O luto da ciência: o que perdemos no incêndio da UFPE
9 Oct, 2026
O luto da ciência: o que perdemos no incêndio da UFPE Reconstruir paredes leva meses. Mas como recuperar dados e amostras? O fogo apagou parte de uma memória científica que talvez nunca se refaça Clique aqui e escute a matéria Depois do incêndio que atingiu, na quarta-feira (7), um prédio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, a primeira dimensão do prejuízo que aparece é a mais óbvia: equipamentos, instalações, laboratórios, computadores, materiais. É natural que seja assim. São bens que têm preço, e a universidade terá de calcular quanto custará reconstruir o que foi destruído. Mas existe uma outra conta, muito mais difícil de fazer. No prédio, funcionavam vários laboratórios das áreas de fármacos, informática e genética. E, junto com a estrutura física, havia algo que não se recompra simplesmente com uma nova licitação: pesquisas em andamento, amostras, dados, experimentos e anos de trabalho científico. É essa parte da história que merece atenção. Quando se fala em perda de um laboratório, a tendência é imaginar que o principal problema é a destruição de equipamentos caros. Um freezer científico pode custar muito dinheiro. Um equipamento de análise pode custar centenas de milhares ou até milhões de reais. Computadores, reagentes e instrumentos também representam um patrimônio importante. Mas a ciência não está apenas nesses objetos. Um equipamento pode ser substituído; um experimento, dependendo do caso, não. Uma amostra biológica pode ter sido obtida depois de um longo processo de recrutamento de pacientes. Um estudo pode depender de material coletado em uma determinada condição ou em um determinado período. Um banco de dados pode reunir informações acumuladas durante anos. Uma pesquisa de doutorado pode estar na etapa final depois de meses ou anos de trabalho. E há situações em que simplesmente não existe um botão de "começar novamente". Esse é um dos aspectos mais difíceis de explicar quando se fala sobre financiamento e infraestrutura científica: tempo também é patrimônio. Uma pesquisa biomédica pode começar muito antes de produzir um resultado. Há a formulação da pergunta, a aprovação do projeto, a obtenção de financiamento, a coleta de amostras, o processamento, os experimentos, a análise dos dados e, finalmente, a publicação. Em algumas áreas, especialmente na saúde, o tempo é ainda mais importante porque determinadas perguntas só podem ser respondidas acompanhando pessoas, doenças ou fenômenos biológicos ao longo de períodos prolongados. Perder uma etapa desse processo pode significar meses ou anos de atraso. Isso muda a dimensão da tragédia. Não estamos falando apenas de uma universidade que terá de comprar equipamentos novamente. Estamos falando, potencialmente, de pesquisas que podem ser interrompidas, de estudantes que podem ter o trabalho comprometido e de projetos que precisarão ser reconstruídos - e na medida em que isso for possível. É importante fazer uma ressalva: a dimensão exata dessas perdas ainda precisa ser levantada. Não é possível afirmar, neste momento, que tudo aquilo que estava nos laboratórios foi perdido de forma definitiva, nem quantificar o impacto científico total do incêndio. Mas os relatos sobre materiais e dados acumulados ao longo de anos mostram por que essa avaliação precisa ir muito além do inventário patrimonial. O que estava dentro daquele prédio não era apenas patrimônio físico. Era memória científica. E essa talvez seja uma das características mais particulares da ciência: o conhecimento é construído de maneira cumulativa. Um pesquisador trabalha sobre aquilo que outro pesquisador descobriu antes. Uma tese parte de dados anteriores. Um novo experimento depende de resultados já obtidos. Quando parte desse acervo desaparece, não se perde apenas o trabalho de uma pessoa ou de um grupo; pode se perder uma peça de uma cadeia de conhecimento. Vamos refletir, por exemplo, sobre uma pesquisa relacionada ao câncer. Uma amostra não é apenas um tubo armazenado em um freezer; ela pode representar uma coleta feita de um paciente, dentro de um protocolo específico, acompanhada de informações clínicas e vinculada a uma pergunta científica. Se aquela amostra é destruída, comprar um novo freezer não resolve o problema. A mesma lógica vale para pesquisas sobre doenças infecciosas, genética, doenças raras, obesidade ou outras condições de saúde. O valor científico de determinado material pode estar justamente na sua singularidade. É por isso que incêndios, enchentes, falhas elétricas e outras ocorrências em instituições de pesquisa não deveriam ser tratados apenas como problemas de infraestrutura. Penso que isso também é problema de preservação do conhecimento. E aqui aparece uma discussão que vai além da UFPE. Universidades e institutos de pesquisa precisam pensar em segurança não apenas como proteção do prédio, mas como proteção do que está sendo produzido dentro dele. Isso envolve prevenção de incêndios, manutenção elétrica, sistemas de emergência, armazenamento adequado, redundância de dados, cópias de segurança e, quando possível, duplicação ou armazenamento externo de materiais críticos. Nem tudo pode ser duplicado. Mas parte importante do patrimônio científico pode, sim, ser protegida por estratégias de preservação e redundância. É uma discussão pouco visível porque prevenção costuma ser percebida justamente quando nada acontece. Se um laboratório passa décadas sem um acidente, a infraestrutura de segurança pode parecer um gasto invisível. Depois de uma tragédia, ela passa a ser lembrada. Por isso, o incêndio também deve provocar uma pergunta sobre quanto custa proteger a ciência e quanto custa não protegê-la. Existe ainda uma dimensão humana que não aparece nos números, e falo aqui a partir da minha própria vivência. Como mestre em Saúde da Comunicação Humana pela mesma UFPE, conheço de perto o relógio implacável da pós-graduação. Sei o que significa o esforço diário de uma coleta de dados e a ansiedade dos prazos. Para um pesquisador experiente, perder material de uma pesquisa pode representar anos de trabalho comprometidos. Para um estudante de mestrado ou doutorado, a situação também é complexa. Há projetos vinculados a prazos acadêmicos, bolsas, orientações e etapas que não podem simplesmente ser prolongadas indefinidamente. Nesse sentido, vemos que um incêndio pode interromper uma pesquisa, mas também pode interromper uma trajetória profissional. E existe um outro detalhe: boa parte dessas pesquisas é financiada, direta ou indiretamente, com recursos públicos. Ou seja, quando um laboratório perde infraestrutura e acervo científico, a sociedade também perde um investimento que levou tempo e dinheiro para ser construído. Por isso, talvez a pergunta mais importante depois do incêndio não seja apenas "quanto foi perdido?". É também: "quantos anos de trabalho foram perdidos?". Essa resposta será muito mais difícil de encontrar. O prejuízo financeiro poderá ser estimado, equipamentos poderão ser listados, prédios poderão ser reconstruídos e laboratórios poderão voltar a funcionar. O conhecimento perdido, porém, pode não aparecer em nenhuma dessas contas. E é justamente por isso que o incêndio na UFPE deveria ser entendido não apenas como uma tragédia estrutural, mas como um alerta sobre a fragilidade de um patrimônio que quase nunca conseguimos enxergar: o conhecimento científico acumulado. Vejo que a ciência tem um relógio próprio. Ela exige tempo para refinar perguntas, testar hipóteses, acompanhar pacientes e formar novos pesquisadores. Reconstruir o espaço físico de um laboratório pode levar meses. Mas reconstruir os anos de conhecimento que ali habitavam exigirá muito mais do que apenas concreto e novas licitações. *Cinthya Leite, jornalista e titular de Saúde e Bem-Estar deste JC, é mestre em Saúde da Comunicação Humana pela UFPE.