Brasil conquista 3 estrelas Michelin - e vira alvo do próprio vira-latismo
16 Apr, 2026
Brasil conquista 3 estrelas Michelin - e vira alvo do próprio vira-latismo Resumo Tão logo foi publicada a notícia de que dois restaurantes brasileiros tinham conquistado três estrelas no Guia Michelin — o reconhecimento mais desejado no mundo da gastronomia —, os haters vieram com força. "É forçação de barra, o menu parece uma brincadeira de criança", escreveu um leitor em um comentário de uma reportagem falando do Evvai, do chef Luís Filipe Souza, um dos dois restaurantes reconhecidos. "Apenas um aspirante à gastronomia com toques de modernidade", vociferou outro sobre o Tuju (o segundo restaurante premiado), avaliando a comida preparada pelo chef Ivan Ralston e sua equipe como "ruim". Isso sem contar, claro, os muitos comentários sobre os preços dos menus ("mais caros que restaurante de aeroporto", como comentou uma mulher, como se as duas coisas fossem comparáveis) e até a legitimidade da dupla conquista ("não representam o Brasil como nossos botecos", como respondeu outra usuária do X). Toda vez que algo assim ganha as manchetes — e sempre há de se comemorar que a gastronomia conquiste mais espaço também na mídia em geral —, pego um balde de pipoca para me divertir com o que se diz nas redes sociais e na seção de comentários dos portais. Dessa vez, entretanto, não consegui ver humor. É bom que as pessoas engajem com a gastronomia, que falem sobre restaurantes como falam de futebol ou do BBB, que queiram acrescentar seu grão de areia de opinião num Saara que geralmente conhecem pouco. Mas me impressiona quando as mensagens tentam só diminuir conquistas pelo prazer de fazê-lo, sem agregar nada à discussão, sem tentar um debate — que é sempre válido, claro: o que essas estrelas importam? Ou como prêmios como o Michelin realmente promovem a gastronomia brasileira? Os brasileiros, tão aguerridos para defender o cinema nacional em eventos como o Oscar, para dar apoio aos jogadores em campeonatos internacionais, para bater palma para celebridades que rompem a bolha local, nem sempre têm o mesmo ímpeto quando se trata da nossa gastronomia. Um dos leitores se vangloriava de refeições em restaurantes estrelados que tinha visitado na China, dizendo que eram muito superiores aos que foram reconhecidos pelo prêmio. Outro dizia que era um absurdo considerar criativo "um prato feito com ingredientes tão casuais", como os que comemos na mesa de família. Talvez, sobretudo, porque os restaurantes premiados que conquistaram algo inédito não apenas para o Brasil, mas em toda a América Latina (México e Argentina, com edições do Michelin, não possuem um três estrelas para chamarem de seu, assim como muitos países da Europa, como Portugal ou Turquia), estão na categoria da "alta gastronomia". "Nada contra, mas isso aí não agrega nenhum valor à cultura do Brasil", escreveu uma usuária no Instagram. Eu tendo a achar que agrega, sim — principalmente para a imagem do Brasil lá fora. A França, que definiu a alta cozinha como conhecemos (e que pariu o Michelin), por exemplo, por anos manteve todo o domínio da culinária internacional, indicando como deveríamos chamar os molhos, os cortes e até as posições de trabalho em um ambiente profissional de restaurantes. Isso em um restaurante em Paris, claro, mas também de Taboão da Serra. O glossário, o modo, a visão — tudo chegou pra nós pronto, empacotado de cultura estrangeira que, como muitas vezes, fomos obrigados a digerir. Este eixo, que se manteve tão eurocêntrico (depois com a Itália, a Espanha, a Dinamarca...), parece enfim começar a vergar, reconhecendo um espectro mais amplo do que a gastronomia pode ser, olhando pela primeira vez para o Sul Global — somos os únicos tri-estrelados abaixo da linha do Equador, e isso tem um poder de representatividade enorme para o Brasil, para o nosso continente e para outros que, geográfica e culturalmente, estiveram fora do campo de visão do "mundo desenvolvido" gastronômico. Prêmios são essencialmente políticos, controversos e passíveis de diversas críticas, eu reconheço, mas a atenção que geram nos coloca em um patamar em que podemos chegar a essa discussão de uma maneira mais horizontalizada, sem complexos de inferioridade. Claro que são restaurantes caros, pouco acessíveis para a maioria dos brasileiros, usando ingredientes que poucos têm a chance de provar. Mas, ao mesmo tempo, colocam nossa mandioca, nosso tucupi, nossos produtores, nosso jeito de comer um pouco mais sob os holofotes, e isso é importante. Ajudam a girar a roda de um setor que é fundamental, reconhecem o trabalho de quem vive do campo, permitem o desenvolvimento de ingredientes que ajudam a preservar o que é nosso — como no caso das abelhas nativas, cujos meles figuram nos menus de ambos. Pode parecer alguma ingenuidade, algum otimismo exacerbado, mas não consigo me despir do ufanismo quando vejo a nossa gastronomia (e nossa cultura) chegar a patamares inéditos, cruzar barreiras, conquistar novos territórios. Seja um filme de que não gostei, uma artista que não ouço, ou um restaurante onde nunca poderei jantar — não importa. É preciso deixar de lado nosso próprio vira-latismo — neste caso, gastronômico — e celebrar aquilo que nos destaca. Entre todos os comentários, fico com o de alguém que postou no Instagram abaixo de um post que mostrava os dois chefs abraçados no palco: "Quando o Brasil ganha, todos nós ganhamos juntos". É triiii, duas vezes tri! Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.