Brasil tem só 1% de adolescentes com leitura avançada

admin
4 Oct, 2026
Charge gerada por IA Compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir fatos de opiniões a partir de pistas implícitas sobre o conteúdo ou a fonte. Ser também capaz de avaliar a neutralidade e o viés de um texto . A tudo isso acima, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) denomina “ alto desempenho em leitura ” no PISA (Programme for International Student Assessment), ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, uma avaliação internacional em larga escala a cada 3 anos que mede o que estudantes de 15 anos sabem e conseguem fazer em matemática, leitura e ciências. No PISA 2025, apenas 1% dos alunos brasileiros de 15 anos logrou o nível 5 ou superior, contra 6% da média da OCDE. O número vale para aqueles que estão matriculados nessa idade, ou seja, excluindo jovens fora da escola e adultos. Em 2022, eram 2%. Em 2025, 49% dos estudantes brasileiros chegaram ao nível 2 ou mais em leitura, contra 69% da média da OCDE. A nota foi de 408, frente a 461 da organização, quase igual aos 410 de 2022. A OCDE diz que os resultados de 2025 estavam próximos ao que foi observado em todas as avaliações desde 2015. Desde a primeira edição, em 2000, a média brasileira em leitura apresentou comportamentos entre 393 e 413. As redes sociais e um problema mais antigo O Brasil é um país de muito tempo conectado. No fim de 2025, havia 185 milhões de internautas, o que corresponde a 86,9% da população total, frente a 73,2% no mundo, pelo DataReportal. O mesmo relato ainda traz 217 milhões de conexões móveis, das quais 102% da população, embora parte delas sejam de voz e SMS, e 150 milhões de perfis em redes sociais que não correspondem a pessoas únicas. Em fevereiro de 2025, segundo dados do DataReportal, We Are Social e Hootsuite , coletados novamente pela Statista, os visitantes da internet brasileira dedicavam, em média, 3h49 diárias em redes, o maior tempo entre os países listados, contra 2h21 da média mundial. Os números demonstram presença e consumo, mas não dizem quem está opinando ou como lê. A justificativa corrente atribui aos celulares e às redes sociais, mas a média brasileira na leitura já estava nesta faixa em 2000, antes do Orkut, 2004, e do iPhone, 2007. Em 2025, eram 81% os estudantes brasileiros que estavam em escolas em que o diretor indicou que os celulares não podiam ser usados no estabelecimento, contra 37% em 2022 e a nota em leitura passou de 410 para 408. A restrição é recente demais para que se tire conclusões sobre o desempenho. Comprar um livro não é lê-lo O quadro da leitura espontânea faz parte de outro cenário. Na pesquisa Retratos da Leitura 2024, 43% da população de 5 anos ou mais leu ao menos uma parte de algum livro, de qualquer tipo, por gosto, nos 3 meses anteriores. Entre os entrevistados que sabem ler e escrever, 62% disseram que não leem literatura por vontade própria e apenas 7% leram todos os dias ou quase todos. As vendas, porém, vão noutra direção. As editoras de obras gerais, categoria sem os materiais didáticos, apresentaram crescimento nominal de 8,7% e real de 4,3% em 2025, com avanço de 12% em faturamento de ficção adulto. O desempenho comercial do livro, por si só, não expressa o hábito de leitura. A escola e a formação de quem ensina A escola avança, mais lentamente nas etapas finais. No Saeb de 2025, na rede pública, as médias em Língua Portuguesa foram de 207,6 para 215,1 no 5º ano, de 252,9 para 256,6 no 9º ano e de 269,1 para 272,3 no 3º ano do ensino médio. De acordo com o MEC, os anos iniciais das escolas públicas alcançaram patamar superior ao de 2019 e atingiram o nível adequado, enquanto os anos finais permanecem no nível básico. Na Prova Nacional Docente de 2025, a proficiência foi atingida por 62,8% dos participando de Pedagogia e por 60,7% de Letras. Entre os concluintes de licenciaturas a proficiência foi alcançada por 57,8% deles, 46,9% em cursos via ensino a distância (EAD) e 73,9% nos cursos presenciais. O problema da formação é anterior. Em 2009, estudo da Fundação Carlos Chagas, coordenado por Bernardete Gatti e Marina Nunes, analisou 71 cursos de Pedagogia, presenciais, e identificou um currículo fragmentário que se apresenta disperso em torno de um conjunto disciplinar. Apenas 7,5% das disciplinas tratavam de como ensinar nas séries iniciais e 20,7% de como ensinar . O Decreto 12.456, de maio de 2025, vedou as licenciaturas 100% EAD e deu às instituições o prazo, até maio de 2027, para que se adequassem. A Portaria MEC 381/2025 estabeleceu que os cursos autorizados já entram em extinção, sem novos ingressantes e com direito de conclusão assegurado aos alunos matriculados. Precisamos ser honestos. Nada disso se refere a um único culpado e a disputa entre o método fônico e as abordagens construtivistas permanece em aberto entre os especialistas. A mudança nas licenciaturas atinge a formação dos futuros professores brasileiros e seria precipitado tratá-la como sendo resposta para indicadores que medem estudantes de 15 anos matriculados. O INAF que coíbe adultos, mede também outras habilidades além de leitura e, por isso, fica fora desse recorte. Não se pode esperar, todavia, que a escola faça tudo. A solução definitiva para um Brasil com leitura deficitária está em casa . Mesmo pais, mães e responsáveis com formação educacional limitada são capazes de incentivar os seus filhos e filhas a lerem mais e com maior qualidade.