RS tem a frota mais velha do Brasil: 42% dos veículos têm mais de 20 anos

admin
13 Oct, 2026
Resumo O Rio Grande do Sul tem, proporcionalmente, a frota mais velha do Brasil. Levantamento feito a partir de dados da Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito) de julho de 2026 mostra que 42,3% dos veículos registrados no estado foram produzidos até 2005 - portanto, têm pelo menos 21 anos de fabricação. Na média nacional, essa parcela é de aproximadamente 32%. O resultado chama atenção porque o envelhecimento da frota não acompanha simplesmente o mapa da renda do país. Depois do Rio Grande do Sul, aparecem São Paulo, com 38,1% dos veículos nessa faixa, além de Paraná, com 36,8%, e Rio de Janeiro, com 36,7%. Na outra ponta estão Maranhão, com 14,6%; Pará, 16,2%; Amapá, 16,6%; e Acre, 18,6%. Em outras palavras, a proporção de veículos com mais de 20 anos no Rio Grande do Sul é quase três vezes a registrada no Maranhão. Segundo Everton Fernandes, presidente da Fenauto, entidade que representa o comércio de veículos seminovos e usados, uma das explicações está justamente na história da motorização brasileira. Estados do Sul e do Sudeste começaram a formar frotas relevantes mais cedo e acumularam veículos ao longo de mais décadas. Ele pondera, porém, que seria precipitado atribuir a liderança gaúcha a uma única causa. "A idade média é resultado de uma combinação entre a entrada de veículos novos e, principalmente, o tempo em que eles permanecem em circulação." Na avaliação do executivo, entram nessa conta a formação histórica da frota, o tamanho e a dinâmica do mercado de usados, o poder de compra da população, as condições de crédito e a velocidade com que os veículos são substituídos ou retirados definitivamente dos registros. As enchentes de 2024 acrescentam uma camada recente a esse cenário. Segundo a CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras), foram registradas mais de 18 mil solicitações de indenização de seguro automóvel relacionadas ao desastre no Rio Grande do Sul. O Detran-RS também criou um procedimento específico para a baixa definitiva de veículos inutilizados pelas águas. Mesmo depois de uma tragédia que retirou ou obrigou a substituição de milhares de veículos, o estado continua liderando o país na proporção de veículos com mais de 20 anos. Carros usados migraram para o Sul Há ainda um fator menos óbvio: a movimentação de veículos usados entre diferentes regiões do país. Fernandes relata ter acompanhado, sobretudo entre o fim dos anos 1990 e o início da década passada, comerciantes do Sul comprando carros usados no Nordeste para revendê-los em estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ele explica que em determinados momentos a desvalorização dos usados era maior em partes do Nordeste do que no Sul, por causa do menor poder de compra da população. Isso permitia que lojistas comprassem os veículos, arcassem inclusive com o transporte e ainda obtivessem margem considerável para revendê-los em estados sulistas. Esse movimento pode ter contribuído para ampliar o estoque de veículos usados e antigos no Rio Grande do Sul ao longo dos anos. Outro ponto citado pelo presidente da Fenauto é que renda não influencia apenas a capacidade de comprar um carro novo. Ela também pode interferir na capacidade de manter um veículo antigo. Na avaliação de Fernandes, famílias de renda mais baixa no Sul podem, em alguns casos, ter mais condições de arcar com manutenção, impostos e outros custos de um automóvel antigo do que famílias em regiões onde a renda média é menor e a desigualdade é maior. Isso ajudaria a explicar por que uma região economicamente mais desenvolvida pode, ao mesmo tempo, conservar uma parcela maior de veículos antigos em sua frota. Cidade gaúcha tem 63% da frota acima dos 20 anos A concentração de veículos antigos fica ainda mais forte quando o levantamento é feito por município. Entre as cidades brasileiras com pelo menos 10 mil veículos registrados - corte adotado para evitar que municípios muito pequenos distorçam a comparação - Quaraí, no Rio Grande do Sul, aparece no topo. No município, 63,3% dos veículos com ano de fabricação conhecido foram produzidos até 2005. Ou seja, aproximadamente dois em cada três têm mais de 20 anos. Outras cidades gaúchas também estão entre as primeiras posições. Piratini chega a 58%, Dom Feliciano a 57,2%, Encruzilhada do Sul a 57% e Giruá a 55,8%. O fenômeno não está restrito a municípios pequenos. Em Santana do Livramento, que possui mais de 80 mil veículos, 53,2% da frota com ano conhecido têm mais de duas décadas. Velho não significa carro em mau estado Fernandes ressalta ainda que idade e conservação são conceitos diferentes. "Um veículo antigo não significa necessariamente um veículo sem condições de uso. A idade cronológica é apenas um indicador. Manutenção, conservação, quilometragem e utilização também fazem diferença." Há também uma limitação importante na própria estatística. Os números da Senatran mostram veículos que continuam registrados na frota, mas não permitem afirmar que todos estejam efetivamente circulando diariamente. Um veículo pode permanecer no cadastro mesmo sendo pouco utilizado ou estando parado. Por isso, o levantamento indica sobretudo quanto da frota registrada foi fabricada há mais de duas décadas e não o estado mecânico desses automóveis. Mesmo com essas ressalvas, a comparação mostra um Brasil bastante diferente daquele sugerido pelos rankings mensais de carros novos. Enquanto o mercado atual é dominado por veículos recém-lançados e pela renovação tecnológica da indústria, 42% da frota gaúcha ainda é formada por veículos fabricados há mais de 20 anos. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.