O que é, exatamente, a medicina da longevidade? Saiba o que dizem os especialistas

admin
20 Apr, 2026
A chamada medicina da longevidade é uma mistura confusa de intenções nobres, tratamentos de ponta e produtos caros e ineficazes. Isso se deve em parte ao fato de que atualmente não existe uma certificação profissional, nem diretrizes oficiais, para a prática da medicina da longevidade (também conhecida como geromedicina) nos Estados Unidos. Praticamente qualquer pessoa com formação em medicina pode se autodenominar médico da longevidade; basta observar a quantidade de médicos influenciadores que se posicionam como especialistas nas redes sociais. E embora existam profissionais que trabalham de boa fé para ajudar as pessoas a viverem vidas mais longas e saudáveis, e cientistas que buscam tratamentos para potencialmente retardar o processo de envelhecimento, existem também clínicas e empresas que comercializam qualquer coisa em nome da longevidade. Isso inclui suplementos, exames e infusões com pouca evidência científica que sustente seu uso. A medicina da longevidade "exige muita análise", afirma Bobby Mukkamala, presidente da Associação Médica Americana. Os tratamentos oferecidos pelas clínicas são "baseados em algo que seja totalmente justificado como eficaz ou em algo que ainda não foi comprovado?", ele questiona. Perguntamos a nove médicos especialistas em longevidade e outros profissionais de saúde sobre as maneiras mais promissoras com as quais a medicina da longevidade pode ajudar as pessoas e questioamos também onde a propaganda se antecipou à ciência —e pode estar causando mais mal do que bem. "Acredito que, no melhor cenário possível, a medicina da longevidade seja o que a boa medicina sempre almejou ser, mas raramente teve as ferramentas para alcançar", diz Jordan Shlain, fundador da clínica médica particular Private Medical. Um primeiro passo típico em muitas clínicas de longevidade é passar por uma avaliação abrangente, que geralmente inclui itens como avaliação física, exames de sangue, sequenciamento genômico e exames de imagem corporal. Alguns desses testes, como o painel metabólico, são padrão e usados regularmente em consultórios de atenção primária. Outros, historicamente utilizados em especialidades médicas, estão se tornando mais comuns, como os testes de lipoproteína (a) e apolipoproteína B, dois biomarcadores relacionados à saúde cardiovascular. Para os defensores da área, esses exames são uma forma de coletar dados sobre o risco que uma pessoa tem de desenvolver várias condições médicas e, asism, elaborar um plano para intervir precocemente. Nicole Sirotin, diretora executiva do Instituto para uma Vida Mais Saudável de Abu Dhabi, cita o controle da glicemia como exemplo. Na atenção primária tradicional, um médico provavelmente não prescreveria medicamentos ou mudanças no estilo de vida até que os níveis de glicose de uma pessoa a qualificassem como pré-diabética. Com uma abordagem de medicina da longevidade, um profissional de saúde poderia recomendar tratamentos semelhantes se a glicemia de um paciente estivesse elevada, mesmo que não atingisse o limiar da pré-diabetes. Isso significa que um resultado normal de exame, frequentemente visto como um indicador de saúde na medicina tradicional, pode não ser considerado bom o suficiente em uma clínica de longevidade. Andrea Maier, codiretora da Academia para Longevidade Saudável da Universidade Nacional de Singapura, afirmou que considera os exames de sangue normais como algo que pode ser trabalhado com o paciente para melhorar. "Queremos que as pessoas normais se tornem ótimas", diz Maier. "Porque, para pessoas com resultados limítrofes, daqui a dez anos é muito provável que você seja anormal, então por que esperar?" Os cuidados com a medicina da longevidade podem ser caros —e raramente são cobertos por planos de saúde. Os críticos argumentam que, em última análise, as pessoas não estão pagando por conhecimento secreto ou tratamentos significativamente melhores, mas sim por mais tempo e atenção do profissional de saúde. Na atenção primária, "eles têm que te atender em 10 a 15 minutos e te despachar", diz Jessica Knurick, nutricionista que se mostra cética em relação à medicina da longevidade. James Kirkland, diretor do Centro de Geroterapia Avançada do Cedars-Sinai, na Califórnia, concorda que ainda não estão claros os benefícios que um paciente pode ter em uma clínica de longevidade que não possa obter com um bom atendimento primário. Ele acrescenta que está entusiasmado com o potencial da geromedicina (seu termo preferido) nos próximos cinco a dez anos, mas diz que, no momento, "muita coisa está sendo feita de forma um tanto arriscada e com pouco embasamento científico". A falta de padronização na medicina da longevidade abriu espaço para falsas promessas e pseudociência. Sabe-se que clínicas oferecem todo tipo de tratamento não comprovado e potencialmente perigoso, incluindo terapia com células-tronco e plasmaférese . "Temos casos de pessoas que morreram devido a células-tronco, pessoas que tiveram reações tóxicas muito graves por causa de infusões de diferentes peptídeos", diz Evelyne Bischof, diretora médica do Centro de Longevidade Sheba, em Israel. "Portanto, existem riscos, existem danos." Há ainda maneiras mais sutis pelas quais as clínicas de longevidade se afastam da ciência. Por exemplo, vários especialistas questionaram alguns dos testes oferecidos, incluindo os testes de idade biológica, afirmando que eles não são precisos o suficiente para serem usados individualmente. "Eles são úteis em níveis populacionais", diz Kirkland. "Mas há uma enorme variação interindividual em seus resultados." Outros tratamentos, como suplementos ou medicamentos prescritos para usos não convencionais, estão sendo estudados em ensaios clínicos e existem algumas evidências —principalmente em pesquisas com animais— que apoiam seu uso. No entanto, muitos especialistas ainda recomendam cautela. "A medicina da longevidade pode ser, em certa medida, charlatanismo com uma nova roupagem", diz Shlain. "Os biomarcadores conferem uma aparência de rigor, os suplementos geram receita, e o paciente não obtém nem longevidade, nem conversas honestas sobre o assunto." Embora os especialistas se preocupem com o risco de charlatanice do mercado, também se mostram otimistas em relação ao futuro. Há iniciativas globais incipientes para legitimar a medicina da longevidade por meio da criação de padrões de licenciamento governamentais para clínicas. Além disso, estão em andamento ensaios clínicos que poderão, um dia, levar ao desenvolvimento de medicamentos capazes de influenciar as causas do envelhecimento —o objetivo final da área. "De certa forma, a geromedicina é atualmente um campo sem medicamentos específicos, mas eles virão", diz Eric Verdin, presidente e diretor-executivo do Instituto Buck para pesquisa sobre envelhecimento.