Novato, Mauro Jr só virou lateral na pandemia e correu da seleção holandesa

admin
21 Sep, 2026
Resumo Uma das principais novidades da seleção brasileira para a "Super Data Fifa", o lateral-esquerdo Mauro Júnior tem uma história que deu muitas voltas até chegar à primeira convocação para a equipe principal. A começar pela posição em que apareceu na lista de Carlo Ancelotti. Em 2019, Mauro Júnior era um promissor meio-campista da seleção olímpica que mirava os Jogos de Tóquio. No ano seguinte, o mundo sofreria mudanças profundas com a pandemia de covid-19 — e a vida do jogador, recém-chegado ao PSV Eindhoven, também. A pandemia adiou as Olimpíadas em um ano, e Mauro saiu do radar da seleção. Meses depois, o caso de covid de um companheiro levou o brasileiro a jogar improvisado como lateral-esquerdo uma, duas, três vezes até virar o titular da posição. Hoje, ele é o capitão do tradicional clube holandês. O caminho até a seleção brasileira teve ainda outro obstáculo: o lateral precisou "driblar" o interesse dos holandeses, que o queriam vestindo a camisa da equipe laranja. Uma convocação "meio doida" A confirmação de que aquele caminho cheio de desvios finalmente o levaria à seleção veio no início do mês, durante o anúncio da primeira lista de Ancelotti após a Copa. Mauro já sabia que estava na pré-lista. "Essa convocação foi meio doida para mim. Eu fiquei sabendo que eu estava na pré-lista no jogo contra o Ajax. Logo após o jogo, o treinador comunicou no vestiário. E foi a maior festa no vestiário quando o treinador comunicou", contou Mauro Junior em conversa com o UOL. Até o anúncio da lista final, porém, foram quatro dias, em que a comemoração dividiu espaço com a ansiedade. "Eu sabia que era uma pré-lista, né? E aí, oficialmente mesmo, seria somente no dia que o Ancelotti falasse. Cara, eu estava na frente da televisão, ansioso, um pouco nervoso também, esperando essa convocação. Mas, graças a Deus, meu nome estava lá e estou muito feliz de poder representar o meu país. É um sonho desde criança, que acredito que todo moleque brasileiro sonha", resumiu. O dia que mudou a carreira Mauro Junior começou a carreira como meia-atacante, mas vinha jogando como ponta e segundo volante no PSV. A mudança para a posição de lateral só aconteceu na temporada 2020/21, porque o titular, Philipp Max, contraiu covid. Sem outro lateral-esquerdo disponível, o então técnico Roger Schmidt recuou Mauro, que vinha atuando como ponta. "Desde quando eu comecei a jogar na lateral, não era por conta da seleção ou algo assim. Foi mais por conta do clube mesmo. Acabou que um jogador nosso pegou covid e não tinha ninguém na posição. Eu estava jogando de ponta esquerda. Então, eu só fui um pouco mais para trás para jogar de lateral. E aí eu comecei a jogar de lateral esquerda, fiz meu primeiro jogo e fui o melhor em campo", lembra. A estreia na função aconteceu contra o Vitesse, em uma partida disputada em casa e ainda sem público por causa das restrições da pandemia. O bom desempenho levou Mauro a perceber que poderia alcançar um nível mais alto na lateral do que como meio-campista ou ponta. Para isso, precisou aprender conceitos defensivos e adaptar o posicionamento. "Eu gostei bastante de ter jogado de lateral. Eu acreditei que poderia chegar num nível acima do que conseguiria como meia. Poderia evoluir melhor. Claro, eu precisava de algumas adaptações defensivas, algumas adaptações de posicionamento, de corpo e tal", explica. "Mas, desde o meu primeiro treino, primeiro jogo, eu senti que poderia chegar num nível a mais do que jogando de meia e extremo. Então, essa decisão foi mais por conta do que o PSV estava precisando naquele jogo e acabou ficando aí até hoje." "O sonho falou mais alto" Enquanto a convocação brasileira não chegava, Mauro entrou no radar da seleção holandesa. Houve um contato para saber se ele estaria disposto a defender o país no qual construiu praticamente toda a carreira profissional. "Teve um contato para saber se eu teria interesse em representar a Holanda, em estar aberto a jogar pela Holanda. Mas, desde o começo, para mim foi algo muito duvidoso." Naquele momento, o lateral ainda não parecia próximo de receber uma oportunidade com a camisa do Brasil. Mesmo assim, preferiu não levar a conversa com os holandeses adiante. "Aquele sonho de jogar pela seleção brasileira, que só a gente que é brasileiro sente isso, sempre falou mais alto, por mais que as circunstâncias em volta de mim, naqueles momentos, não estivessem tão perto de ter uma convocatória para a seleção." "Então, houve o primeiro contato, mas eu, desde o começo, meio que não quis levar muito adiante isso. Porque eu sempre sonhei em jogar pela seleção brasileira e sempre tive esperança de jogar pela seleção brasileira também." Mauro comparou a própria reação à história de Andreas Pereira, que também teve a oportunidade de representar outra seleção — no caso, a Bélgica —, mas optou pelo Brasil. "Praticamente, eu disse meio que não. Meio que corri também dessa forma, como o Andreas fez", relembra. Um lateral ofensivo Mauro chega à seleção como uma alternativa ofensiva para a lateral esquerda, algo que a seleção não teve na Copa do Mundo — Douglas Santos e Alex Sandro tinham características mais voltadas para a defesa. Além da capacidade de alcançar a linha de fundo, ele se destaca pela qualidade no passe e nos cruzamentos. "Eu sou muito ofensivo como lateral-esquerdo. Eu chego bastante no fundo e tenho muita qualidade nesse passe, nessa zona de assistência. Tenho muita qualidade nesses passes e cruzamentos", define. A versatilidade também pesa a seu favor. Meio-campista de origem, ele pode atuar como volante e ponta, além de ocupar as duas laterais. Mas, para Mauro Junior, sua maior virtude é a entrega coletiva — e não a capacidade de jogar em várias posições. "A minha maior qualidade, minha maior virtude, é nunca desistir das jogadas. É sempre dar o máximo de mim, o máximo que eu posso, para vencer cada duelo, para ajudar a equipe. Deixo tudo de mim dentro de campo para poder ganhar um jogo pela equipe. Eu acho que isso é uma das minhas maiores qualidades", afirma. "Comendo grama" A convocação não é encarada apenas como a realização de um sonho. Mauro sabe que terá pouco tempo para convencer Ancelotti de que merece continuar no grupo e pretende tratar cada treino como uma oportunidade. "Desde o primeiro dia, desde o primeiro treino, eu tenho que estar preparado para dar a minha vida no treino. É isso que eu tenho na cabeça já", afirma o lateral, que não teve carreira no futebol brasileiro — atual apenas na base do Desportivo Brasil. Mauro Junior sabe que, nesse tipo de situação, as chances podem aparecer aos poucos, por isso tem se preparado para ganhar mais espaço e ter uma sequência. "Se tiver dez minutos, se tiver 15 minutos, é uma oportunidade única que eu tenho para poder mostrar e poder ganhar mais minutagem nos próximos jogos, talvez na próxima convocação." "Eu vejo isso como uma grande oportunidade diariamente para mim, para poder mostrar o meu trabalho para a comissão técnica e também para poder agregar e ajudar a seleção brasileira. Se precisar comer grama, a gente vai comer grama juntos. Vamos dar a vida", conclui. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.