Estudos sugerem como a mídia deve sinalizar uso de IA para o público
20 Jun, 2026
Por Mark Coddington e Tamar Wilner Como já relatado anteriormente, o jornalismo gerado por Inteligência Artificial provoca desconfiança nos leitores , com o público preferindo o toque humano. Isso pode parecer óbvio, mas muitas perguntas estão embutidas nessa afirmação ampla. 1o – com tantas formas de utilizar a IA, o que significa “gerado por IA” e como o público responde aos diferentes tipos e níveis de uso da tecnologia por jornalistas? 2o – se os leitores querem que os veículos sejam transparentes sobre o uso de IA (como estudos anteriores descobriram), mas saber desse uso reduz a confiança e a percepção de precisão , como os editores devem proceder? Dois estudos do periódico Digital Journalism abordam essas questões. O primeiro, “ Os efeitos da IA generativa nas notícias sobre a credibilidade e a seletividade da mídia: Evidências de um experimento conjunto no Chile” , adotou uma abordagem experimental. Os participantes foram orientados a comparar as políticas de IA de veículos de mídia, duas por vez. As diretrizes variavam em 7 dimensões diferentes relacionadas ao uso e à divulgação de IA, e os participantes deveriam apontar qual política consideravam mais crível e qual veículo escolheriam para se informar. Os autores Sebastián Valenzuela, Ingrid Bachmann, Porismita Borah e Natalia Solís Valdés identificaram que a supervisão humana foi o fator de maior influência. Os veículos de mídia que exigem revisão humana de todo o conteúdo de IA foram vistos como mais críveis e escolhidos como fontes de notícias com mais frequência do que as empresas sem essa supervisão. Os participantes também consideraram a transparência no uso de IA generativa importante para a credibilidade. Além disso, demonstraram menor probabilidade de consumir ou confiar em um veículo quando a IA automatizava tanto notícias objetivas quanto conteúdos que exigem nuance e interpretação, em comparação com empresas que proíbem toda escrita automatizada por IA. Por outro lado, o público não mostrou preferência sobre o uso de IA para tarefas repetitivas ou burocráticas, porque isso, aparentemente, não influencia a credibilidade. Também não demonstraram preferência pelo uso de IA para personalizar formatos de notícias ou para criar conteúdo visual. O segundo estudo, “Além da assinatura: Expectativas do público para a divulgação de IA na mídia de notícias” , de Jessica Zier e Nicholas Diakopoulos, investiga especificamente o dilema da rotulagem de IA por meio de entrevistas. Os participantes listaram razões pelas quais desejam a sinalização da IA, incluindo: cobrar responsabilidade dos jornalistas; evitar fraudes; aumentar a confiança; servir como um aviso de que os leitores podem querer verificar as informações. Os entrevistados afirmaram que há uma diferença vital entre um artigo escrito inteiramente por IA (origem que presumem quando os rótulos dizem “gerado por” ou “feito por” ) e um apenas auxiliado por IA (indicado por termos como “assistido” ou “em conjunto com” ). Diante da preocupação com a capacidade da IA de apresentar alucinações e vieses, a revisão humana foi vista como essencial, e a rotulagem deve atender a essa necessidade. Diferentemente do estudo qualitativo anterior, os participantes demonstraram preocupações particulares com o conteúdo visual, afirmando que os rótulos são especialmente necessários nesses casos. No entanto, os participantes também explicaram como os rótulos podem ter o efeito inverso. Um entrevistado disse que, ao ver uma etiqueta de IA, tende a pensar: “Provavelmente preciso fazer a checagem de fatos e tentar encontrar outro artigo” . O público também enxerga o jornalismo como uma profissão que exige treinamento especializado e integridade ética, fazendo com que a IA pareça, para alguns, uma “saída fácil”. Outro entrevistado afirmou sobre o uso da tecnologia: “Você pode fazer isso com 11 anos de idade. Você não precisa de treinamento para isso se vai usar IA para gerar todo o seu artigo” . Recomendações práticas dos autores Os autores detalham algumas conclusões práticas em uma tabela de recomendações: Precisão sem tecnicismos: os rótulos não podem ser excessivamente técnicos, mas devem ser precisos. Ícones interativos: um ícone interativo que fornece informações ao passar o cursor do mouse pode ajudar a não sobrecarregar o leitor. Posicionamento: os rótulos devem ficar no topo, e não no final do artigo, para não serem enganosos. Padronização: a indústria precisa caminhar para a padronização das etiquetas para evitar a confusão dos leitores. Juntos, os estudos ajudam a construir um cenário mais claro de como e quando os veículos de notícias precisam preservar o “toque humano” e como devem comunicar o uso da IA. Fica evidente que o envolvimento humano é considerado um sinal de responsabilidade profissional — um ativo essencial em uma era de desconfiança na mídia. Os editores também devem agir com cautela com a IA quando julgamentos subjetivos ou baseados em valores estiverem envolvidos. É preciso pensar criticamente sobre como os rótulos são apresentados, especialmente na forma como destacam a supervisão humana, algo fundamental para o público. Panorama de pesquisas Navegando pela credibilidade no TikTok “Navegando pela credibilidade no TikTok: Como jovens adultos avaliam e verificam informações na plataforma” . Por Luise Anter e Anna Sophie Kümpel, no International Journal of Communication . É fácil descartar uma dieta de informação com pouca notícia tradicional e muito foco em redes sociais visuais como “acreditar em qualquer coisa que se vê no TikTok” . Mas os usuários da plataforma fazem julgamentos constantes de credibilidade sobre as informações que encontram, vídeo por vídeo, da mesma forma que os consumidores de notícias tradicionais fazem com artigos escritos ou reportagens de TV. A velocidade do TikTok pode fazer com que muitos dos critérios para esses julgamentos sejam mínimos, já que as pessoas usam atalhos mentais ( heurística ) em vez de processar sistematicamente as informações. Mas quais são essas estratégias rápidas para avaliar a credibilidade na plataforma e como são moldadas pelas características distintas do TikTok — sem links, sem compartilhamento público e, frequentemente, com vídeos extremamente curtos? Anter e Kümpel estudaram as estratégias de estudantes universitários alemães. Os alunos enviaram links de vídeos do TikTok relacionados a saúde ou política e depois foram entrevistados sobre como avaliaram o material. Para esses estudantes, analisar a credibilidade da conta que publicou o vídeo foi a estratégia central. Essa avaliação funcionou como um “atalho eficiente” : o TikTok como plataforma foi amplamente visto como não confiável e, com pouco espaço para argumentos detalhados ou apresentação de evidências de apoio, era difícil avaliar a credibilidade com base apenas na mensagem do vídeo. Ainda assim, os critérios pelos quais os estudantes consideraram as fontes confiáveis podem ser animadores para os veículos jornalísticos. Empresas de mídia tradicional, especialistas profissionais, corporações e atores políticos foram vistos como mais críveis do que “criadores aleatórios” . Mesmo sem características na mensagem que pudessem sinalizar credibilidade, como um estilo estético mais formal ou evidências documentadas, a avaliação da fonte por si só tendeu a transmitir confiança. Por considerarem a credibilidade geral do TikTok baixa, os estudantes evitaram checar os vídeos procurando outras publicações sobre o mesmo assunto na plataforma. No entanto, a verificação saindo do aplicativo exigia mais esforço intencional do que estavam inclinados a fazer. Assim, um dos principais métodos de checagem dos estudantes foi por meio dos comentários, que pareceram desfrutar de uma percepção de credibilidade mais alta do que os próprios vídeos. Elementos dos próprios vídeos ajudaram a sustentar o julgamento de credibilidade — tópicos baseados em fatos em vez de opiniões, estética formal e assuntos amplamente cobertos pela mídia tradicional influenciaram positivamente. Como destacaram os pesquisadores, isso apresenta um dilema para os jornalistas no TikTok: o algoritmo recompensa vídeos com recursos típicos da plataforma, como músicas do momento, cortes rápidos ou participação em desafios, mas essas são as mesmas características que geram ceticismo no público jovem. A solução pode estar em um ponto de equilíbrio entre os dois formatos. Preferências expressivas de notícias “Preferências expressivas de notícias: Sinalização de identidade na seleção de notícias” . Por Seonhye Noh, no Journalism Studies . Um dos problemas mais complexos que afetam os institutos de pesquisa política nos últimos anos tem sido a resposta expressiva — quando as pessoas dizem acreditar em algo que não acreditam apenas para expressar afinidade com seu grupo ou hostilidade em relação a outro. (Por exemplo, eleitores de Donald Trump que respondem deliberadamente de forma errada a uma pesquisa sobre se ele ou Barack Obama teve