China se esforça para promover robôs humanoides, mas demanda real ainda é pequena
7 Sep, 2026
Os fabricantes de robôs humanoides na China estão obtendo a maioria de sua receita com a venda de máquinas a centros de treinamento apoiados pelo governo. Esses locais, por sua vez, coletam e revendem dados de treinamento aos próprios fabricantes —modelo que levanta dúvidas sobre a demanda real no setor que Pequim está empenhada em promover. O modelo, que lembra o financiamento circular da Nvidia para centros de dados de inteligência artificial, impulsionou o chamado setor de IA incorporada da China. Avaliações de startups como AgiBot e UBTech, listada em Hong Kong, dispararam diante da expectativa de que os humanoides serão o futuro da IA. Mas os investidores estão começando a questionar se as compras promovidas pelo governo podem levar a uma demanda comercial real. Um investidor sênior de um fundo de capital de risco de Pequim, que pediu para não ser identificado, diz que muitos investidores concordam que a robótica humanoide está próxima do ciclo de euforia. Segundo ele, muitos estão buscando formas de reduzir participações. Como parte do plano de Pequim para desenvolver o setor de robôs humanoides, o governo incentivou administrações locais a construir centros de treinamento nos quais humanos ensinam os robôs a realizar tarefas físicas por meio de um processo controlado remotamente chamado teleoperação. Isso estimulou a proliferação de startups de robótica. Quase 370 foram criadas nos últimos dois anos, e mais de 50 delas abriram capital ou estão se preparando para fazê-lo. A mais acompanhada, a Unitree, avançou mais de 600% após estrear em agosto no Star Market, segmento da Bolsa de Xangai voltado à tecnologia, alcançando uma avaliação de US$ 50 bilhões (R$ 259,6 bi). Os centros, muitas vezes cofinanciados por governos locais e fabricantes de robôs, compram as máquinas, geram dados de treinamento e vendem esses dados aos fabricantes, que os utilizam para aprimorar a tecnologia. "Esse modelo está se espalhando rapidamente porque reduz o custo de construção de instalações, compra de equipamentos e organização de equipes de teleoperação", afirmou Poe Zhao, analista independente de tecnologia chinesa e fundador da Hello China Tech. "Mas ele também ofusca a distinção entre demanda independente e demanda criada em um ecossistema apoiado por políticas públicas." Apenas uma pequena parcela dos dados é vendida a fabricantes de outros setores, como montadoras de automóveis, para aplicações em linhas de montagem, disseram funcionários dos centros de treinamento. Outro investidor diz que o modelo não se sustenta. Para ele, investidores começarão a reavaliar suas posições se as empresas não conseguirem provar que seus robôs podem ser utilizados em larga escala em fábricas. Mais de 90 centros de treinamento haviam sido estabelecidos ou estavam em construção em toda a China até junho, segundo a consultoria Interact Analysis. Os principais centros afirmaram gerar mais de 10 milhões de pontos de dados por ano. Os preços variam, mas um vendedor disse ao Financial Times que os dados de treinamento para uma dança de cinco minutos executada por um robô poderiam custar até 1 milhão de renminbi (R$ 768,6 mil). A expansão dos centros de treinamento está reformulando as projeções para o setor. O Morgan Stanley elevou sua estimativa para embarques de robôs humanoides na China em 2026. A previsão passou de 28 mil unidades em junho para 50 mil unidades agora, com compras acima do esperado por governos locais e usuários comerciais. Os defensores do modelo argumentam que ele ajudará a desenvolver o setor de robótica e a cadeia de suprimentos do país. Eles citam os exemplos dos veículos elétricos e dos painéis solares —setores que a China hoje domina, mas que tiveram sua demanda inicial impulsionada por compras governamentais. Para os governos locais, o modelo ajuda a atrair investimentos, talentos e cadeias de suprimentos para regiões onde a receita com a venda de terrenos diminuiu. Alguns centros contratam universitários como instrutores de robôs e oferecem visitas pagas a crianças e adolescentes durante as férias escolares. Para os fabricantes de robôs e seus fornecedores, os centros são uma fonte de receita em meio à limitada demanda comercial. A Leju Robot, sediada em Shenzhen, afirmou que os centros de treinamento responderam por 45% das vendas de seu principal humanoide, o Kuavo, no ano passado, tornando-se sua maior fonte de receita. A UBTech informou ter recebido 140 milhões de renminbi (R$ 109 mi) em encomendas de centros de treinamento apoiados pelo governo em 2025. Embora ainda opere com prejuízo, a empresa afirmou que as entregas de robôs foram 41% de sua receita no ano passado e disse esperar que as encomendas governamentais impulsionem o crescimento este ano. Quase três quartos da receita da Unitree com robôs humanoides nos primeiros nove meses de 2025 vieram de usuários dos setores de educação e pesquisa, incluindo universidades. Analistas disseram que uma proporção relativamente pequena dos embarques foi destinada a centros de coleta de dados. Analistas afirmaram que os estreitos vínculos entre governos locais e fabricantes de robôs dificultavam distinguir a demanda genuína das compras motivadas por políticas públicas. No maior centro de treinamento de robôs de Pequim, onde mais de cem robôs Kuavo foram colocados em operação, a Leju detém quase 38% da empresa operadora, segundo registros cadastrais. A UBTech não quis comentar. Leju e Unitree não responderam aos pedidos de comentário. Outra questão em aberto é se os dados gerados justificam o investimento. Marco Wang, analista da Interact Analysis sediado em Xangai, afirmou que os dados dos centros de treinamento não serão "100% úteis" porque os robôs não são empregados em ambientes reais. Analistas do Goldman Sachs disseram que a escassez de dados de alta qualidade provenientes do mundo real continuava sendo o maior obstáculo à adoção generalizada. Uma gerente sênior de um centro de treinamento no norte da China afirmou que os dados de cada fabricante de robôs só podiam ser usados por aquela própria empresa. Segundo ela, isso levantava preocupações quanto à compatibilidade. Ela acrescentou que, em média, apenas duas ou três horas de dados de um turno de treinamento de oito horas eram realmente aproveitáveis. "A China muitas vezes aceita duplicações e projetos fracassados nos estágios iniciais de um setor estratégico", afirmou Zhao, da Hello China Tech. "A expectativa é que o aprendizado técnico, cadeias de suprimentos mais robustas e algumas empresas globalmente competitivas possam compensar as perdas em outras áreas."