Pesquisadores redesenham o mapa dos efeitos do El Niño na agricultura
6 Oct, 2026
Os efeitos do El Niño vão além dos limites das cidades. No campo, ele redistribui a chuva e o calor e redesenha o mapa da produção agrícola brasileira. O setor é responsável por 25% do PIB nacional. Na safra 2023/2024, a produção de grãos caiu 21,4 milhões de toneladas, período em que o fenômeno climático atingiu em cheio o país. Os números são, respectivamente, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em levantamento com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ganhos e perdas no agro, porém, dependem de uma série de variáveis e do nível de adaptação. Distribuição de chuvas, localização, fase de desenvolvimento da planta, capacidade do solo de armazenar e drenar água, genética e manejo são fatores que entram nessa equação. Para avaliar essas condições e se antecipar aos efeitos do fenômeno climático, um arsenal científico auxilia os agricultores. O El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do oceano Pacífico na região equatorial. As consequências são as mudanças dos padrões de circulação das correntes marítimas e das massas de ar, o que leva a repercussões distintas ao redor do planeta ( veja infográfico ). As preocupações com eventos extremos que o fenômeno pode trazer aumentaram no início de setembro, com o anúncio do Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês). A probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027 supera 90%. A possibilidade de alcançar intensidade maior que a dos episódios registrados desde 1950 é de 75%. Este é um cenário que abre dois caminhos para grande parte dos produtores: adaptação ou perdas de produtividade e econômicas. “Para nós, fornecedores de cana, um El Niño forte significa que as mudanças climáticas vão afetar diretamente o nosso negócio e o nosso bolso. A colheita pode ser prejudicada, caso as chuvas atrapalhem a moagem, afetando o teor de sacarose da cana”, afirma Francisco César Urenha, diretor-presidente executivo da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana). No Brasil, os reflexos variam entre as regiões. No Sul, o fenômeno climático tende a aumentar o volume e a frequência das chuvas e dos eventos extremos, como em 2024, quando mais de 2 milhões de pessoas foram atingidas por enchentes. No Norte e no Nordeste, favorece as secas na Amazônia e no interior nordestino. As imagens dos leitos quase secos dos rios amazônicos, no mesmo ano, ainda não desapareceram da memória coletiva. No Centro-Oeste e no Sudeste do país, temperaturas acima da média, ondas de calor e períodos de baixa umidade costumam ser resultados diretos do El Niño. As alterações no clima, que usualmente se dão em intervalos de dois a sete anos, levam para o agro brasileiro um cenário condicionado por uma série de variáveis e que costuma se apresentar da seguinte forma: soja, milho de verão, pastagens e arroz irrigado podem ser favorecidos pela maior disponibilidade de água no Sul. Milho e feijão de sequeiro, pastagens e pecuária ficam mais expostos à falta de chuva no Norte e no Nordeste. No Centro-Oeste, o atraso da estação chuvosa diminui a janela do milho safrinha e ameaça a soja. Cana, café, citros, trigo, arroz e hortaliças ocupam uma faixa intermediária: podem ganhar em crescimento ou oferta de água e perder em qualidade, sanidade, radiação solar ou condições de colheita. “O El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uniforme pelo país. Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema” — Fábio Marin, professor da Esalq-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas Com produção concentrada no Centro-Oeste, a soja é o produto agrícola de maior peso na balança comercial brasileira. Em 2025, respondeu por US$ 43,5 bilhões em exportações, segundo o Ministério da Agricultura. Considerando também farelo e óleo, foram US$ 52,9 bilhões. O milho é o segundo em volume de produção de grãos, com 139,7 milhões de toneladas na safra 2024/2025, de acordo com a pasta. As duas culturas também ocupam os primeiros lugares no ranking do valor da produção agrícola brasileira. Em 2025 foram R$ 927,2 bilhões, no total, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE. A soja respondeu por um terço, com R$ 315,2 bilhões e uma safra recorde de 165,3 milhões de toneladas, crescimento de 14,4% em relação ao ano anterior. O milho ocupou a segunda posição, com R$ 122,1 bilhões (13,2%). Na sequência, vieram a cana-de-açúcar, com R$ 108,9 bilhões (11,7%); o café, com R$ 100 bilhões (10,8%); e