o maior público na cerimônia de posse). Isso torna as respostas dos questionários mais uma expressão de identidade do que crenças reais, dificultando o trabalho dos pesquisadores políticos para determinar o que o público realmente pensa. Há evidências de que isso também se aplica aos estudos de consumo de mídia: as pessoas podem afirmar que consomem notícias alinhadas com suas crenças partidárias mais do que realmente fazem, como forma de expressar sua identidade política e apoio a organizações alinhadas. Isso dificulta a determinação dos hábitos reais de consumo por meio de pesquisas, mas também pode significar que o consumo de notícias partidárias seja menos prevalente do que se imagina. Noh , pesquisadora da UCLA, realizou o teste mais direto dessa ideia até o momento, criando um experimento no qual as pessoas selecionavam manchetes com perspectivas pró-controle e contra o controle de armas. Alguns foram informados de que apenas selecionariam os artigos, sem lê-los, enquanto outros foram avisados de que leriam todos os textos escolhidos. Também foram apresentados cenários hipotéticos em que suas escolhas seriam públicas ou privadas. O efeito de resposta expressiva (chamado por Noh de “preferências expressivas de notícias” ) esteve presente: os participantes que não precisavam ler as notícias escolhidas selecionaram 10% mais histórias consistentes com suas crenças partidárias do que aqueles que precisavam ler o conteúdo. Em outras palavras, mostraram maior probabilidade de escolher notícias correspondentes às suas visões quando estavam apenas sinalizando a um pesquisador o que escolheriam, e não quando precisavam de fato consumir a informação. Os cenários públicos ou privados não alteraram os resultados. Noh não esperava o grupo em que o efeito seria mais forte. Ela previu que os partidários mais convictos mostrariam as preferências expressivas de notícias mais intensas, alinhando-se com as pesquisas de ciência política sobre respostas expressivas. No entanto, foram os partidários moderados que mostraram a maior diferença entre as seleções quando precisavam ou não ler os artigos. Analisando em retrospecto, o resultado faz sentido: partidários convictos de fato querem ler notícias que correspondam à sua perspectiva política, e não apenas sinalizar isso a um pesquisador. Já as motivações expressivas dos partidários mais moderados podem ser mais influentes em suas respostas quando “as identidades políticas estão presentes, mas não firmemente ancoradas” , escreveu Noh. Ela concluiu que é preciso atenção à força com que a identidade influencia não apenas as respostas de pesquisas, mas o engajamento de várias formas com as notícias. O avanço da base não comercial no mercado jornalístico dos EUA “A crescente base não comercial do emprego no jornalismo dos EUA: Evidências de uma cidade, 2015–2025” . Por Matthew Powers, no Critical Studies in Media Communication . Faz quase duas décadas que os apelos para reorientar o jornalismo norte-americano em torno de um modelo de financiamento público e sem fins lucrativos começaram a se espalhar. E uma mudança certamente ocorreu desde então, como indica o surgimento de centenas de organizações de notícias sem fins lucrativos . Mas essa mudança de financiamento conseguiu conter a perda de empregos nos veículos comerciais durante esse período? E produziu uma alteração significativa na histórica orientação comercial do jornalismo nos Estados Unidos? O novo estudo de Powers sugere que as respostas para essas perguntas podem ser positivas. Powers , professor da Universidade de Washington, examinou a composição do emprego em redações de uma cidade norte-americana, Seattle. Ele construiu um banco de dados abrangente de todos os jornalistas locais em tempo integral na cidade em 2015 e o atualizou 10 anos depois. Classificou os profissionais de duas maneiras: por propriedade – pública, sem fins lucrativos, privada (de indivíduos, famílias ou pequenos grupos de investidores) e de mercado (empresas de capital aberto ou de fundos de private equity e hedge funds); por financiamento – de mercado, filantrópico ou governamental. O emprego geral caiu surpreendentemente pouco — de 431 jornalistas em 2015 para 411 em 2025, uma redução de 4,6%. Das 85 vagas fechadas, mais de 80% estavam em organizações de propriedade privada ou de mercado. E cada uma das 65 vagas criadas foi na mídia pública. Sem esses 65 novos postos, a queda no emprego teria sido de 20%. Essa transição fez com que a parcela de jornalistas de Seattle empregados