Tradição e bom humor

admin
2 Oct, 2026
Nos primórdios do Instituto Butantan, dizem as histórias, Vital Brazil e sua equipe pioneira chegaram a aplicar em si mesmos doses controladas de venenos ou do soro experimental que criavam. Não havia os protocolos éticos atuais, e foi em parte com essas pesquisas que o Brasil ganhou uma instituição científica mundialmente reconhecida. Hoje, pisar em jararacas pela ciência é considerado algo tão exótico que nos traz um troféu Ig Nobel, como veremos nesta edição. Em seus melhores momentos, o prêmio da revista Annals of Improbable Research celebra com humor a criatividade metodológica. (O artigo foi retratado porque, segundo o comitê de ética, eles pisaram em cobras recém-nascidas. A equipe discorda.) Neste mês, trazemos também as homenagens mais tradicionais, como os ganhadores do Prêmio Fundação Conrado Wessel, e os livros lançados por pesquisadores brasileiros. E vai ter moda de viola em Barão Geraldo! Prêmio Wessel Mario Murakami , engenheiro de alimentos e doutor em física nuclear pela Unesp, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Ciência. Diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética, ele pesquisa os desafios da bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis. O prêmio de Cultura foi para o padre Júlio Lancellotti , reconhecido nacional e internacionalmente por seu trabalho de acolhimento e atenção à fatia mais excluída da população de São Paulo. Cada um receberá um prêmio de R$ 500 mil em dinheiro, numa cerimônia que ocorrerá em outubro. “São escolhas que reafirmam o propósito do Prêmio FCW de reconhecer trajetórias de excelência, impacto social e compromisso ético”, disse Carlos Vogt, diretor-presidente da fundação e ex-presidente da FAPESP. Ig Nobel O bem-humorado prêmio a pesquisas científicas pouco ortodoxas foi concedido, na categoria Biologia, a um grupo de pesquisadores brasileiros e foi representado por João Miguel Alves Nunes , atualmente estudante de doutorado no IB-USP. Eles avaliaram o que faz com que uma jararaca-da-mata ( Bothrops jararaca ) dê o bote quando é pisada — e descobriram que não é sequer preciso tocar na cobra para que ela reaja. No Brasil, estima-se que mordidas dessa jararaca correspondem a 90% dos acidentes registrados envolvendo humanos e cobras. A metodologia foi o que chamou a atenção da banca: em ambiente controlado, com botas de segurança, os autores pisaram perto e sobre diversas partes do corpo de 75 cobras peçonhentas, com várias intensidades, registrando em relação aos cientistas o tamanho do corpo, sexo, temperatura do corpo, temperatura ambiental e hora do dia em que a interação ocorria. À imprensa, Nunes disse que descobriu no experimento ser alérgico ao veneno. Residência artística Ivan Vilela , violeiro, professor da USP e pesquisador de cultura popular, iniciou em setembro uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Até dezembro, ele dará palestras e minicursos sobre temas que capturam sua atenção, como as tradições culturais orais e o Clube da Esquina. De 5 a 9 de outubro, ele oferece uma oficina para os estudantes de música do Instituto de Artes da universidade. Comunicação da ciência Em 26 e 27 de outubro, o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) realiza no Goethe-Institut São Paulo o encontro “Science Communication in Transition: Strategies, Responsibilities and Emerging Challenges in Germany and Brazil”. Os palestrantes alemães incluem os pesquisadores Benedikt Fecher , diretor da Wissenschaft im Dialog (WiD), Jeanne Rubner , da Universidade Técnica de Munique, e Monika Taddicken , da Universidade Técnica de Braunschweig, além do jornalista Markus Lehmkuhl . Do Brasil, participam os jornalistas Bruno de Pierro , Daniel Dieb, Luiza Caires , Meghie Rodrigues e Karina Toledo , editora da Agência FAPESP, além dos pesquisadores Juri Castelfranchi e Mariana Rodrigues Pezzo . Mais informações e inscrições estão no site do DWIH-São Paulo: tinyurl.com/2s3rntat. Estante A ciência do universo: (quase) tudo o que você sempre quis saber sobre o cosmos, mas nunca perguntou Rogério Rosenfeld (Companhia das Letras) O professor de física teórica da Unesp explica as descobertas da área que ajudaram a entender o mundo desde os primeiros modelos cosmológicos baseados na Teoria da Relatividade Geral. Matemática para seres humanos (e alguns robôs) Marcelo Viana (Tinta-da-China) O diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) organiza textos seus publicados no jornal Folha de S.Paulo , mostrando como a matemática se manifesta em diversos aspectos do cotidiano. Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica Mário Augusto Medeiros da Silva (Zahar) O sociólogo, professor da Unicamp e pesquisador da cultura produzida pelos negros no Brasil analisa a luta pela abertura dos espaços culturais de São Paulo a autores, de Carolina Maria de Jesus aos Racionais MCs. Presença indígena no Brasil Mércio Pereira Gomes (Contexto) Um dos mais longevos presidentes da Funai (2003-2007), o professor de antropologia da UFRJ analisa a demografia indígena no Brasil, mostrando que a população dos povos originários tem aumentado. Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização Leticia Cesarino (Ubu) A pesquisadora da UFSC investigou como a participação em ambientes digitais pode levar usuários a aderir ao extremismo e cometer atos de violência extrema, de cunho político ou não. Anote na agenda 30.set a 2.fev. | FICA-SP (Fixação e Incentivo à Carreira Acadêmica em São Paulo) Doutores em início de carreira com alto potencial acadêmico e sem vínculo empregatício, com base em São Paulo, podem se inscrever na segunda chamada do FICA-SP. Serão selecionados até 100 projetos, em várias áreas acadêmicas. O programa é uma parceria da FAPESP com o CNPq e a Capes. 5 e 6.nov. | 1º Congresso Acadêmico Brasileiro de Cannabis Medicinal Estão abertas as inscrições para o Cabcann-FCF/USP, que ocorrerá no campus USP Butantã. Criado por Paulo Chanel Deodato de Freitas, o evento tem apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou o cultivo, a pesquisa, a fabricação e a comercialização de cannabis para fins medicinais e científicos no Brasil.