A guerra silenciosa pelas terras raras: quem disputa o subsolo brasileiro
17 Jun, 2026
Durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, realizado em Brasília, ficou evidente que a corrida pelas terras raras não é uma discussão sobre mineração. É uma discussão sobre poder. Em um mundo cada vez mais dependente de inteligência artificial, semicondutores, data centers, sistemas militares e energia de alta tecnologia, o controle das cadeias que transformam minerais em capacidade industrial tornou-se uma das principais disputas geopolíticas do nosso tempo. E o Brasil está no centro dela. Quando o seminário deixou de ser sobre mineração Ao longo dos dois dias do Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, realizado em Brasília, uma percepção foi se tornando cada vez mais evidente. Embora o evento estivesse formalmente dedicado à mineração, às cadeias produtivas e às oportunidades econômicas associadas aos minerais críticos, a discussão real acontecia em outro nível. O que estava sendo debatido não era apenas a extração de recursos naturais, mas a reorganização de uma parte fundamental da economia política global. Isso ocorre porque as terras raras ocupam hoje uma posição singular. Elas estão presentes nos ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de guiagem militar, radares, satélites, drones, equipamentos médicos, robótica avançada e em diversas etapas da infraestrutura tecnológica que sustenta a inteligência artificial contemporânea. O mesmo vale para minerais como lítio, cobre, grafita, níquel e cobalto. Em diferentes graus, todos eles passaram a integrar a base material das tecnologias que moldarão a economia das próximas décadas. Por essa razão, a disputa internacional em torno desses recursos deixou de ser uma questão restrita à mineração. Ela passou a envolver estratégias industriais, segurança nacional, política tecnológica, defesa e planejamento econômico de longo prazo. Não por acaso, governos de diferentes orientações ideológicas passaram a tratar minerais críticos como tema de Estado. China, Estados Unidos e União Europeia adotaram políticas específicas para garantir acesso, processamento e controle dessas cadeias produtivas, reconhecendo que a disputa não ocorre apenas sobre jazidas, mas sobre a capacidade de transformar recursos naturais em poder econômico e tecnológico. Foi justamente nesse ponto que o seminário revelou sua dimensão mais interessante. Por trás das apresentações sobre projetos minerais, investimentos e oportunidades de mercado, emergia uma questão muito maior: por que o mundo inteiro passou a olhar para esses minerais ao mesmo tempo? A resposta ajuda a compreender não apenas o interesse crescente pelas reservas brasileiras, mas também uma transformação histórica em curso. As terras raras tornaram-se a expressão mineral de uma disputa muito mais ampla: a disputa pelo controle das cadeias tecnológicas que sustentarão o poder no século XXI. As terras raras não são o novo petróleo. São algo mais complexo: a infraestrutura material da era da inteligência artificial, da eletrificação, dos sistemas autônomos e da defesa avançada. O petróleo moveu máquinas, fábricas, exércitos e cidades no século XX. As terras raras movem sensores, chips, turbinas, satélites, data centers, motores elétricos e sistemas inteligentes no século XXI. A China não venceu por acaso Durante décadas, o debate econômico ocidental foi dominado pela ideia de que a globalização permitiria a distribuição eficiente das cadeias produtivas pelo planeta. Na prática, porém, a transição tecnológica do século XXI produziu um resultado diferente. Enquanto boa parte das economias avançadas transferia etapas industriais para o exterior em busca de menores custos, a China utilizava esse período para construir, de forma paciente e coordenada, uma das mais sofisticadas estruturas industriais do mundo. As terras raras talvez sejam o exemplo mais emblemático desse processo. Embora existam reservas desses minerais em diversos países, a liderança chinesa não foi construída apenas pela geologia. Ela foi construída por meio de planejamento estratégico, investimentos de longo prazo, domínio tecnológico e integração entre mineração, processamento, pesquisa científica e indústria. Ao longo de décadas, Pequim não se limitou a extrair minerais. Construiu refinarias, desenvolveu tecnologias de separação química, consolidou cadeias industriais e tornou-se líder na produção de ímãs permanentes de alta performance, componente essencial para veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas militares avançados e diversas aplicações ligadas à inteligência artificial. O resultado desse processo é que, atualmente, boa parte do poder chinês sobre as terras raras não está nas minas, mas nas etapas posteriores da cadeia produtiva. Em outras palavras, a vantagem estratégica chinesa não deriva apenas do controle sobre recursos