Como Augusto Cury ergueu um império comercial a partir de uma teoria controversa
6 Sep, 2026
Augusto Cury (Avante) entrou na corrida presidencial com um recorde que nenhum outro candidato pode ostentar. Ele é dono do maior patrimônio declarado entre os concorrentes de 2026: R$ 242 milhões — quase 35% acima da fortuna de Romeu Zema, segundo colocado no ranking. Para chegar lá, o psiquiatra e escritor de 67 anos construiu um império comercial com livros de autoajuda, cursos, palestras, apostilas e um método pedagógico vendido para prefeituras e escolas particulares de todo o Brasil. E tudo isso a partir de uma teoria sobre a mente humana que ele mesmo criou e, agora, tenta aplicar ao país inteiro. Segundo Cury, o “gatilho” (para usar um termo psicológico da moda) dessa trajetória foi uma depressão. No início da década de 80, quando ainda cursava a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), ele passou por uma crise emocional que o levou a se perguntar por que tinha tão pouco controle sobre as próprias emoções. Usando a si mesmo como laboratório, Augusto Cury passou os anos seguintes pesquisando e escrevendo sobre o que chama de “mecanismos de construção do pensamento”. Até que, em 1999, o psiquiatra publicou Inteligência Multifocal, um livro ambicioso onde apresentou pela primeira vez sua própria teoria sobre o funcionamento psíquico das pessoas. Para Cury, a memória funciona por meio de “janelas”. Algumas guardam traumas e lembranças negativas. Outras, experiências saudáveis. E cabe a cada indivíduo administrar quais dessas janelas devem ser abertas diante das situações do dia a dia. Essa é, em linhas gerais, a Teoria da Inteligência Multifocal — a base de tudo que viria depois, encorpada ao longo do tempo com novos conceitos. Todos com nomes supostamente técnicos e um tanto grandiosos: Síndrome do Pensamento Acelerado, Gestão da Emoção e Mesa Redonda do Eu, entre outros. Filme na Netflix Para alcançar um público maior, Augusto Cury passou a traduzir suas ideias para uma linguagem mais simples, em livros com temas de fácil identificação. Títulos como “Nunca Desista de Seus Sonhos”, “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes” e “Seja Líder de Si Mesmo” marcam essa fase, impulsionada por números de vendas expressivos. Hoje, Cury soma mais de 40 milhões de exemplares vendidos, segundo dados fornecidos por ele mesmo e pelo mercado editorial. Uma parte importante desse sucesso veio de uma parceria com a rede de revendedoras da Avon, que distribuiu obras do autor em regiões do Brasil onde livrarias praticamente não existiam. Outro ponto de virada foi a publicação de O Vendedor de Sonhos (2008), romance sobre um morador de rua que impede o suicídio de um homem rico pregando o desapego material. Mais do que uma incursão do escritor pela ficção, o livro é uma forma de apresentar suas teses em uma embalagem mais acessível, “infiltradas” nas histórias e nos discursos dos personagens. A estratégia funcionou: a obra vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares, virou trilogia, peça de teatro e filme na Netflix. Mas a jogada seguinte seria ainda mais lucrativa. Prefeituras e shopping center Em 2010, Augusto Cury lançou a Escola da Inteligência, um pacote de material didático e treinamento de professores baseado exatamente na Teoria da Inteligência Multifocal. Inicialmente voltado para escolas particulares, o produto logo se expandiu para a rede pública. A venda costuma ser feita diretamente para prefeituras — muitas vezes sem licitação, sob a justificativa de que o material é exclusivo (uma brecha legal usada quando se alega que só aquele fornecedor pode entregar o serviço). Cuiabá (MT), Paranaguá (PR), Lagoa Santa (MG) e Itajaí (SC) estão entre os municípios que contrataram o programa. Levando em conta estes e outros contratos, o valor médio anual fica na casa de R$ 1 milhão. Em 2020, a Arco Educação, uma das maiores empresas brasileiras do segmento, comprou 60% da Escola da Inteligência voltada ao setor privado por R$ 288 milhões (valor que deixou a companhia avaliada em R$ 480 milhões). Na época, o programa atendia cerca de 900 colégios e 330 mil alunos. No ano seguinte, o psiquiatra levou sua tese para dentro de um shopping center. Em parceria com a rede Multiplan, surgiu o MultiSer, um “centro de gestão da emoção” instalado no RibeirãoShopping, no interior de São Paulo. “Estamos iniciando um projeto que completará o nosso sonho: tratar, também, da alma humana”, disse José Isaac Peres, fundador da Multiplan. Cury completou: “Toda vez que tenho um projeto que procura neutralizar a dor humana, para mim é fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos, o que me faz viajar para dentro de mim”. “Nem pesquisador, nem cientista” Mas o conceito que sustenta esse império é contestado no meio científico. Em abril, depois de Augusto Cury anunciar sua candidatura à Presidência pelo Avante, o jornal Folha de S. Paulo consultou cinco psiquiatras sobre a Teoria da Inteligência Multifocal — e todos a refutaram. Segundo os especialistas, o conceito não possui validação estabelecida por meio de revisão por pares (a avaliação de estudos por outros pesquisadores da mesma área). E, por esse motivo, não é utilizado por eles na prática clínica. “Cury não é pesquisador nem cientista. Portanto, mesmo com a genialidade que ele possa ter, criar uma teoria do nada é bastante arriscado”, afirmou ao jornal o professor da USP Wagner Gattaz. Descompasso acadêmico Há ainda uma diferença curiosa na maneira como Augusto Cury apresenta sua própria formação acadêmica. No plano de governo entregue ao TSE, ele afirma ter doutorado em Psicologia Multifocal, concluído em 2013 pela Florida Christian University. Já no currículo Lattes, mantido pelo CNPq e preenchido pelo próprio autor, o título registrado é outro: PhD em administração de empresas pela mesma instituição americana. Questionado sobre esse descompasso, Cury afirmou que não apresenta o título como um doutorado acadêmico em Psicologia. De acordo com ele, a Teoria da Inteligência Multifocal é uma construção própria, desenvolvida ao longo de sua carreira. “O Brasil dos Nossos Sonhos” A instituição americana que concedeu o diploma também merece atenção. A Florida Christian University, do Bruno Portigliatti, é licenciada, mas ainda não conquistou o selo de qualidade acadêmica. A escola segue como “candidata” num processo de credenciamento junto à Association for Biblical Higher Education, com uma avaliação final marcada só para novembro. Não estamos falando de um título falso. A questão é outra: quanto vale um diploma de doutor emitido por uma universidade que ainda está tentando provar sua credibilidade para os órgãos americanos — ainda mais quando ele é citado num plano de governo? Mas é justamente no documento apresentado ao TSE que Cury aplica toda sua lógica em grande escala. Intitulado “O Brasil dos Nossos Sonhos”, o programa reproduz na capa elementos gráficos de seus livros e traz uma ideia que resume sua proposta: “A gestão da emoção será tão importante quanto qualquer política econômica”. É a mesma linguagem de seus textos, cursos, métodos educacionais, contratos públicos e negócios de centenas de milhões de reais. Depois de 25 anos transformando sua teoria em produtos, Cury agora quer convertê-la em política e poder. A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com Augusto Cury para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.