Montadoras tradicionais se aliam a chinesas para avançar em eletrificados

admin
28 Sep, 2026
Resumo Diante do avanço de marcas chinesas, montadoras tradicionais passaram a fechar parcerias com empresas do país asiático para não ficar para trás na eletrificação de carros. O segmento, que inclui carros 100% elétricos e híbridos, já é responsável por um quarto do total de automóveis vendidos no Brasil neste ano, com 372 mil unidades até agosto. Empresas da China dominam esse mercado com modelos importados ou montados em fábricas locais com peças vindas das matrizes. Com o sinal de alerta piscando, as montadoras tradicionais anteciparam planos de eletrificação que estavam previstos para daqui a alguns anos. A solução mais viável para acelerar o processo foi buscar parcerias estratégicas com as concorrentes para ter acesso às tecnologias de eletrificação e ao "China Speed", termo usado para definir a rapidez das chinesas em desenvolver novos produtos. Em dez anos, a China reduziu o ciclo de criação de novos veículos à metade em relação à indústria tradicional, que leva em média de três a cinco anos, segundo Marcus Ayres, CEO da Aucta Capital, empresa de consultoria estratégica e financeira. Nas parcerias que fecham com as montadoras tradicionais no Brasil, as chinesas usufruem da estrutura industrial já instalada, da rede de revendas, do sistema de financiamento e do pós-vendas das parceiras locais. Os acordos feitos até agora envolvem conglomerados cujas matrizes já têm joint-ventures na China. Cinco grupos que atuam no Brasil já estão com parcerias consolidadas — Renault, Stellantis, General Motor, Caoa e Volkswagen Caminhões e Ônibus — e um está em negociações — Nissan (embora a empresa não confirme). Essa busca atual por parcerias inverte a lógica iniciada no fim dos anos 1970, quando empresas do Ocidente fizeram joint ventures com marcas da China para participar do crescente mercado de carros de lá. Hoje, são elas que cedem mercado em troca do know-how. Fazer associações é uma boa estratégia, pois a indústria tradicional global ficou para trás em relação à China, avalia o consultor Milad Kalume, da K.Lume. Ele ressalta que as montadoras do Brasil só começaram a se mexer nessa direção após a chegada das chinesas GWM e BYD, em 2022. Elas estabeleceram fábricas com rapidez e praticamente desenvolveram o mercado de eletrificados no país. Enquanto essas duas companhias instalavam suas plantas aqui, o consumidor brasileiro foi atraído pela tecnologia e pelos itens de conforto e segurança de modelos com preços competitivos. Isso garantiu às chinesas uma participação de 21% nas vendas de automóveis neste ano. Em 2016, a fatia era de 0,5%, segundo a consultoria K.Lume. As parcerias Há menos de um ano, a Renault uniu-se à Geely, que ficou com 26,4% de suas ações. Neste mês, o híbrido plug-in Geely EX5 EM-i começou a ser produzido em São José dos Pinhais (PR), na fábrica da Renault. Em dezembro será a vez do EX2, 100% elétrico. A Renault usará a mesma plataforma tecnológica para fazer o primeiro eletrificado nacional da marca em 2027. Segundo afirmou em uma entrevista recente François Provost, CEO global do grupo Renault, trata-se de uma parceria ganha-ganha que vai acelerar inovações, aumentar a competitividade e ampliar a oferta de produtos aos clientes. A produção do EX5 utiliza vários processos locais, como os de carroceria e pintura, e a empresa trabalha para ampliar a nacionalização. No fim do ano, a Stellantis — dona de Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën — iniciará a produção para testes de carros da também chinesa Leapmotor na fábrica de Goiana (PE). Os modelos C10 e o B10 com sistemas híbrido REEV (o motor a combustão apenas gera energia para o sistema elétrico) serão montados no local, inicialmente com todas as peças importadas. O grupo também estuda um acordo com a Dongfeng, recém-chegada ao Brasil com o nome de DFM. O presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, afirma não comentar negociações em andamento, mas diz que "avalia oportunidades para ampliar essa cooperação na região, considerando projetos que façam sentido para o mercado regional". A DFM tem intenção de usar parte das instalações da Stellantis em Porto Real (RJ) e de comprar a fábrica de motores de Campo Largo (PR), desativada há quatro anos. Outra possibilidade é a planta da Nissan em Resende (RJ). O grupo japonês não confirma negociações, mas diz que "avalia continuamente oportunidades que possam gerar valor para o negócio e para os clientes". A Volkswagen Caminhões e Ônibus, líder em vendas de caminhões e vice-líder em ônibus, viabilizou sua entrada no mercado de comerciais leves via cooperação com a Saic, que tem sede em Xangai. Inicialmente, os furgões serão produzidos na China e importados. Para atender as condições do mercado local, o veículo recebeu mais de 250 adaptações. No futuro, a linha será transferida para o Brasil ou outro país da região. Segundo Roberto Cortes, presidente da VWCO, a empresa tentava entrar nesse segmento havia décadas. "Isso só foi possível com a parceria, que vai viabilizar o custo." Projetos pontuais No caso da Volkswagen, por enquanto não há planos de união com chinesas no segmento de automóveis, mas existem iniciativas pontuais de cooperação. Junto à Saic, a montadora desenvolveu a nova picape Amarok, que será produzida na Argentina em 2027. O projeto utiliza uma plataforma de origem chinesa com engenharia e adaptações da marca alemã para o mercado regional. "A Nova Amarok reúne o melhor de dois mundos, a velocidade chinesa e a qualidade e robustez da engenharia alemã", diz Alexander Seitz, chairman da Volkswagen na América do Sul. Segundo ele, as duas empresas desenvolveram uma tecnologia de motorização eletrificada que ainda não existe em picapes. O grupo também tem participação na Xpeng, mas diz que, hoje, não há projetos conjuntos para o Brasil. A General Motors escolheu utilizar uma plataforma desenvolvida na joint venture que mantém na China com a Saic e a Wuling para produzir carros elétricos com a marca Chevrolet. A produção dos modelos Spark e Captiva foi terceirizada para o Polo Automotivo do Ceará (Pace), por enquanto com kits (SKD) importados. O vice-presidente da GM América do Sul, Fabio Rua, afirma que até o fim do ano a Pace vai montar também a versão híbrida plug-in do Captiva. "A produção local nos dá flexibilidade para ajustar volumes e ampliar gradualmente escala e capacidade conforme o mercado evolui." Importados ainda são dominantes Dos 372 mil eletrificados vendidos de janeiro a agosto, 61% são importados, 22,3% foram montados em sistemas de SKD (kits de peças que são importados semidesmontados) e CKD (importados desmontados, com a etapa final de produção feita localmente) e 16,7% são nacionais. Igor Calvet, presidente da Anfavea (associação das montadoras), apoia projetos focados em nacionalização progressiva, mas alerta sobre montagens perpétuas com peças chinesas e incentivos fiscais. "Isso não ajuda a desenvolver a indústria local e gera poucos empregos". Além das quatro parcerias recentes, o grupo brasileiro Caoa, que opera com a Chery desde 2017, fez aliança com a Changan e sua submarca Avatr em novembro de 2025 e ambas compartilham a linha de montagem da fábrica de Anápolis (GO). Para usar parte ociosa de sua fábrica em Catalão (GO), a HPE, responsável pela montagem de carros da Mitsubishi, selou acordo com a GAC para montar seus carros a partir de 2027. A Omoda & Jaecoo negocia a compra da fábrica da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ), desativada em junho deste ano. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.