naturais, mas do controle sobre os processos que transformam esses recursos em produtos industriais de alto valor agregado. Esse ponto é particularmente relevante porque desmonta uma interpretação simplista que frequentemente aparece nos debates públicos. A disputa global pelas terras raras não ocorre porque a China possui minerais e os demais países não possuem. O que está em disputa é algo muito mais complexo: a capacidade de controlar as etapas críticas que conectam a extração mineral à indústria avançada. Foi exatamente essa capacidade que permitiu à China transformar uma vantagem mineral em uma vantagem tecnológica, industrial e geopolítica. Ao observar os debates realizados em Brasília, tornou-se difícil ignorar esse paralelo. Sempre que surgiam discussões sobre agregação de valor, produção de ímãs permanentes, industrialização e desenvolvimento tecnológico nacional, a experiência chinesa aparecia, ainda que muitas vezes de forma implícita, como uma referência inevitável. Não como um modelo a ser copiado mecanicamente, mas como uma demonstração concreta de que o verdadeiro poder não está apenas em possuir recursos estratégicos. Está em construir as capacidades nacionais necessárias para transformá-los em desenvolvimento, tecnologia e influência internacional. O despertar tardio do Ocidente Se a ascensão chinesa foi resultado de décadas de planejamento industrial, a reação dos Estados Unidos e da União Europeia nasceu de uma constatação desconfortável: boa parte das cadeias produtivas consideradas essenciais para o século XXI passou a depender de fornecedores localizados fora de seu controle direto. Essa percepção ganhou força nos últimos anos à medida que aumentavam as tensões comerciais, tecnológicas e geopolíticas entre Washington e Pequim. A disputa pelos semicondutores, as restrições de exportação, as dificuldades logísticas observadas durante a pandemia e a crescente competição em torno da inteligência artificial transformaram os minerais críticos em tema de segurança nacional. O que antes era tratado como uma questão econômica passou a ser visto como um problema estratégico. Foi nesse contexto que Estados Unidos e União Europeia começaram a reconstruir políticas industriais que, durante décadas, haviam sido deixadas em segundo plano. Nos Estados Unidos, agências federais, fundos públicos e iniciativas ligadas à defesa passaram a apoiar projetos voltados à mineração, ao processamento e à fabricação de componentes estratégicos. Na Europa, o Critical Raw Materials Act surgiu com um objetivo semelhante: reduzir dependências externas e garantir acesso a recursos considerados fundamentais para a competitividade industrial do bloco. O próprio G7 oferece uma demonstração clara dessa mudança de postura. Nos últimos encontros, os países mais ricos do planeta passaram a tratar minerais críticos com a mesma seriedade dedicada a temas como energia, defesa ou infraestrutura. Não se trata apenas de garantir fornecimento. Trata-se de garantir autonomia estratégica em setores considerados decisivos para a próxima etapa da economia global. O aspecto mais interessante dessa transformação é que ela representa uma ruptura importante com a lógica predominante das últimas décadas. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que as cadeias produtivas poderiam ser distribuídas globalmente segundo critérios de eficiência econômica. Hoje, a realidade é outra. Estados nacionais voltaram a discutir capacidade produtiva, segurança industrial, controle tecnológico e resiliência de cadeias estratégicas. Em outras palavras, a geopolítica voltou a ocupar o centro da economia. Ao observar os debates realizados em Brasília, essa mudança de cenário aparecia de forma recorrente. Ainda que o foco imediato estivesse nos projetos brasileiros, era impossível não perceber que a crescente atenção internacional dedicada aos minerais críticos refletia uma transformação mais profunda. O mundo atravessa uma nova corrida industrial. E as terras raras tornaram-se um dos seus principais campos de disputa. O Brasil entra no tabuleiro Se a disputa global pelas terras raras se tornou uma prioridade para China, Estados Unidos e União Europeia, a pergunta seguinte é inevitável: onde o Brasil se encaixa nesse cenário? A resposta começa pelo subsolo. O país possui algumas das maiores reservas conhecidas de minerais estratégicos do planeta, incluindo terras raras, nióbio, grafita, níquel, cobre, lítio e outros recursos considerados essenciais para a transição energética e para a nova economia digital. Mais importante do que isso, porém, é o fato de que boa parte dessas reservas permanece relativamente pouco explorada quando comparada aos grandes produtores globais, tornando o Brasil uma das principais fronteiras minerais do século XXI. Não por acaso, diversos projetos brasileiros passaram a despertar crescente atenção internacional. Casos como Serra Verde, em Goiás, ganharam relevância muito além do setor mineral. O interesse demonstrado por empresas, investidores e governos estrangeiros não decorre apenas da existência de reservas economicamente viáveis. Ele reflete a tentativa de reorganizar cadeias globais de suprimento em um momento em que Estados Unidos, Europa e seus aliados buscam reduzir sua dependência em relação ao processamento concentrado na Ásia. Essa movimentação ajuda a compreender por que os debates realizados durante o seminário frequentemente ultrapassavam a escala nacional. Em diversos momentos, as discussões sobre investimentos, novas minas, beneficiamento e industrialização revelavam uma percepção comum: o Brasil deixou de ser apenas um país com recursos minerais abundantes. Passou a ser visto como uma peça estratégica dentro de uma reorganização internacional muito mais ampla. Mas existe uma questão ainda mais importante. O interesse internacional pelas reservas brasileiras não significa, necessariamente, interesse pelo desenvolvimento brasileiro. A história econômica do Sul Global demonstra exatamente o contrário. Grandes potências raramente disputam recursos estratégicos por altruísmo. Elas disputam recursos porque recursos significam poder, competitividade industrial, segurança nacional e vantagem tecnológica. A questão decisiva, portanto, não é saber se o mundo tem interesse nos minerais brasileiros. A questão é compreender em que condições esse interesse poderá contribuir para o desenvolvimento nacional e em que condições ele poderá apenas reproduzir relações históricas de dependência. Foi justamente essa reflexão que me acompanhou durante boa parte do seminário. Em diferentes momentos, percebia-se uma preocupação legítima com investimentos, competitividade e expansão da produção mineral. No entanto, a questão decisiva permanece aberta: qual será a posição do Brasil dentro dessas novas cadeias globais? Seremos apenas fornecedores de insumos estratégicos para indústrias localizadas no exterior ou conseguiremos construir competências industriais, científicas e tecnológicas capazes de capturar uma parcela maior da riqueza gerada por esses recursos? A pergunta não é trivial. Porque, na prática, ela define se o país participará da nova corrida industrial como território de extração ou como protagonista de uma estratégia de desenvolvimento. E é justamente nesse ponto que a discussão sobre minerais críticos deixa definitivamente de ser uma discussão sobre mineração para se tornar uma discussão sobre projeto nacional. O que o seminário revelou — e o que evitou discutir Um dos aspectos mais interessantes do Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos não foi necessariamente aquilo que apareceu nas apresentações. Foi aquilo que apareceu nas margens do debate. Ao longo dos dois dias de discussões, ouvi análises detalhadas sobre investimentos, projetos minerais, gargalos regulatórios, financiamento, industrialização, inovação tecnológica e oportunidades associadas à crescente demanda global por minerais críticos. Eram temas importantes e, em muitos casos, tratados com elevado nível técnico. No entanto, à medida que as discussões avançavam, tornava-se perceptível um certo desconforto quando o debate se aproximava de questões relacionadas ao papel do Estado na coordenação estratégica dessas cadeias. Não se tratava de uma rejeição explícita. Tampouco de uma oposição aberta. O fenômeno era mais sutil. Temas como empresas públicas, coordenação estatal de longo prazo, mecanismos de planejamento estratégico ou iniciativas semelhantes à proposta da Terrabras simplesmente não ocupavam posição central no debate. Em um seminário dedicado a um setor que se tornou objeto de intensa competição geopolítica internacional, essa ausência chamava atenção. O contraste se torna ainda mais evidente quando observamos a experiência das principais potências envolvidas nessa disputa. A liderança chinesa nas terras raras não surgiu espontaneamente a partir das forças de mercado. Foi resultado de décadas de coordenação estatal, política industrial e investimentos estratégicos. Nos Estados Unidos, o governo federal passou a mobilizar instrumentos públicos para fortalecer cadeias consideradas essenciais à segurança nacional. Na União Europeia, a discussão sobre autonomia estratégica tornou-se parte central das políticas voltadas aos minerais críticos. Em todos os casos, o Estado aparece como ator ativo na construção de capacidades nacionais. Por essa razão, a relativa ausência desse debate em Brasília não deve ser interpretada como um detalhe secundário. Talvez tenha sido, na verdade, um dos fatos políticos mais reveladores de todo o seminário. O Brasil parece ter alcançado um consenso crescente sobre a importância estratégica dos minerais críticos. O que ainda permanece em disputa é algo muito mais sensível: qual deve ser o papel do Estado na transformação dessa riqueza mineral em capacidade industrial, tecnológica e geopolítica. Em outras palavras, existe acordo sobre a existência da oportunidade. O desacordo surge quando a discussão avança para a forma de aproveitá-la. Essa talvez seja a principal encruzilhada revelada pelo seminário. Existe amplo acordo sobre a necessidade de ampliar investimentos, acelerar projetos e fortalecer cadeias produtivas. Mas as divergências tornam-se mais visíveis quando a discussão avança para temas como propriedade, coordenação estratégica, financiamento público, compras governamentais, conteúdo local e instrumentos de política industrial capazes de orientar o desenvolvimento dessas cadeias. Não se trata de defender soluções prontas ou modelos importados. Trata-se de reconhecer uma realidade simples: nenhuma das grandes potências atualmente envolvidas na disputa pelos minerais críticos delegou integralmente ao mercado a tarefa de construir setores considerados estratégicos. Ignorar esse fato significa correr o risco de discutir mineração sem discutir poder, discutir investimentos sem discutir desenvolvimento e discutir recursos estratégicos sem discutir soberania. Talvez tenha sido justamente nesse silêncio que o seminário revelou uma de suas mensagens mais importantes. O Brasil parece cada vez mais consciente do valor de suas riquezas minerais. A questão que permanece em aberto é se teremos a mesma clareza quando o debate chegar ao tema mais sensível de todos: quem deve conduzir a estratégia nacional capaz de transformar essas riquezas em capacidade tecnológica, industrial e geopolítica. A verdadeira disputa não acontece na mina Existe uma tendência recorrente de imaginar que a riqueza mineral começa e termina no subsolo. Durante séculos, essa percepção ajudou a moldar economias inteiras baseadas na exportação de recursos naturais. O século XXI, porém, está demonstrando que a geologia, sozinha, não explica mais a distribuição do poder. As tecnologias que estruturam a nova economia global dependem cada vez mais de cadeias produtivas complexas e altamente integradas. Um único veículo elétrico, um data center voltado à inteligência artificial ou um sistema avançado de defesa reúne componentes produzidos em diferentes países, utilizando minerais extraídos em uma região, processados em outra, transformados industrialmente em uma terceira e incorporados a produtos finais em uma quarta. O valor econômico, tecnológico e estratégico não se concentra em uma única etapa desse processo. Ele está distribuído ao longo de toda a cadeia. É justamente por isso que a corrida global pelos minerais críticos não pode ser compreendida apenas como uma disputa por recursos naturais. O que está em jogo é o controle dos fluxos que conectam mineração, conhecimento científico, capacidade industrial, infraestrutura tecnológica e poder econômico. Em outras palavras, a questão central não é quem possui os minerais, mas quem controla os caminhos percorridos por esses minerais até se transformarem em baterias, semicondutores, satélites, sistemas de inteligência artificial, equipamentos médicos, redes energéticas ou tecnologias de defesa. Ao longo do seminário, essa realidade aparecia de forma constante, mesmo quando não era mencionada diretamente. As discussões sobre agregação de valor, inovação, processamento, industrialização e desenvolvimento tecnológico apontavam para uma mesma direção: o futuro da economia mineral será definido cada vez menos pela extração e cada vez mais pela capacidade de transformar recursos naturais em capacidades nacionais permanentes. Essa é uma questão particularmente importante para países do Sul Global. Durante grande parte da história moderna, diversas nações participaram das cadeias internacionais como fornecedoras de recursos estratégicos sem conseguir capturar proporcionalmente a riqueza, a tecnologia e o poder gerados por esses mesmos recursos. A emergência dos minerais críticos oferece uma nova oportunidade, mas não garante automaticamente um resultado diferente. O desfecho dependerá das escolhas políticas, industriais e tecnológicas realizadas ao longo dos próximos anos. Talvez essa seja a principal lição deixada pelo Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A verdadeira disputa não acontece na mina. Ela acontece nas cadeias produtivas, nos laboratórios, nas universidades, nos centros de pesquisa, nas fábricas, nas infraestruturas digitais e nos espaços onde são tomadas as decisões capazes de transformar riqueza mineral em capacidade nacional. Nos próximos artigos desta série, aprofundaremos justamente essa etapa da discussão. Porque possuir recursos estratégicos é apenas o início da história. A questão decisiva é compreender onde a riqueza é efetivamente criada, quem a captura e quais instrumentos podem permitir que ela permaneça a serviço do desenvolvimento brasileiro. Artigo publicado originalmente em