o algodão, com R$ 40,6 bilhões (4,4%). Laranja, arroz, mandioca e banana completaram o grupo das principais culturas, com participações de 2,5%, 2,1%, 2% e 1,8%, respectivamente, no valor total da produção. Manter esses resultados neste ano depende de diferentes fatores. O solo faz parte dessa série de variáveis. Segundo Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), coordenador do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon) , um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), da FAPESP, é preciso considerar a duração do ciclo da planta, textura, estrutura e profundidade do solo, drenagem, topografia e sistema de produção. Suas pesquisas avaliam fatores ligados à capacidade da lavoura de atravessar tanto períodos secos quanto chuvas intensas. Ele explica que áreas de cultivo que passam por preparo convencional, plantio direto na palha ou sistemas integrados não respondem da mesma maneira à mesma chuva. “O efeito depende não somente da cultura [exemplo: ciclo curto versus culturas anuais versus semiperenes ou perenes] mas também do tipo de solo [arenoso, argiloso ou textura média], da drenagem [usualmente mais bem estruturada quando práticas de manejo sustentáveis são adotadas], da topografia [platô, encosta ou planície de deposição] e do sistema de produção”, afirma Cerri. Soja, milho, mandioca e cana-de-açúcar têm grande demanda hídrica. Plantadas em solo bem drenado, podem aproveitar uma estação mais chuvosa, especialmente quando a precipitação coincide com as fases críticas do ciclo. Em solos compactados ou com drenagem ineficiente, porém, há queda da oxigenação das raízes, o que altera a absorção de nutrientes e pode favorecer doenças e pragas. “Em geral, as mesmas culturas que podem ser beneficiadas por um aumento de chuvas podem também sofrer efeitos adversos dependendo das condições edáficas [características do solo] de onde estão sendo cultivadas”, explica Cerri. Isso ajuda a entender por que o El Niño pode ser associado a ganhos de produtividade em uma série histórica e, ao mesmo tempo, provocar prejuízo em propriedades com solo compactado, descoberto ou sujeito a alagamentos. Em uma superfície sem a cobertura adequada, a chuva rompe os agregados do solo, favorece a formação de crostas e aumenta o escoamento. “Em geral, solos com maior teor de matéria orgânica [carbono orgânico do solo] tendem a ter maior capacidade de armazenar água e disponibilizá-la às plantas”, diz Cerri. Ricardo Davino Chuva demais no Centro-Sul, e de menos no Norte e no Nordeste Além do solo, a localização e fase da cultura fazem parte da equação, diz Marco Aurélio Takita, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e coordenador do Centro de Inovação para Aumento da Resiliência Agrícola Frente aos Estresses do Clima , parte dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), da FAPESP. O núcleo pesquisa estratégias para relacionar clima, solo, manejo e genética e elevar a resiliência da produção. Takita lembra que as previsões para o fim de 2026 indicam chuva acima da média no Centro-Sul e abaixo da média, principalmente, no Norte e no Nordeste, enquanto a temperatura tende a permanecer elevada em quase toda a América do Sul. “Esse padrão contrastante de chuva, somado às temperaturas acima da média, permite antecipar um quadro de redistribuição regional, e não de perda ou de ganho generalizado”, afirma. A distribuição dos efeitos dá uma ideia do delicado equilíbrio que condiciona o benefício a uma determinada cultura. Na região Sul do país, no sul de São Paulo e em Mato Grosso do Sul, a maior oferta de água na primavera e no verão tende a favorecer soja, milho e pastagens de sequeiro. No Rio Grande do Sul, o arroz irrigado pode se beneficiar da recomposição dos reservatórios. O benefício, porém, não é automático. No Sul, o efeito depende da estação e da cultura. No verão, soja e milho de sequeiro tendem a ganhar com mais água, e a perda, quando ocorre, se manifesta menos como quebra de produtividade e mais como redução de qualidade e de dias úteis de operação, salvo quando o excesso de chuva cai na maturação e na colheita. No inverno é o contrário: trigo e aveia têm quebra de produtividade documentada. Fábio Marin, professor da Esalq-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas, reforça essa análise. Ele, que pesquisa séries históricas, indicadores agrometeorológicos, efeitos das mudanças climáticas na agricultura e modelos que simulam o desenvolvimento das culturas, diz que o “El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uniforme pelo país”. “Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema.” Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão na faixa do país em que a relação entre o fenômeno climático, a chuva de primavera e verão e a produtividade é mais bem documentada. “No Sul, vale uma leitura honesta do que é esse ganho: boa parte dele é perda evitada”, diz Marin. É uma constatação da importância da ciência para o setor. Para a soja, por exemplo, a chuva em excesso durante a germinação e o surgimento das plantas pode reduzir o número de plantas que se estabelecem na lavoura. Durante a maturação e a colheita, a umidade favorece a deterioração dos grãos e o aparecimento de doenças. A avaliação do volume total de chuva, isoladamente, esconde diferenças. Para o milho, um veranico de 10 a 15 dias durante a fase reprodutiva pode causar mais dano do que um déficit hídrico maior, distribuído em outros momentos. O calor em torno de 35 0C ameaça o pólen do milho e pode provocar abortamento de flores e vagens na soja. Com evaporação elevada, a planta fecha os estômatos e perde produtividade mesmo quando ainda existe água no solo. No caso do arroz irrigado gaúcho, as chuvas podem garantir os reservatórios que serão utilizados, mas os períodos nublados reduzem a radiação solar e limitam o enchimento dos grãos. O trigo também pode perder no ambiente úmido: chuva no florescimento favorece a giberela, uma doença causada por fungos. Além disso, perto da colheita, pode provocar germinação na espiga e queda da qualidade comercial. O produtor pode ter mais volume de colheita e receber menos pelo produto. Os efeitos se espalham pelo país. Nas regiões Norte e Nordeste, menos chuva aumenta os riscos para milho e feijão de sequeiro e para a pecuária. É fato, mas não certeza, que vá acontecer. Marin explica que a temperatura do oceano Atlântico na região tropical sul, por exemplo, pode amenizar ou até anular parte dos efeitos negativos no Nordeste. As variáveis valem também para o Centro-Oeste, uma zona de transição. Isso pode levar a mais dificuldade na interpretação e prognóstico. O problema pode começar no calendário: se a estação chuvosa atrasa, a soja é semeada e colhida mais tarde, diminuindo a janela do milho de segunda safra. O El Niño pode, assim, comprometer uma cultura meses antes de seu plantio. O norte de Mato Grosso e o entorno da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também ficam expostos à combinação entre chuvas tardias e veranicos. Não existe hoje uma cana-de-açúcar imune a um super El Niño. Não há uma solução genética disponível contra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provocada por longos períodos nublados A resposta vem dos genes A genética também é uma variável que ajuda a definir benefícios ou prejuízos às culturas agrícolas. Mariângela Cristofani-Yaly, pesquisadora do IAC e do CCD-Crop (Citrus, Coffee and Cane Research Organization for Innovative Products) , estuda citros, café e cana-de-açúcar por meio de avaliações fisiológicas, genéticas e biotecnológicas. O núcleo identifica materiais mais tolerantes aos estresses e investiga como diferentes genótipos respondem à seca, às altas temperaturas e à disponibilidade de água. A cana-de-açúcar também mostra por que uma cultura pode ser favorecida e prejudicada na mesma safra. Chuvas bem distribuídas favorecem folhas, colmos e biomassa. “A cana-de-açúcar pode ser particularmente beneficiada pelo El Niño quando há maior disponibilidade hídrica durante as fases de estabelecimento, perfilhamento e, principalmente, de crescimento vegetativo intenso, período em que a cultura apresenta elevada demanda por água”, afirma Cristofani-Yaly. Na maturação, a necessidade muda. Um período seco interrompe o crescimento vegetativo e favorece o acúmulo de açúcar. Chuva abundante pode atrasar esse processo, reduzir a concentração de sacarose e diminuir os dias disponíveis para a colheita e o processo de moagem. “Para a cana, não é apenas a quantidade de chuva que importa, mas a regularidade de uma oferta hídrica adequada nos períodos de maior crescimento e a escassez de chuvas no período de maturação”, diz a pesquisadora. O Crop busca formas de reduzir as vulnerabilidades da cana. Nos últimos cinco anos, a equipe investigou genes relacionados à tolerância à seca, comparou genótipos, estudou sua expressão gênica e avaliou a alteração genética. Os resultados foram plantas que mantiveram o crescimento sob estresse hídrico e acumularam mais biomassa. Parte das tecnologias está