Bem-vindos à caverna do robô
26 May, 2026
Bem-vindos à caverna do robô Existe um conforto peculiar em nunca ser contrariado. Em nunca ter de esperar, negociar, ou suportar a ambiguidade irritante de outros que, desconcertantemente, tem vontades próprias. Talvez este tenha sido sempre o sonho dos techbros, não lidar com as emoções humanas e nossas idiossincrasias. E estamos chegando lá. A promessa é sedutora: menos atrito, mais fluidez, o que tem ficado mais aparente nesta metade da terceira década deste século tecnológico. Não há mais espera e confusão para se fazer entender num pedido de pizza. Não é necessário falar com o motorista de aplicativo, nem negociar o valor. Pouco ou quase nada restou para falar com o gerente do banco. As últimas camadas, a das relações afetivas, aos poucos se esvaem em mediações de novos parceiros aos nossos gostos e desgostos, com robôs escolhendo quem poderia ser um bom par para o próximo encontro, atuando como coaches emocionais, sem o suor, a frustração e, por fim, sem o crescimento que surge destas diversas fricções. O amadurecimento, afinal, é lento, desconfortável e passa por mil frustrações e traumas, que nos tornam ao fim quem deveríamos ser. Cria resiliência e capacidade de conviver em sociedade, com a capacidade de tolerância e reconhecimento das diferenças do outro. Quando delegamos sistematicamente essas fricções a plataformas, não estamos apenas terceirizando tarefas. Estamos terceirizando a experiência. E experiência não se terceiriza sem custo — o custo é o próprio desenvolvimento. E, em um olhar mais macro, o custo que encaramos relutantemente na sociedade atual, com o aumento da radicalização, desconforto em conviver com quem não compartilha sua ideologia, incapacidade de aceitar recusas e o aumento do tribalismo tóxico, reduzindo nossa capacidade de convívio em grandes grupos de interesses dispersos. Até então a melhor ferramenta humana para capacitar o convívio e aumento de sociedades havia sido o Direito, em suas milenares interações, na busca por regras de senso comum, debates, democracia e justiça. Quando não se concorda em nada ou muito pouco, se esgarçam os sistemas legais e se incrementa o uso punitivo do sistema judiciário, na busca pela imposição de força mediante o uso dos sistemas e códigos que dispomos. O Direito, até então a cola das sociedades após o império romano, passa a dividir espaço com agentes virtuais, robôs e plataformas que se engajam por nós. Mas a que custo? O que torna esse fenômeno particularmente interessante é que ele vem embrulhado em linguagem de cuidado. Não é controle — é suporte. Não é dependência — é assistência. As plataformas não querem te tornar refém; elas querem te empoderar. Com a ressalva de que esse empoderamento passa, necessariamente, pela assinatura mensal. E assim caminhamos entre ferramentas que ampliam nossas capacidades e enfim as substituem, atrofiando nossa tolerância, criando dependências e formando adultos úteis que não sobrevivem fora dos aparatos de cuidado. Mas existe valor real em reduzir certos atritos? Claro. Pedir comida por aplicativo é cômodo e, para muita gente, acessível de formas que o telefone não era. A IA pode ajudar pessoas com ansiedade social a praticar conversas antes de tê-las de verdade. Pode oferecer apoio a quem não tem acesso a terapia. Pode ser, em contextos específicos, genuinamente útil. O problema não são as ferramentas em si, mas a ausência de discernimento, quando a conveniência vira método para isolamento e disto se criam incapacidades. Se até relações amorosas são planificadas e medidas, estamos no limiar de desistir sobre o que é ser humano. A questão é que sociedades sem tolerância a dor não têm imunidade, quem não foi rejeitado não tem resiliência. E bolhas de conveniência tampouco são reais, ou seja, só estamos construindo camadas para adiar o dia da inevitável frustração da existência humana, pasteurizando o viver que inevitavelmente se imporá. O resultado não é necessariamente um mundo de pessoas mais felizes, mas de pessoas que se tornaram pouco tolerantes à textura normal da existência — e que, convenientemente, têm uma plataforma disponível para suavizar cada nova aspereza, já que não há leis capazes de determinar o fim da frustração. Bem vindos à caverna do robô.