em veículos públicos mais do que dobrasse, passando de 10,2% para 26.5%, superando os veículos de mercado como a segunda maior forma de propriedade na cidade. A maior fatia continua sendo a de propriedade privada, embora a porcentagem tenha caído de 58,7% para 52,3%. Diversas organizações privadas ( The Post-Intelligencer , Seattle Weekly , The Stranger ) foram desestruturadas desde 2015, mas a razão pela qual a propriedade privada manteve a estabilidade no emprego foi o uso de financiamento filantrópico pelo Seattle Times para pagar 30 postos de trabalho na redação. A parcela de vagas jornalísticas financiadas por filantropia na cidade dobrou de 17,2% em 2015 para 35,3% em 2025. Com isso, Powers concluiu que a expansão da mídia pública e o aumento do financiamento filantrópico “reduziram drasticamente o número de empregos em redações que, de outra forma, teriam sido perdidos na última década. Também tornaram segmentos do mercado de trabalho jornalístico cada vez mais dependentes de apoio não comercial” . Powers reconheceu que as mudanças não são uma solução definitiva e que o mercado de trabalho local para jornalistas segue em declínio estrutural. “Essas ações, no entanto, sugerem que o ritmo e a natureza dessa mudança não são inevitáveis” , observou. “Se políticos, filantropos e cidadãos desejam agir para conter a situação, existem opções disponíveis” . ChatGPT e a representação da cultura jornalística “Seguindo a corrente dominante: Explorando a representação da cultura jornalística no GPT” . Por Taewoo Kang, Tim Vos, Thomas Hanitzsch, Neil Thurman, Imke Henkel, Sina Thäsler-Kordonouri e Wiebke Loosen, no The International Journal of Press/Politics . Que tipo de jornalista é o ChatGPT? Profissionais do mundo todo reúnem diferentes valores e assumem papéis que muitas vezes divergem entre si ou entram em conflito direto. Sabe-se que os modelos de linguagem de grande escala ( LLMs ) absorvem os vieses dos dados com os quais foram alimentados e de sua engenharia, o que inclui essa ampla variedade de valores. Assim, se os jornalistas pedem ao ChatGPT para desempenhar papéis jornalísticos, que tipo de valores e posturas estão recebendo? Kang e seus colegas responderam a essa pergunta de forma direta: pegaram 39 perguntas de questionários feitas a jornalistas no amplo estudo Worlds of Journalism e as aplicaram ao ChatGPT. Eles adaptaram as perguntas para comandos do modelo e repetiram o processo diversas vezes, alterando sutilmente a redação e incluindo contextos nacionais específicos dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha para garantir respostas consistentes e evitar a influência das palavras escolhidas. Em seguida, compararam os resultados com as pesquisas reais feitas com os profissionais desses três países. O perfil de jornalista cujas respostas mais se aproximaram do ChatGPT foi o de um profissional de centro, contratado em tempo integral, com experiência em telejornalismo e diploma de graduação. O ChatGPT menos se assemelhou a jornalistas alinhados à direita política, profissionais de tempo parcial, funcionários de agências de notícias e pessoas sem diploma formal. Não houve variação nos resultados entre homens e mulheres. O alinhamento do ChatGPT mudou ligeiramente de acordo com o tema das perguntas. Em suas crenças epistemológicas (sobre a natureza da realidade e do conhecimento), o ChatGPT se alinhou com jornalistas identificadas como mulheres e de esquerda, além de profissionais de veículos nativos digitais. Já nas questões éticas, o modelo adotou uma postura mais de centro. Também houve variações por país: na amostra da Alemanha, o ChatGPT foi mais de centro; no Reino Unido, mostrou-se mais à esquerda e teve maior semelhança com jornalistas de TV; nos Estados Unidos, aproximou-se mais do perfil de jornalistas homens. No geral, o ChatGPT se assemelhou mais aos valores dos jornalistas alemães do que aos do Reino Unido ou dos Estados Unidos. Os achados trazem evidências empíricas sobre quais são exatamente os valores e vieses jornalísticos do ChatGPT como sistema. Os autores apontam que o alinhamento do modelo com grupos majoritários gera preocupação, pois “sinaliza a necessidade de vigilância contínua entre os jornalistas humanos em relação à potencial omissão sistemática de perspectivas de minorias nos resultados dos modelos de linguagem” . Texto traduzido por Isadora Vila Nova. Leia o original em inglês. O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360 . Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui .