A luz, a caverna, a luz
11 Oct, 2026
Em uma entrevista, a artista britânica Tracey Emin diz que a vida se divide em três estágios. O primeiro seria a juventude, tempo de uma inocência bem-vinda, quando ela acreditava nas pessoas e, acima de tudo, no potencial da arte de mudar o mundo —se mudou o dela, por que não poderia mudar o dos outros? O segundo estágio é o que ela chama de "a caverna". Diferente da de Platão, é definida como um tempo em que nos distanciamos do nosso âmago. Como uma bola que girava em torno do próprio eixo e passa a ser puxada em outras direções, passamos a ceder à vaidade e a diversos estímulos externos, às expectativas dos outros, ao que a nossa sociedade considera sucesso. Por fim, o terceiro estágio, quando envelhecemos o bastante para voltar a nos aproximar de um certo despojamento e da inocência da juventude, conectados de novo com o nosso interior. Gostei dessa esquematização. Também fui a jovem artista acreditando na arte e nas pessoas. Na época, eu já queria ser escritora, mas, não tendo grana para me sustentar enquanto escrevia contos e tentativas de romances, fui trabalhar em agências de propaganda. Até aí, tudo certo. Era legítimo ganhar meu dinheiro para comprar a lasanha e os cigarros que me sustentariam noite adentro escrevendo literatura. Só que, de repente, entrei na caverna. Seduzida pelo glamour e pelo dinheiro, abri mão de virar noites escrevendo ficção para virar noites criando mais e mais anúncios, com o intuito de receber prêmios, aumentos e propostas que, no fundo, nunca desejei. Quando me dei conta, estava trabalhando 12 horas por dia, seis dias por semana, tomando ansiolíticos para desligar, acordar e produzir de novo, e ganhando um salário que eu mal sabia onde gastar, já que, além de não ter tempo, tinha me distanciado dos meus prazeres —alguns colegas, igualmente perdidos, gastavam em coleções de tênis, últimos modelos de iPhone, guitarras que não sabiam tocar, pranchas de surf que raramente saíam da garagem. Muitas vezes eram poetas, pintores, quadrinistas, fotógrafos ou escritores, como eu, que decidiram colocar seu talento na propaganda. De novo, nada de errado com isso: o problema está em não mais reconhecer os desejos que nos levaram até ali e a importância que eles têm. Não sei bem quando saí desse lugar. Sei que fui me movendo lentamente em direção à porta, voltando a escrever literatura, até tomar coragem e passar a ser freelancer, ganhando menos, mas tendo mais tempo para me dedicar ao que gostava. Um privilégio, eu sei, mas que bom que o desfrutei. Não é só sobre trabalho. Acho que a caverna diz respeito a vários desvãos, nos quais vez ou outra caí e voltei a cair: relações ruins, escolhas equivocadas, motivadas por pequenezas, deslumbres ou ilusões. Ainda não deixei para sempre a caverna. Eventualmente, volto a ela, mas, agora, ao menos, consigo sair mais rapidamente, já que, à medida que os anos passam, fica mais fácil vislumbrar o que tem valor para mim e me mover nessa direção. Assim como Tracey, também voltei a ser a menina que acredita na arte e no nosso micromacro poder de mudar o mundo. A Giovana do fundo da caverna zombaria dessa última frase. A ela, eu diria: antes ser inocente do que ser cínica. No cinismo não entra luz.