Lula diz ter “muita paciência” com Trump, mas que EUA “jogam errado”
16 Apr, 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que decidiu “ter muita paciência” ao lidar com Donald Trump (Partido Republicano). Segundo ele, o líder dos Estados Unidos “está jogando um jogo muito errado” ao impor tarifas e travar guerras como a contra o Irã. “Não precisamos estar alinhados ideologicamente. Um chefe de Estado senta-se à mesa pensando nos interesses de seu país. Além disso, disse a Trump que era importante definir que tipo de líder se quer ser. Prefiro ser um líder respeitado, não um temido. Ninguém tem o direito de incutir medo”, declarou em entrevista aos jornalistas Jan Martínez Ahrens e Naiara Galarraga Gortázar, do jornal espanhol El País. [shortcode-newsletter] Lula embarca nesta 5a feira (16.abr) para a Espanha, onde dará início a uma tour europeia que ainda passará por Alemanha e Portugal. Ao jornal espanhol, o presidente afirmou que Trump “parte da premissa de que o poder econômico, militar e tecnológico” dos EUA “determina as regras do jogo” –algo que, segundo ele, “acaba criando problemas” para os norte-americanos. “Quando ele decidiu atacar o Irã, não sei se ele percebeu que o preço do combustível iria aumentar e que as pessoas seriam as que pagariam por isso. Quando você é chefe de Estado, você deve respeitar a soberania de outros países”, disse. Lula afirmou que os diversos conflitos estão fazendo com que os países sejam “pressionados a rearmar-se”, incluindo o Brasil. “Mas eu não quero investir em armas, e sim em livros, comida e empregos”, afirmou. “O problema é que a União Europeia acaba de propor 800 bilhões de euros para a defesa, o Reino Unido está se rearmando, o Japão também”, declarou. “Alguém precisa tomar a iniciativa. (...) Porque Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país. Ele não foi eleito para isso, e sua Constituição não permite. É essencial que aqueles que estão no poder assumam maior responsabilidade pela manutenção da paz”, disse. ONU O presidente voltou a criticar o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Disse ser “profundamente” preocupante que o órgão, “criado para manter a paz, esteja travando uma guerra”. Ele afirmou ser a hora “de redefinir as Nações Unidas para lhe dar credibilidade”. Lula declarou que “nossa querida ONU não tem poder para absolutamente nada”. De acordo com o petista, “é como se o mundo fosse um navio à deriva, sem nenhuma instituição para guiar o comportamento civilizado” dos países. “Estamos enfrentando uma situação muito, muito delicada: nunca desde a 2a Guerra Mundial houve tantos conflitos simultâneos. Só no ano passado, foram gastos US$ 2,7 trilhões em guerras. Com metade disso, poderíamos acabar com o analfabetismo, a crise energética global e a fome que aflige 630 milhões de pessoas”, disse. Lula declarou que Trump “tem razão” ao também criticar a ONU. O presidente norte-americano oficializou em janeiro o Conselho da Paz. Na cerimônia de assinatura da criação do órgão, o republicano criticou as Nações Unidas. O Brasil foi convidado a integrar o Conselho da Paz, mas ainda não é parte da iniciativa. “As instituições internacionais não estão cumprindo o papel para o qual foram criadas. E por quê? Porque os 5 países do Conselho de Segurança, que deveriam dar o exemplo, não o fazem”, declarou Lula. CONFLITOS Apesar dos conflitos no mundo e da intervenção dos EUA na Venezuela, Lula afirmou se sentir “seguro”. Mencionou o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estar preso. Disse que a democracia “funciona” no Brasil e é um exemplo para os EUA. “Minha batalha é a batalha do debate. E quero travá-la na mesa de negociações. Quero mais livre comércio. A UE e o Mercosul deram uma lição ao mundo com o acordo que entra em vigor em 1o de maio”. Questionado se o Brasil não deveria ter sido mais crítico da Rússia e de seu presidente, Vladimir Putin (independente), quando o país invadiu a Ucrânia, Lula respondeu: “O Brasil foi muito crítico. Em nenhum momento reconheceu o direito da Rússia de invadir o território ucraniano. O Brasil defendeu que a solução estava na mesa de negociações”. O presidente disse não acreditar que haja mais intervenções na América Latina. “Honestamente, não acho. Seria um absurdo... Quero trabalhar com todos”, declarou. Lula disse que a situação atual da Venezuela “é um problema” dos venezuelanos. “Mas, se eu fosse venezuelano e vice-presidente, e se o que aconteceu [na Venezuela] tivesse acontecido, eu assumiria o cargo e convocaria eleições gerais. É isso que eu faria. Teria que haver um processo eleitoral acordado com a oposição para que o resultado fosse respeitado e a Venezuela pudesse ter paz novamente. O que não pode acontecer é os Estados Unidos acharem que podem governar a Venezuela. Isso não é normal; não tem lugar em uma democracia”, disse. Atualmente, o país sul-americano é governado por Delcy Rodríguez (MSV, esquerda), que era vice-presidente quando Nicolás Maduro estava no comando da Venezuela. ELEIÇÕES Lula disse que o bolsonarismo “não governará este país novamente porque o povo prefere a democracia” e que não está preocupado com uma interferência estrangeira no processo eleitoral. Ele declarou não ser novidade ter uma sociedade dividida. “Nunca ganhei uma eleição no 1o turno. E o mundo está ainda mais polarizado. A extrema-direita está ganhando terreno com um discurso enganoso e negacionista, usando as redes digitais como nunca antes, e agora com a ajuda da inteligência artificial”, disse. Leia mais: Com Mercosul-UE à vista, Lula faz maratona com empresários na Europa Flávio tem 42% no 2o turno contra 40% de Lula, diz Quaest