Vida nas profundezas do mar se beneficia de pedras deixadas por icebergs
18 Jul, 2026
Cientistas a bordo do navio de pesquisa Polarstern navegavam em 2021 quando se depararam com um iceberg incomum no estreito de Fram, uma passagem ártica entre a Groenlândia e o arquipélago norueguês de Svalbard. Diferentemente dos icebergs brancos e azuis que normalmente imaginamos, este estava coberto de rochas escuras. Imediatamente, a equipe de pesquisa —que estava coletando amostras e imagens do fundo do mar— redirecionou seu foco para o iceberg. Um helicóptero do Polarstern pousou no topo do gelo flutuante, levando os pesquisadores ao que parecia ser outro planeta. Ali, entusiasmados, eles tiraram fotos, coletaram amostras e fizeram medições das pedras. "Tivemos esse momento coletivo de eureka", disse a bióloga Kirstin Meyer-Kaiser, do Instituto Oceanográfico Woods Hole. "Essas são pedras de degelo antes de terem caído." Quando partes das geleiras se desprendem na forma de icebergs, elas começam a derreter, depositando as rochas e outros detritos no fundo do mar enquanto flutuam. Um novo estudo, liderado pelos pesquisadores a bordo do Polarstern e publicado no mês passado na revista Nature, ajuda a confirmar que o aquecimento dos oceanos fez com que o número de icebergs se desprendendo no estreito de Fram aumentasse drasticamente desde o início dos anos 2000. E as pedras que esses icebergs estão deixando para trás fornecem novas pistas sobre como o aquecimento global está remodelando a biodiversidade do fundo do oceano. Para chegar às suas conclusões, a equipe de pesquisa usou 40 anos de dados de avistamento de icebergs para calcular como o número de icebergs na região mudou ao longo das décadas. O trabalho revelou um aumento acentuado a partir do ano 2000, que os pesquisadores atribuíram ao aumento do desprendimento de geleiras, particularmente no nordeste da Groenlândia e no Ártico russo. Os pesquisadores observaram ainda um aumento de pedras de degelo no fundo do oceano nos anos seguintes ao crescimento na frequência de icebergs. Para isso, eles examinaram imagens das profundezas do mar do observatório submarino Hausgarten, do Instituto Alfred Wegener. Os achados deram aos pesquisadores uma visão de como as mudanças climáticas estão alterando a formação de icebergs, que, por causa de sua coloração e movimento, podem ser difíceis de rastrear com satélites. Os resultados também os ajudaram a identificar as mudanças impulsionadas pelo clima nas profundezas do oceano. "É muito difícil conectar algo induzido pelas mudanças climáticas em curso em terra às consequências centenas de metros mais abaixo", afirmou o físico especialista em gelo marinho Thomas Krumpen, do Instituto Alfred Wegener e coautor do estudo. "É isso que torna esse estudo tão especial." Quando as pedras de gelo caem no fundo do oceano, elas se tornam uma parte importante do ecossistema das profundezas marinhas, servindo de lar para corais, esponjas e outros invertebrados marinhos que vivem fixados em estruturas rígidas. Essas populações então ajudam a sustentar camarões e lírios-do-mar, com os quais formam relações simbióticas. "Essas pedras são habitats importantes para certos animais que gostam de se fixar em substratos duros", disse a bióloga Melanie Bergmann, do Instituto Alfred Wegener, uma das autoras do estudo. "É claro que isso então altera a biodiversidade no fundo do mar." Os cientistas levantam a hipótese de que, à medida que as pedras de gelo continuarem a proliferar nas próximas décadas, o número de fauna visível e o nível de biodiversidade nas profundezas do oceano também aumentarão. Esse é um raro lado positivo nas mudanças climáticas das regiões polares, onde o derretimento das geleiras é catastrófico para os animais mais próximos da superfície e em terra que dependem delas como lar. "Tudo na natureza tem prós e contras, como a maioria das coisas na vida", afirmou a ecologista Bodil Bluhm, da Universidade Ártica da Noruega, que não participou do novo estudo. "É isso que esse estudo trouxe à tona." Olhando para o futuro, os pesquisadores esperam investigar outras áreas do Ártico onde há instabilidade glacial para checar se essas regiões igualmente estão apresentando um nível mais alto de biodiversidade nas profundezas do mar.