Tubarões do Rio estão cheios de cocaína e remédios: por que isso é perigoso para todos nós
2 Sep, 2026
Gerando resumo Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) detectaram níveis alarmantes de cocaína no organismo de tubarões e raias na costa do Rio de Janeiro. Os cientistas analisaram animais capturados acidentalmente por pescadores e todos apresentaram altos índices das drogas nos músculos e no fígado - que representa um forte indicativo da contaminação dos oceanos. Como o tubarão é um animal do topo da cadeia alimentar, o fato de ele estar contaminado indica que toda a cadeia também está. “O que acontece especificamente no Rio, se repete em outros lugares. É que o Rio de Janeiro tem o emissário submarino (sistema de tubulação), que joga o esgoto tratado na praia de Copacabana e na Barra da Tijuca”, afirmou o biólogo Marcelo Szpillman, diretor do AquaRio, especialista em tubarões. “Tudo que a gente coloca no chuveiro, na pia e, especialmente, no vaso sanitário, vai para esse emissário, que tem uma capacidade de filtração primária apenas, ou seja, ele só retém coisas grandes. De resto, o mar é que lida com os dejetos orgânicos. O grande problema são essas substâncias que usamos no nosso dia a dia para as quais o tratamento não é efetivo, óbvio. E não é só a cocaína, isso vale também para a sertralina e, outros remédios, como pílulas anticoncepcionais. E tem que ter uma quantidade muito grande para entrar na cadeia trófica dos seres marinhos.” Leia também: Peixe venenoso invade litoral da Bahia; quase 500 exemplares são retirados do mar em um mês Dia mais quente da história dos oceanos é registrado devido ao El Niño; saiba como afeta o tempo Os cientistas também encontraram níveis muito altos de antibióticos, anti-inflamatórios e inseticidas nos peixes. Como os tubarões estão no topo da cadeia alimentar, as substâncias se acumulam em seus organismos ao ingerirem peixes menores que também foram expostos à contaminação. Por isso, são chamados de espécies sentinela, que ajudam a mapear os níveis de poluição no ambiente. A presença de drogas no organismo desses animais gera um alerta para a saúde humana. No Brasil e em outros países, a carne desses animais é pescada e comercializada irregularmente para consumo humano sob o nome de cação. Dessa forma, resíduos químicos acumulados no organismo dos animais podem acabar entrando na cadeia alimentar humana. O tratamento tradicional do esgoto não dá conta de eliminar tais substâncias. Algumas delas são conhecidas por causarem alterações comportamentais, fisiológicas e endócrinas em peixes, como infertilidade, malformações e até mesmo troca de sexo. As drogas encontradas no organismo de tubarões e raias são classificadas como “contaminantes de preocupação emergente”. A classificação indica que são produtos farmacêuticos, drogas ilícitas e alguns pesticidas que não são monitorados apesar dos riscos ambientais que representam. Um outro estudo feito recentemente pela UFRJ, mas ainda não publicado em revista científica para revisão de pares, revela ainda a presença de sertralina - um antidepressivo muito consumido no Brasil - no cérebro de tubarões.