Posto de gasolina ainda é um bom negócio? O antes e o depois dos carros elétricos

admin
2 Sep, 2026
Posto de gasolina ainda é um bom negócio? O antes e o depois dos carros elétricos Marcos Paulo Assis há 1 minuto 6 min de leitura O posto tradicional ganhou dinheiro com volume, localização e demanda recorrente. Agora, a eletrificação força o setor a repensar seu modelo de negócio. Comprar ou abrir um posto de combustíveis já foi, para muitos empresários, uma espécie de aposta em uma necessidade inevitável: enquanto houvesse carros circulando, haveria motoristas procurando uma bomba para abastecer. A lógica ajudou a transformar bons pontos comerciais em ativos disputados, principalmente em avenidas movimentadas e corredores rodoviários. A realidade de 2026 ainda está longe de indicar o fim desse mercado. Dados consolidados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o Brasil vendeu 137,4 bilhões de litros de combustíveis líquidos em 2025, 3,2% acima de 2024. No chamado ciclo Otto, que reúne gasolina C e etanol hidratado, foram 67,9 bilhões de litros, com crescimento de 3,1%. A gasolina C avançou 5,5%. A questão para quem pensa no setor como investimento é outra: o bom negócio continua sendo vender combustível ou o verdadeiro ativo está no ponto comercial e na capacidade de transformar o posto em um centro de serviços? A resposta começa pela história recente. Antes dos elétricos, o volume fazia a diferença Entre 2002 e 2011, a ANP acompanhou uma fase de forte expansão do mercado brasileiro de combustíveis e da frota de veículos. O anuário estatístico da agência registra, para esse período, séries anuais de vendas de gasolina C, preços ao consumidor, participação das distribuidoras e quantidade de postos por região e estado. Naquela configuração, o posto tinha uma vantagem que hoje continua existindo, mas já não pode ser considerada permanente: a frequência de abastecimento. O motorista de um automóvel convencional precisava voltar regularmente à bomba, independentemente da marca do veículo ou do posto escolhido anteriormente. Essa recorrência permitia construir negócios baseados em volume e localização. Um posto em uma avenida de tráfego intenso poderia vender muito mais do que outro instalado em uma rua secundária, mesmo que ambos cobrassem preços semelhantes. A localização também produzia um segundo efeito. O terreno podia se tornar um patrimônio valioso, especialmente em regiões urbanas que se valorizavam. Em determinadas operações, o empresário não estava apenas comprando uma atividade comercial; estava adquirindo também um imóvel com uma utilização bastante específica. Mas havia uma armadilha nessa percepção de facilidade: faturamento alto nunca significou automaticamente lucro alto. A margem por litro é menor do que parece A composição econômica de um posto ajuda a explicar por que o setor exige tanto volume. Em estudo divulgado pela ANP, a margem média de revenda da gasolina em julho de 2024 foi estimada em R$ 0,74 por litro, equivalente a 12% do preço final naquele período. A média dos 12 meses anteriores ficou em R$ 0,75 por litro, ou 13%. Para o diesel S10, a margem média de revenda foi de R$ 0,64 por litro. Esses números são margens de revenda, não lucro líquido. A diferença é fundamental. O empresário ainda precisa pagar funcionários, encargos, energia, manutenção, seguros, sistemas, taxas, despesas financeiras, eventuais custos de aluguel e outros gastos da operação. Também existem investimentos e obrigações relacionados à estrutura física e à atividade regulada. Além disso, a margem varia bastante de acordo com a cidade e o mercado local. No levantamento da ANP de julho de 2024, as margens estimadas para a gasolina C oscilaram entre R$ 0,16 e R$ 2,03 por litro nos municípios pesquisados. Isso explica por que a pergunta correta para quem analisa um posto não é simplesmente quanto ele vende. É necessário saber quanto vende, com qual margem, a que custo e em qual localização. Um posto que comercializa grande quantidade de combustível, mas precisa disputar clientes diariamente reduzindo preços, pode apresentar resultado inferior ao de outro com menor volume e despesas operacionais mais controladas. Curitiba mostra como a concorrência pesa O mercado paranaense ajuda a visualizar o tamanho da disputa. Estudo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), com base em dados de agosto de 2025, identificou 44.414 postos revendedores autorizados em operação no Brasil, distribuídos por 5.516 municípios. Curitiba aparecia em quarto lugar entre os municípios brasileiros com maior número de postos, com 343 estabelecimentos. A dimensão da rede mostra que o consumidor brasileiro tem ampla possibilidade de escolha. Para o proprietário, isso transforma localização, preço, confiança, atendimento e serviços adicionais em componentes decisivos da estratégia. O próprio