Seu assistente de IA vai trabalhar enquanto você dorme. Quem paga a conta?

admin
12 Oct, 2026
Seu assistente de IA vai trabalhar enquanto você dorme. Quem paga a conta? Resumo Em sete semanas, três das maiores empresas de tecnologia do mundo lançaram assistentes de inteligência artificial que trabalham por conta própria. A SpaceXAI, de Elon Musk, apresentou o Grok Bot em 11 de agosto. A Meta lançou o Muse em 8 de setembro e passou de 2 milhões de downloads em duas semanas, segundo a consultoria Sensor Tower. No final de setembro, a OpenAI estreou o dots, que Sam Altman descreveu como uma forma de delegar trabalho do jeito que se faria a um chefe de gabinete. Ao longo dos últimos dias, tive a oportunidade de explorar dois deles, o Grok Bot e o dots. Minha visão é que essa nova embalagem dos produtos traz charme, maior simplicidade e uma forma diferente de mostrar ao mundo como a IA transformará o dia a dia das pessoas. A outra metade da história aconteceu fora dos laboratórios. Doze dias depois do lançamento do Muse, a Amazon o bloqueou na sua loja, alegando riscos de execução de atividades não autorizadas pelos usuários. Do meu ponto de vista, os riscos são mais comerciais... O que mudou em relação ao ChatGPT O ChatGPT lançado em novembro de 2022 recebia uma pergunta, devolvia uma resposta e o trabalho terminava ali. Os assistentes desta nova safra recebem diferentes funções. Cada um tem acesso a um computador próprio na nuvem, um navegador de internet, memória do que já fez e acesso a milhares de aplicativos. O dots, da OpenAI, por exemplo, alcança mais de 4 mil serviços por meio dos plugins (os conectores que ligam o agente a um aplicativo). A peça nova é o relógio. O agente começa o trabalho sozinho, até de madrugada se for o caso, e procura seu usuário pelo WhatsApp, pelo Slack ou pelo Teams somente quando precisa de uma decisão. O Grok Bot aprende uma rotina observando dez minutos de alguém executando a tarefa. O Muse roda num computador na nuvem reservado para cada usuário, por enquanto apenas nos Estados Unidos. No dots, o próprio usuário escreve as regras: o que o agente faz sozinho, o que precisa de aprovação e o que fica bloqueado. Em meu "Second Brain", minha infraestrutura de pesquisa, parte do trabalho já funciona desse modo: alguns agentes varrem as fontes de conhecimento antes de o dia começar e deixam rascunhos prontos sobre diferentes temas, sem que eu tenha delineado explicitamente a busca. Esse mesmo sentimento tive com os testes com o Grok Bot e o dots. E posso afirmar: quem experimenta esse formato dificilmente volta ao chat para a mesma tarefa. Quem paga a conta? Cada formato novo estreia no degrau mais alto da escada de preços. O primeiro dot vem incluído nos planos mais caros do ChatGPT, e o Muse tem um plano gratuito limitado. A Microsoft mostrou o desenho mais claro no novo Copilot: o uso comum segue dentro da assinatura, e tudo o que envolve agentes trabalhando sozinhos, do Autopilot (o bot da Microsoft, com identidade e memória próprias dentro da conta da empresa) aos modelos mais avançados, passa a ser cobrado por consumo, como a conta de luz. Ben Thompson, uma das referências de tecnologia no mercado norte-americano, trata a restrição do dots aos planos caros como um sinal de que a OpenAI ainda não tem capacidade computacional para oferecê-lo a todos. O preço controla o acesso enquanto a oferta de chips cresce. Um agente com relógio consome a capacidade nas horas com menor disputa pela computação, abrindo espaço para que os laboratórios criem novas fontes de receita. A porta do outro lado Um assistente de IA que compra produtos, reserva serviços e os cancela por você precisa que o serviço do outro lado o deixe entrar. A Amazon já decidiu que isso não pode em sua infraestrutura. A justificativa foi que um agente de IA que não se identifica ao navegar viola os termos de uso da loja. Lógico que a Meta contestou. A linha de marketing da gigante do e-commerce parece ser a causa do imbróglio. A Amazon vendeu cerca de US$ 68 bilhões em publicidade no último ano, e essa linha de negócio tem sido destaque absoluto. A questão é que um agente que faz a compra sem abrir a página não vê anúncio e não depende de uma pessoa olhando para a tela. O Walmart, por outro lado, decidiu fazer o caminho inverso. Aderiu às compras realizadas por dentro do ChatGPT e saiu meses depois, porque a conversão (a parcela das visitas que termina em compra) ficou em um terço da registrada no próprio site. No fundo, a conta é a mesma da Amazon: sem pessoa no circuito, não há para quem mostrar anúncio. Quem decide se o agente entra é quem vende anúncio do outro lado da porta. O que pode dar errado O lançamento do dots veio em um momento delicado. Em 28 de setembro, a OpenAI suspendeu a divulgação de um modelo novo (o GPT-6.1 Astra) que, segundo a Reuters, demonstrou propensão elevada a enganar usuários sobre suas próprias ações. A resposta aparece no desenho do produto: o dot trabalha num computador separado do usuário, uma revisão automática confere cada ação com as regras definidas, e tarefas como trocar senhas ficam sempre com a pessoa. Para quem assina o produto, a lista do que o agente pode fazer é parte do que está sendo vendido. O que muda para quem investe daqui Três são as consequências. A primeira briga está relacionada às empresas que o brasileiro pode acessar por meio de BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados na B3). Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet disputam duas posições: a de quem controla o assistente e a de quem topa deixar ele acessar seus produtos. O mercado vai passar a cobrar de cada uma delas qual lado elas ocupam. A segunda: o mesmo cálculo vai chegar às plataformas brasileiras que vendem publicidade dentro da própria loja, como Mercado Livre e Magalu. O Muse entra pelo WhatsApp, que aqui é o balcão da pequena empresa, e no dia em que sair dos Estados Unidos a pergunta que a Amazon respondeu com um bloqueio será feita em português. A terceira: um agente que trabalha de madrugada é uma demanda nova por capacidade computacional, e ela chega mesmo com o preço do token (a unidade de texto que os modelos processam) em queda. As contas da Nvidia, dos datacenters e das empresas de energia ganham um cliente que não dorme. O chat foi a vitrine em que a inteligência artificial conquistou a confiança de quem a usa. O lucro tende a ficar com quem controla o assistente que trabalha enquanto você dorme e, como a Amazon acaba de mostrar, com quem decide se ele pode entrar. *João Piccioni é Analista de Investimentos (CNPI), gestor de carteiras autorizado pela CVM e fundador da Capital Pulse. Esta coluna é análise, e não recomendação de investimento. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.