Startup cria curativo que pode ficar até sete dias sobre a ferida

admin
28 Sep, 2026
Uma membrana de biocelulose desenvolvida por duas pesquisadoras catarinenses poderá permanecer sobre uma ferida por até sete dias sem necessidade de troca. A tecnologia foi criada pela startup Nanobiocell para o tratamento de feridas crônicas e queimaduras e está na etapa final de desenvolvimento antes de chegar ao mercado. O produto, chamado Safelayer, aguarda as etapas regulatórias junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A membrana é formada por nanofibras de biocelulose que criam uma cobertura sobre a lesão. Segundo a empresa, a estrutura ajuda a manter a hidratação da pele, absorver secreções e proteger a região, além de contribuir para a redução da dor e do risco de infecções. A possibilidade de manter o curativo por vários dias também reduz a necessidade de manipulação frequente da ferida. A Nanobiocell foi criada em 2020 pelas pesquisadoras Katiusca Wessler Miranda e Janaina Lisi Leite Howarth, ambas professoras universitárias com atuação na área de biomateriais. A ideia inicial, no entanto, era diferente: produzir nanocelulose para fornecer como insumo a setores como alimentos, papel e celulose, indústria têxtil e farmacêutica. Os primeiros testes apresentaram resultados positivos, mas a produção como matéria-prima para outras empresas esbarrou em questões de escala e custo. A mudança de estratégia veio depois de conversas com médicos, enfermeiros, pacientes, distribuidores e farmácias. Foi nesse contato com o mercado que as pesquisadoras identificaram uma aplicação mais específica para a tecnologia: uma cobertura para feridas de difícil cicatrização. “Transformamos uma tecnologia que poderia ser apenas um insumo em um produto com aplicação direta na área da saúde”, afirma Katiusca. A partir daí, a empresa passou a concentrar o desenvolvimento na Safelayer. Da pesquisa ao produto A trajetória da startup também foi marcada por programas de apoio à inovação. Durante a Jornada de Empreendedorismo, Desenvolvimento e Inovação (JEDI), as pesquisadoras elaboraram o primeiro plano de negócios. Depois, a participação na segunda edição do Programa Centelha ajudou a financiar a estrutura inicial necessária para transformar a pesquisa em um produto. “Tínhamos uma boa ideia, mas não tínhamos recursos para testar. Os programas mudaram isso. Por exemplo, com o Centelha conseguimos montar nosso primeiro laboratório de 16 m², onde começamos a produzir a nanocelulose”, conta Katiusca. Com os recursos, a empresa conseguiu estruturar o laboratório, realizar testes em escala de bancada e avançar na validação técnica da solução. O Programa Centelha é uma iniciativa de apoio ao empreendedorismo inovador que combina recursos não reembolsáveis, bolsas, capacitação e suporte aos projetos selecionados. A segunda edição foi lançada em 2020 e previa atuação nos 26 Estados e no Distrito Federal. Hoje, a Nanobiocell funciona em uma fábrica de 140 metros quadrados e tem capacidade para produzir até 15 mil membranas regeneradoras por mês. A empresa informa estar no nível TRL 6 (Technology Readiness Level), classificação utilizada para indicar o grau de maturidade de uma tecnologia. Nessa etapa, a solução já foi demonstrada em ambiente relevante. A meta da startup é chegar ao TRL 9 até 2028, estágio associado à tecnologia já demonstrada em condições reais de operação. Para isso, ainda são necessárias as etapas regulatórias e de produção que antecedem a comercialização do produto. Além da Safelayer, a empresa desenvolveu uma segunda cobertura voltada a queimaduras de primeiro grau e queimaduras solares. O lançamento está previsto para 2027. O desafio das deep techs A experiência da Nanobiocell também ilustra uma das dificuldades enfrentadas pelas chamadas “deep techs”, startups baseadas em conhecimento científico ou tecnológico que, em geral, precisam de mais tempo e recursos para transformar uma pesquisa em produto comercial. No caso da empresa catarinense, o intervalo entre a pesquisa, a definição da aplicação, os testes e a preparação para o mercado exigiu sucessivas etapas de desenvolvimento. Para Katiusca, os programas de fomento foram importantes justamente nesse período em que a empresa ainda não tinha receita proveniente da comercialização. “A Nanobiocell avançou por conta de programas de incentivo. Investimentos privados só vêm com a diminuição dos riscos. O tempo necessário para reduzir os riscos em deep techs pode ser alto”, afirma. O desafio, agora, é transformar a tecnologia desenvolvida no laboratório em um produto disponível para pacientes e profissionais de saúde. A autorização da Anvisa será uma das etapas decisivas desse processo. O post Startup cria curativo que pode ficar até sete dias sobre a ferida apareceu primeiro em Catraca Livre .