Cade caracteriza o varejo de combustíveis como um mercado de forte dimensão local. Para o motorista, distância, fluxo viário e facilidade de acesso influenciam diretamente a decisão de onde abastecer. Em uma cidade como Curitiba, portanto, não basta encontrar uma avenida movimentada. É necessário entender o que acontece nas quadras próximas, quantos concorrentes existem, quais preços praticam, que bandeiras estão presentes e qual é o perfil do trânsito naquele trecho. Para quem pretende comprar um posto pronto, essa análise pode ser ainda mais importante do que o faturamento apresentado pelo vendedor. A eletrificação muda a frequência do cliente O avanço dos veículos eletrificados introduziu uma variável que não existia com a mesma força na época em que o posto convencional consolidou seu modelo de negócio. Em 2025, o Brasil vendeu 223.912 veículos leves eletrificados, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), alta de 26% sobre 2024. A participação desses modelos chegou a 9% do mercado no acumulado do ano e a 13% em dezembro. Em 2026, o ritmo acelerou. Até julho, as vendas acumuladas chegaram a 271.091 unidades, volume superior a todas as vendas de eletrificados registradas em 2025. A participação de mercado alcançou 21% em julho, segundo a ABVE. Esses números não significam que um quinto da frota brasileira tenha deixado de usar gasolina ou etanol. A participação nas vendas de veículos novos não equivale à participação na frota circulante, que ainda é predominantemente formada por veículos convencionais. O efeito para os postos será gradual. Híbridos continuam utilizando combustível em diferentes graus, enquanto os modelos 100% elétricos não precisam de gasolina ou etanol. À medida que esses veículos entram na frota, uma parte dos consumidores deixa de visitar a bomba para abastecimento. É uma mudança de comportamento que pode levar anos para produzir seu efeito completo. O posto pode deixar de ser apenas um posto O futuro do setor talvez esteja menos relacionado à quantidade de bombas e mais à capacidade de aproveitar o espaço físico. Um motorista de veículo elétrico pode chegar a um ponto de recarga e permanecer ali durante o período necessário para recuperar autonomia. Esse intervalo cria uma oportunidade comercial que não existia da mesma maneira no abastecimento convencional. Café, alimentação, minimercado, serviços automotivos, lavagem, estacionamento e outras atividades podem transformar o tempo de permanência em receita adicional. O posto passa a funcionar como um pequeno centro de conveniência, com a energia — combustível líquido ou eletricidade — como uma das suas fontes de atração. A infraestrutura também está avançando. Segundo a ABVE, o Brasil já tinha pelo menos 25.429 pontos de recarga em 2026, considerando dados da entidade em parceria com a Tupi Mobilidade. Essa expansão não elimina imediatamente a relevância dos postos tradicionais. Ela cria, entretanto, uma nova disputa: quem será o local escolhido pelo motorista quando abastecer significar também recarregar, comer, comprar ou trabalhar? Para o empresário, essa pode ser uma oportunidade de adaptação. Então, comprar um posto ainda vale a pena? A resposta depende muito mais do ativo comprado do que do nome da atividade. O Brasil encerrou 2025 com 45.892 postos revendedores de combustíveis automotivos, segundo o relatório de gestão da ANP. A agência registrou aumento de 2% nessa base em relação ao período anterior. Os números não apontam para um setor em retirada. O mercado de combustíveis continua gigantesco e cresceu em 2025. Ao mesmo tempo, a velocidade de expansão dos eletrificados mostra que o cenário de longo prazo será diferente daquele que tornou o posto convencional um negócio tão atraente. Para um investidor, o primeiro passo deveria ser separar três coisas que frequentemente aparecem misturadas: o valor do imóvel, o valor da operação e o potencial futuro do ponto. Um posto com terreno próprio, fluxo elevado, boa acessibilidade, conveniência rentável, gestão eficiente e possibilidade de instalar recarga elétrica pode ter uma tese de investimento bastante diferente daquela de um estabelecimento que depende exclusivamente da venda de gasolina e enfrenta aluguel elevado e concorrência intensa. Também é preciso olhar o preço de aquisição. Um negócio excelente pode se transformar em um investimento ruim se for comprado caro demais. A história do setor mostra que o posto de gasolina prosperou porque atendia uma necessidade recorrente. O futuro pode exigir algo diferente: um lugar capaz de atender o motorista, e não apenas o automóvel. A pergunta que fica para quem pretende investir nesse mercado é justamente essa: quando a gasolina deixar de ser a razão principal para parar, o seu posto ainda terá motivos para fazer o cliente entrar? Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.