no mês passado na revista Science, pode ser o primeiro caso conhecido de um vírus com um gene humano adquirido em um período recente da história evolutiva. A forma como os vírus se replicam os torna especialmente hábeis em roubar DNA. Eles infectam uma célula e, em seguida, assumem o controle de sua maquinaria ao injetar nela seus próprios genes. A célula infectada é forçada a produzir cópias dos genes virais, além das proteínas que os encapsulam em novos vírus. Então, os novos vírus irrompem da célula infectada, que morre. Às vezes, esse processo dá errado, e um trecho do DNA do hospedeiro acaba incorporado aos novos genes virais. Esse erro molecular pode representar uma ameaça à saúde humana. Vírus que infectam bactérias, por exemplo, podem incorporar genes que elas usavam para resistir a antibióticos. Esses genes não trazem nenhum benefício direto aos vírus, porém podem transmitir o DNA a outras bactérias que infectam. Essa é uma das formas pelas quais a resistência a antibióticos se dissemina. Agora, cientistas descobriram um vírus que adquiriu um gene de seres humanos. Cedric Feschotte, biólogo da Universidade Cornell (Estados Unidos), e seus colegas o encontraram ao vasculhar bancos de dados de genes virais. "Simplesmente não consigo acreditar que ninguém não tenha publicado isso antes de nós. Qualquer pessoa pode encontrar esses genes em poucos minutos", disse ele. Feschotte e seus colegas descobriram o gene humano no vírus do molusco contagioso, um parente distante do vírus da varíola. Ele causa pequenas lesões na pele que normalmente desaparecem após alguns meses. Infecta apenas seres humanos, muitas vezes crianças. O gene humano em questão, o BC200, é misterioso. No cérebro, ele produz uma molécula de RNA cuja função os cientistas ainda não conseguiram determinar. Alguns pesquisadores especulam que ajude a controlar a velocidade com que as células cerebrais produzem proteínas. O BC200 presente no vírus do molusco contagioso tem algumas mutações que não são encontradas na versão presente nos humanos. Essas mutações se acumularam desde que o vírus adquiriu o gene de nossos ancestrais, o que permitiu a Feschotte e seus colegas estimarem que o vírus se apropriou do nosso gene há cerca de 100 mil anos. A molécula de RNA codificada pelo BC200 tem uma estrutura peculiar que, às vezes, pode fazer com que nossas células a insiram em um novo trecho de DNA. Esse DNA é reintegrado ao nosso genoma, criando uma cópia adicional do BC200. Ao que tudo indica, isso aconteceu muitas vezes. Feschotte e seus colegas identificaram 178 cópias do BC200 no genoma humano, acumuladas ao longo de milhões de anos. Essa falha também pode ter introduzido o BC200 no vírus. Independentemente de como chegou lá, o gene BC200 permaneceu no vírus nos últimos 100 mil anos. Feschotte não encontrou nenhum vírus do molusco contagioso sem o BC200, um sinal de que ele usa o gene humano em benefício próprio. Embora a função original do BC200 possa ter sido gerenciar proteínas em nosso cérebro, o vírus aparentemente encontrou uma nova utilidade para ele. Elde especulou que o vírus do molusco contagioso talvez use nosso gene para controlar a produção de proteínas, processo conhecido como tradução. "Os poxvírus adoram interferir na tradução", afirmou. Células infectadas por vírus às vezes tentam desativar suas fábricas de proteínas para interromper a produção de novos vírus. Os poxvírus podem usar proteínas do hospedeiro para reativá-las. Isso pode ser um problema para os seres humanos: nosso próprio gene BC200 talvez esteja agora prestando esse serviço ao vírus do molusco contagioso quando somos infectados. Feschotte se pergunta se ele e seus colegas teriam encontrado, por acaso, um exemplo muito raro de um gene humano em um vírus —ou se isso é comum entre os vírus. O caminho para descobrir a resposta é investigar mais.