Governo chinês quer impedir guerra de preços de carros até no Brasil

admin
2 Sep, 2026
Resumo Depois de passar anos tentando controlar uma guerra de preços entre suas próprias montadoras, a China decidiu levar a preocupação para fora de suas fronteiras. Três órgãos do governo chinês publicaram nesta terça-feira (1o) novas diretrizes para as fabricantes do país que atuam no exterior. Entre as recomendações está evitar mudanças frequentes e de grande magnitude nos preços dos carros, uma orientação que alcança diretamente mercados como o brasileiro. O documento é assinado pelo Ministério do Comércio, pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT) e pela Administração Estatal de Regulação do Mercado. Segundo o texto, as fabricantes devem elaborar suas estratégias de preços considerando custos e as condições de oferta e demanda de cada país, sem recorrer a práticas comerciais que perturbem a concorrência. Também devem estabelecer uma hierarquia clara de preços entre versões e equipamentos e evitar oscilações grandes e frequentes, que, segundo o governo chinês, podem prejudicar consumidores e a própria imagem das marcas. A orientação não vale apenas para o preço de tabela. O governo trata expressamente de descontos, promoções, financiamento, incentivos concedidos aos concessionários e diferenças de preços entre mercados. Também determina que as fabricantes respeitem a autonomia das concessionárias locais na definição do preço final dos veículos. Não se trata, porém, de uma tabela obrigatória de preços nem de uma proibição de descontos. O documento publicado agora funciona como uma diretriz para a atuação internacional das companhias e não estabelece multa ou outra punição específica para uma fabricante que mantenha uma política agressiva de preços. Sanções dependem da violação de leis chinesas ou das regras concorrenciais, comerciais e de defesa do consumidor dos países onde as companhias atuam. Ainda assim, o recado de Pequim é duro. Ele reproduz no exterior boa parte da política que o governo começou a aplicar dentro da própria China para tentar conter uma disputa que pressionou fabricantes e concessionários a venderem carros por menos do que eles custaram para ser produzidos. Guerra de preços virou problema dentro da China Em fevereiro, a Administração Estatal de Regulação do Mercado colocou em vigor um guia específico para os preços praticados pela indústria automobilística chinesa. A regra doméstica também determina que as empresas baseiem seus preços nos custos e nas condições do mercado, respeitem a autonomia dos concessionários e estabeleçam políticas transparentes de bônus e incentivos. Mas há uma diferença importante. O documento aplicado dentro da China está diretamente amparado pela Lei de Preços e por normas que permitem ao governo agir contra práticas consideradas predatórias. O texto classifica como de "grande risco jurídico", por exemplo, vender um veículo abaixo do custo com o objetivo de expulsar concorrentes ou dominar o mercado. O governo deixa explícito que esse preço efetivo inclui reduções obtidas por descontos, subsídios e outras formas de benefício. Foi uma reação a uma disputa que se tornou cada vez mais difícil de sustentar. Durante os últimos anos, fabricantes chinesas reduziram preços, ofereceram bônus e aceleraram lançamentos para conquistar participação em um mercado com dezenas de marcas competindo simultaneamente. O problema é que a intervenção do governo não foi suficiente para encerrar a guerra de preços. Em julho deste ano, as vendas de automóveis no mercado doméstico chinês caíram 21,1% em relação ao mesmo mês de 2025, completando dez meses consecutivos de retração. Nos sete primeiros meses de 2026, as vendas domésticas recuaram 20,5%. Foram 2,65 milhões de carros a menos que no mesmo período do ano passado. Os dados foram divulgados pela Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis. A pressão por preço também continua. Montadoras passaram a buscar outras formas de oferecer vantagens e manter volume sem necessariamente promover sucessivos cortes públicos no preço de tabela. China nunca precisou tanto exportar carros Foi essa situação que motivou a nova orientação do governo para o comportamento das montadoras no exterior. A China construiu uma capacidade gigantesca de produção de veículos, mas seu mercado interno já não cresce no mesmo ritmo. O caminho para manter fábricas ocupadas e empresas crescendo passou a ser vender para outros países. Em 2025, as montadoras chinesas exportaram 8,32 milhões de veículos para mais de 200 países e regiões. Empresas do país já investem em projetos automotivos em mais de 80 mercados, segundo informações do Ministério do Comércio da China. Em 2026, a expansão está ainda mais acelerada. Entre janeiro e julho, a China exportou 6,14 milhões de veículos, alta de 66,8% em relação ao mesmo período de 2025. Só em julho, mais de 1,04 milhão de veículos deixaram a China, 81,3% acima do registrado um ano antes. Os números mostram duas indústrias automobilísticas chinesas caminhando em direções quase opostas. Enquanto o mercado doméstico de automóveis de passeio encolhe em dois dígitos, as vendas para outros países crescem em ritmo próximo de 70%. Hoje, a preocupação do governo chinês é que as montadoras levem para o resto do mundo a estratégia que ajudou a transformar seu próprio mercado numa guerra permanente por preço. Se várias fabricantes chinesas desembarcarem simultaneamente em países como o Brasil e começarem a reduzir preços sucessivamente para conquistar participação, o resultado pode ser o mesmo: margens menores, concessionários pressionados e consumidores esperando a próxima promoção antes de comprar. E nessa conta ainda entra pressão internacional ao governo chinês por conta do desequilíbrio da indústria global. Milad Kalume, diretor executivo da K.lume Consultoria automobilística, avalia que a guerra de preços pode conquistar mercado hoje e destruir valor amanhã. "O preço de tabela perde relevância frente ao preço efetivamente transacionado, com bônus, desconto, financiamento, trade-in e campanhas. O problema surge quando o desconto deixa de ser tático e vira permanente comprimindo margem, corroendo a referência do seminovo, reduzindo o valor residual e prejudicando a recompra futura. A guerra de preços estimula a venda presente e pode comprometer a venda futura", alerta. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.