Brasileiro reprova bets no futebol e vê risco de manipulação, diz pesquisa
17 Jul, 2026
Resumo A maioria dos brasileiros tem um olhar negativo em relação ao papel das bets na sociedade e no futebol. Segundo uma pesquisa conduzida pela parceria More In Common/Ipsos-Ipec, à qual o UOL teve acesso com exclusividade, essa desconfiança vai além das fronteiras ideológicas, unindo pessoas de diferentes visões políticas e religiosas no Brasil. No campo esportivo, 58% dos entrevistados considera que as bets aumentam muito o risco de manipulação de partidas. Em outro ponto da pesquisa, os entrevistados foram questionados se o patrocínio das bets deveria ser permitido no futebol. O resultado foi que 68% concordaram que "o patrocínio das bets deve ser proibido porque as apostas prejudicam torcedores e famílias". Do outro lado, 19% optaram pela alternativa "o patrocínio de bets deve ser permitido porque ajuda os clubes financeiramente". Queríamos entender se os brasileiros achavam que as apostas estão prejudicando o futebol, aumentando a desconfiança e o temor de manipulação dos resultados, além de entender também se o dinheiro que tem ido para os clubes mudava a já conhecida rejeição dos brasileiros às apostas. Mesmo com o dinheiro que tem ido para o futebol e permitido a contratação de grandes jogadores, descobrimos os brasileiros acham que a troca não vale a pena, que as apostas fazem mais mal do que bem ao futebol e às famílias Pablo Ortellado, pesquisador e diretor executivo da More in Common. Outro aspecto trazido pela pesquisa é que essa visão contrária às apostas é compartilhada pela maioria dos simpatizantes dos dois principais blocos que polarizam a política brasileira nos últimos anos. Entre os que declararam intenção de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da próxima eleição presidencial, 56% disseram que as bets aumentam muito o risco de manipulação. Considerando quem disse votar no senador Flávio Bolsonaro (PL), esse número saltou para 63%. De todo modo, a maioria dos dois blocos políticos se juntou nesse ponto de vista. Em relação à segunda questão principal da pesquisa, o patrocínio aos clubes versus o prejuízo a torcedores e família, as maiorias também se juntaram em um mesmo ponto de vista. Dos que apoiam Lula, 65% concordaram que "o patrocínio das bets deve ser proibido porque as apostas prejudicam torcedores e famílias". No lado bolsonarista, o percentual saltou para 72%. "De maneira geral, os brasileiros apoiam políticas sociais e endurecimento penal para criminosos: as políticas sociais defendidas pela esquerda e o endurecimento penal defendido pela direita. Assim, é um pouco surpreendente uma pauta como o enfrentamento das apostas esportivas emergir como um novo consenso, dessa vez com apoio dos dois campos políticos", completou Ortellado. Ele disse ainda que os dois candidatos têm dado declarações sinalizando que se preocupam com as bets, mas "os eleitores de Flávio são mais críticos às bets do que os eleitores de Lula, o que pode empurrar Flávio para uma postura mais incisiva", ressaltou. No âmbito religioso, católicos, evangélicos e aqueles que se declaram sem religião compuseram percentuais parecidos em relação aos dois questionamentos. A pesquisa foi feita entre 4 e 8 de julho e ouviu 2 mil pessoas, acima de 16 anos, em 130 municípios brasileiros. Como a indústria reage aos números? Para Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado no setor de jogos, a pesquisa tem algumas "limitações metodológicas que recomendam cautela". De todo modo, na visão dele, o trabalho evidencia um ponto que merece atenção: Existe uma percepção significativa da população sobre os riscos associados à publicidade e às apostas esportivas e uma evidente demanda por maior informação e proteção ao consumidor. Essa constatação, contudo, não conduz à conclusão de que a solução seja restringir ou proibir a publicidade ou a atividade. Ao contrário. Reforça a importância de uma publicidade responsável e educativa, realizada exclusivamente por operadores autorizados, capaz de informar sobre os riscos da atividade, mostrar que aposta é diversão e não fonte de lucro, promover o jogo responsável, divulgar canais de apoio e orientar o consumidor sobre como identificar plataformas legalizadas Bernardo Cavalcanti Freire, da ANJL e sócio do Betlaw. O porta-voz da ANJL ainda acrescentou que "em um mercado regulado, a publicidade não cumpre apenas uma função comercial, mas também de educação, conscientização e canalização dos apostadores para o ambiente legal, contribuindo para a proteção dos consumidores e para o fortalecimento da integridade do setor". O presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), Carlos Lima, apontou que a preocupação da população brasileira com a integridade esportiva é legítima. "É uma coisa muito séria. O setor regulado compartilha dessa preocupação. E um dos desafios que a gente tem hoje é como efetivamente manter a integridade esportiva. Operadores registrados trabalham constantemente para proteger a integridade das competições. É uma preocupação de todo mundo. É um tema relevante para torcedores e para o governo", disse ele. Lima mencionou que alertas de suspeitas de manipulação foram emitidos para municiar órgãos que investigam casos suspeitos de manipulação no futebol. Um deles foi o alerta que gerou o caso Bruno Henrique. O atacante do Flamengo compartilhou informações privilegiadas com parentes. Na Justiça Desportiva, foi multado em R$ 100 mil, mas ainda responde no âmbito criminal em um processo ainda sem desfecho. "Nós conseguimos identificar alterações de padrão de apostas. Tem uma inteligência tão grande que, se você tem uma aposta muito fora do padrão, que não é comum naquele tipo de atividade, concentrada numa região muito específica, a própria operadora comunica isso aos órgãos competentes", disse o executivo. O representante do IBJR ainda disse que há razões financeiras para isso: