AL recebe menos de 1% do que se gasta com IA
18 Jun, 2026
AL recebe menos de 1% do que se gasta com IA Para Rodrigo Durán, gerente-geral do Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile (Cenia), região precisa se tornar mais atrativa para receber aportes Atualizado A América Latina acelerou a adoção da inteligência artificial nos últimos anos, mas ainda enfrenta obstáculos importantes para transformar essa tecnologia em desenvolvimento econômico. A avaliação é de Rodrigo Durán, gerente-geral do Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile (Cenia), instituição responsável pelo LatamGPT - um dos poucos modelos fundacionais de IA desenvolvidos na região. Qual é o principal gargalo na adoção da IA na América Latina? Rodrigo Durán: Se considerarmos a região como um todo, acho que a principal preocupação diz respeito ao investimento. Em 2024, os investimentos globais em IA no setor privado ficaram em torno de US$ 280 bilhões, enquanto na América Latina e no Caribe chegaram a US$ 2,4 bilhões. Portanto, menos de 1% do investimento global chega à região. Mesmo assim, temos 6,4% do PIB mundial e cerca de 17% da participação global no mercado de aplicações pagas de IA. Há dois gargalos associados a isso. O primeiro é a falta de capacidade computacional. O segundo não é exatamente a falta de talentos, mas a falta de incentivos. Não estamos fazendo o suficiente, nem regional nem nacionalmente, para tornar a América Latina mais atrativa para investimentos. Há outros gargalos? Durán: Sim. O segundo grande gargalo são os dados. Houve avanços importantes na governança de dados em praticamente todos os países da região, mas a disponibilidade desses dados continua sendo um desafio. Precisamos de mais conjuntos de dados acessíveis para pesquisa e desenvolvimento de soluções. Isso passa por questões culturais, porque não temos uma tradição forte de coleta e organização de dados, tanto no setor público quanto no privado. E passa pela regulação. A maior parte da América Latina seguiu modelos inspirados no GDPR [Regulamento Geral de Proteção de Dados] europeu para proteção de dados. Embora essas regras sejam importantes, podem dificultar o desenvolvimento de aplicações mais sofisticadas de inteligência artificial. A falta de incentivos para gerar e compartilhar dados acaba se tornando um obstáculo para o avanço da IA na região. E onde o sr. vê as maiores oportunidades nesse cenário? Durán: A primeira oportunidade é a computação. O Brasil está construindo uma estratégia muito ambiciosa nessa área. Quando observamos a cadeia de valor da IA, uma das poucas vantagens competitivas claras que temos é a energia. Os países desenvolvidos enfrentam um desafio crescente para atender à demanda energética dos data centers e dos chamados hiperescaladores de IA. Nos Estados Unidos, por exemplo, essas empresas já competem com hospitais por contratos de fornecimento de energia de longo prazo. Brasil, Paraguai e Chile possuem vantagens nesse campo graças à disponibilidade de energia hidrelétrica e solar. É aí que vejo uma das maiores oportunidades para a região. A segunda está na adoção. As diferenças entre o Norte Global e o Sul Global em áreas avançadas de engenharia são enormes e caras de reduzir. Mas isso não acontece da mesma forma quando falamos em alfabetização em IA e uso da tecnologia para aumentar produtividade. Temos evidências de que não existe uma diferença significativa entre treinar pessoas no Norte ou no Sul Global para usar IA em tarefas do dia a dia. Isso cria uma oportunidade enorme para qualificar nossa força de trabalho e ampliar ganhos de produtividade. Conheça o Valor One Acompanhe os mercados com nossas ferramentas