protegida por propriedade intelectual. Isso não significa uma cana imune a um super El Niño. Segundo Silvana Creste, pesquisadora da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Cana, do IAC, não existe hoje solução genética disponível contra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provocada por longos períodos nublados. “O melhoramento confere proteção consistente contra estresses de intensidade moderada, e atua sobretudo reduzindo a perda em anos desfavoráveis, mais do que elevando o teto produtivo em anos favoráveis”, diz. Nos citros, o programa de porta-enxertos teve resultados mais imediatos. Ensaios com diferentes combinações de copa e porta-enxerto mostram que o material escolhido altera a capacidade de manter o sistema radicular ativo e fixar frutos sob altas temperaturas e evaporação elevada. Cristofani-Yaly cita três porta-enxertos mais tolerantes à seca, IAC 3152 Itajobi, IAC 3299 Muriti e IAC 3222. Os dois primeiros já estão disponíveis para os produtores. No café, floração, pegamento e desenvolvimento inicial dos frutos também são períodos sensíveis. A floração responde à distribuição das chuvas. Déficits prolongados ou umidade excessiva podem afetar o desenvolvimento reprodutivo. Em anos chuvosos, as perdas de qualidade também podem ocorrer na colheita, na secagem e na pós-colheita. Equilíbrio delicado A sanidade completa o quadro. Condições favoráveis ao crescimento das plantas podem ser benéficas, ao mesmo tempo, para organismos que reduzem a produção. “Os efeitos sobre o crescimento da planta e sobre sua sanidade acontecem ao mesmo tempo”, afirma Mário Eidi Sato, pesquisador do Instituto Biológico e responsável pelo Centro de Manejo Sustentável de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas (Cemasu) , outro CCD da FAPESP. Para que uma doença se instale na planta é preciso que exista uma “condição ideal”, ou seja, a coincidência entre patógeno, planta suscetível e ambiente favorável. Mais do que o volume mensal de chuva, importa o tempo em que folhas, flores e frutos permanecem molhados. Chuvas repetidas prolongam as oportunidades de infecção. Nos citros, as chuvas frequentes na florada favorecem a podridão floral por espécies de fungo Colletotrichum e a queda de frutos jovens. No café, o volume de água necessário ao desenvolvimento pode coincidir com condições favoráveis à ferrugem. Em hortaliças a céu aberto, a umidade prolongada das plantas e a drenagem deficiente favorecem doenças foliares e podridões. Na cana, solo úmido pode beneficiar a cigarrinha-das-raízes, mesmo quando a água favorece o crescimento dos colmos. As pragas, por sua vez, podem reagir no sentido oposto. Calor e tempo seco favorecem o bicho-mineiro do cafeeiro em determinadas regiões. O clima interfere também nas ferramentas de controle. Temperatura, umidade e chuva alteram inimigos naturais, agentes biológicos e biopesticidas. O calor extremo pode comprometer parasitoides e a baixa umidade limita a eclosão dos ovos de alguns ácaros predadores. A previsão sazonal prepara a estratégia, mas a decisão operacional depende do microclima e do monitoramento da lavoura. De acordo com o diretor-presidente executivo da Copercana, informação e planejamento são ferramentas das quais o produtor não pode abrir mão para enfrentar o fenômeno climático. “Os tratos culturais precisam ser feitos com mais planejamento. Os insumos precisam ser muito bem aplicados para não haver desperdício de produto já que teremos solos encharcados”, afirma Francisco César Urenha. “O produtor precisa estar atento e bem informado para conduzir o seu canavial e evitar prejuízos.” Dados de um projeto da CNA e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), chamado Campo Futuro, reforçam o alerta de Urenha. Os resultados do programa apontaram um aumento de até 400% no custo de aplicação de fungicidas em regiões do Rio Grande do Sul durante anos de El Niño. A mitigação de impactos como esse, em um cenário de fenômeno climático muito forte, como se apresenta o El Niño neste ano com probabilidade cada vez maior, exige conservação do solo, planejamento climático e proteção financeira, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de Inteligência e Projetos da CNA. “Apesar do comprovado valor técnico dessas soluções, uma parcela expressiva dessas medidas de adaptação permanece fora do alcance da maioria dos pequenos e médios produtores rurais. O principal obstáculo está na elevada necessidade de capital intensivo para a implantação de infraestruturas de proteção”, diz.