Como meu estúdio tem usado IA (não é um botão mágico)
4 Sep, 2026
Aviso: este texto não expressa a opinião institucional da Associação. O autor é membro da Abranima e ocupa este espaço para compartilhar, de forma livre, suas opiniões e vivências pessoais. Semana passada mostrei um plano de animação para um amigo. Cidade cyberpunk , chuva batendo no neon, um personagem atravessando a rua no meio da noite. Ele olhou, achou bonito, e disse: “Bacana, a IA fez isso pra você em dois minutos, né?” Eu ri na hora. Depois fiquei pensando, e resolvi escrever este texto. Porque aquela frase, dita sem maldade nenhuma, resume o maior mal-entendido sobre criar com inteligência artificial hoje. A ideia que virou senso comum é mais ou menos assim: você digita uma frase, aperta um botão e a máquina te devolve a cena pronta. É uma imagem sedutora. E é errada. Não porque a IA seja fraca, ela é impressionante. É errada porque confunde a ferramenta com o ofício. Ninguém nunca achou que o Photoshop pintava o quadro sozinho, e no entanto é mais ou menos isso que muita gente acredita sobre a IA generativa . Deixa eu te contar como a coisa funciona de verdade, do lado de dentro. No estúdio, a gente não tem “a IA” . A gente tem uma linha de produção onde cada ferramenta faz uma parte do serviço, como numa cozinha profissional em que ninguém pede pro forno preparar a salada. O personagem nasce e ganha corpo no Character Creator . Ele aprende a se mexer e a atuar no iClone . A imagem passa pelo ComfyUI, rodando na nossa própria máquina. A cidade, a luz e a câmera se montam no Unreal Engine . E o acabamento, o render final, muitas vezes fecha no Blender. Cinco ferramentas, cinco ofícios diferentes, uma cena só. O tal “prompt” que todo mundo imagina é talvez o menor e mais fácil elo dessa corrente inteira. E aqui é que o bicho pega, exatamente no ponto que ninguém de fora enxerga. O problema mais difícil da animação com IA não é fazer uma imagem bonita. Imagem bonita a máquina te entrega em segundos. O problema é fazer o mesmo personagem continuar sendo o mesmo personagem no plano seguinte. E no seguinte. E em outros trezentos depois desse. Peça duas vezes “um herói de jaqueta vermelha” e a IA te devolve dois heróis diferentes, dois rostos, duas jaquetas, dois jeitos de andar. Para quem está assistindo, um personagem que muda de cara a cada corte não é personagem, é defeito. Resolver isso, segurar identidade, continuidade e alma do começo ao fim de uma obra, é o trabalho de verdade. É lento, é técnico, e é bem ali que o suposto botão mágico simplesmente não existe . E olha, eu também caí nessa no começo. Comprei o hype inteiro, achei que ia acelerar tudo da noite para o dia. Levei minhas cabeçadas. Aprendi na marra que a IA não encurta o caminho do ofício, ela só te deixa percorrer esse caminho mais vezes no mesmo dia. Quem não sabia contar uma história continua sem saber, agora com imagens mais bonitas por cima. A ferramenta é nova; o ofício é o mesmo de sempre. Tem ainda uma escolha que quase ninguém comenta, e que para mim é a mais importante de todas: a gente roda tudo isso localmente, dentro de casa, e não na nuvem de outra empresa. Por quê? Porque no minuto em que você joga a sua criação no servidor dos outros para ser processada, você perde três coisas de uma vez, velocidade, controle e, a mais séria delas, autoria. O universo de ficção científica que estamos erguendo aqui é um ativo. É propriedade nossa, da primeira ideia ao último quadro. E ativo a gente protege, não entrega de bandeja para rodar na máquina alheia. Assombração sabe para quem aparece: quem não cuida do que é seu costuma descobrir tarde demais de quem aquilo virou. Então, se você está pensando em produzir com IA , seja para um curta, um clipe, uma marca ou um universo inteiro, leva daqui três coisas que eu queria ter ouvido antes de começar. A primeira: a IA é um elo, não a corrente. O resultado bom nasce do encaixe entre ferramentas e decisões, não de uma frase de efeito. Aprenda o processo, não só o prompt. A segunda: consistência é o trabalho de verdade. Fazer bonito é fácil, fazer igual plano após plano é onde mora o ofício. É nisso que vale gastar o seu tempo. A terceira: se aquilo que você cria é seu, mantenha perto. Rodar local dá mais trabalho, e é o que garante que a autoria continue sua no dia em que o projeto der certo. IA generativa não é botão mágico. É ferramenta nova na mão de quem já sabe construir, e um convite para quem quer aprender. Um grande abraço e bons sons. Claudio Girardi O post Como meu estúdio tem usado IA (não é um botão mágico) apareceu primeiro em Catraca Livre .