Elize Matsunaga: o filme que faz o público duvidar do próprio julgamento

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28 Jul, 2026
por Eduardo Graboski Publicado em 28/07/2026, às 04h03 Os crimes reais costumam seguir um roteiro conhecido na televisão: apresentam os fatos, organizam uma linha do tempo e deixam o espectador indignado do começo ao fim. Elize Matsunaga: Uma Mulher nas Sombras faz exatamente o contrário. A produção da Netflix quase abandona o crime para mergulhar na relação. O assassinato continua sendo o ponto central da história, mas deixa de ser o único protagonista. O filme prefere explorar uma dinâmica marcada por humilhações, traições, manipulação, dependência emocional e violência psicológica. E é justamente aí que mora o desconforto. Porque, em vários momentos, quem assiste deixa de assistir a uma história sobre um homicídio e passa a acompanhar a lenta destruição de uma mulher dentro de um relacionamento. Nada disso transforma um crime em acerto. Nem deveria. Mas o filme planta uma dúvida que incomoda do começo ao fim: será que estamos diante apenas de uma assassina ou também de alguém que passou anos sendo destruída antes de apertar o gatilho? É essa provocação que explica o sucesso da produção. Ela foge do formato dos documentários sobre crimes famosos e entrega algo muito mais perigoso: um debate moral. Basta abrir as redes sociais para perceber. Em vez de discutir a investigação, muita gente passou a discutir o casamento. Em vez de condenar apenas o desfecho, tenta entender tudo o que veio antes dele. Não por acaso, surgiram milhares de comentários de mulheres dizendo que compreenderam Elize. Não o crime, mas o caminho que a levou até ele. Esse talvez seja o maior mérito, e também o maior risco, do filme. Ele humaniza uma personagem que, durante anos, foi reduzida ao ato mais brutal da sua vida. No fim, a sensação que fica não é a de ter assistido a um crime, a uma história de assassinato. É a de ter acompanhado uma relação tão tóxica que, quando os créditos sobem, o público já não discute apenas o que aconteceu. Discute se, emocionalmente, aquela tragédia começou muito antes do dia do crime. E talvez esse seja o maior triunfo da produção. Não reescrever a história, nem pedir absolvição para Elize Matsunaga, mas lembrar que tragédias raramente começam no instante em que estampam as notícias. Algumas são construídas em silêncio, entre portas fechadas, muito antes de virarem caso de polícia. O filme termina, mas a pergunta fica: até que ponto julgamos um crime sem querer enxergar tudo o que aconteceu antes dele? COLUNISTAS