Grupo protocola pedido de impeachment e afastamento cautelar contra Osmar Stabile do Corinthians
15 Apr, 2026
Grupo protocola pedido de impeachment e afastamento cautelar contra Osmar Stabile do Corinthians Um grupo formado por associados e conselheiros do Corinthians protocolou, junto à presidência do Conselho Deliberativo (CD) do clube, um pedido de impeachment e afastamento cautelar contra o presidente da diretoria, Osmar Stabile. Os autores alegam que suas condutas configuram uma gestão irregular, temerária e em desacordo com os princípios e regras que regem o clube do Parque São Jorge. A informação foi divulgada inicialmente pelo UOL Esporte e confirmada pelo Meu Timão. No documento, ao qual a reportagem teve acesso, o grupo baseia a solicitação em alguns pilares, apontando suposta violação do Estatuto do Corinthians, oneração do Parque São Jorge, descumprimento da Lei Geral do Esporte (LGE), além de possíveis irregularidades administrativas, como funcionários fantasmas e descumprimento de prazos legais e estatutários. O grupo é composto por conselheiros, associados e ex-diretores do clube. Entre eles estão o conselheiro vitalício Antonio Roque Cittadini, ex-vice-presidente do clube, Alexandre Germano (ex-diretor financeiro), Fernando Perino (ex-diretor jurídico adjunto), Marcelo Kahan Mandel (ex-diretor de relações internacionais), Yun Ki Lee (ex-diretor jurídico) e Peterson Ruan (conselheiro trienal), além dos associados Cyrillo Cavalheiro Neto, Felipe José Mendes da Silva, José Augusto Mendes e Wilson Canhedo Júnior. Ao longo de 15 páginas, o pedido aponta inicialmente o acordo firmado entre o Corinthians e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para equacionamento de uma dívida estimada em R$ 1,2 bilhão. Segundo o documento, o clube utilizou o Parque São Jorge, a sua sede social, como garantia no acordo, com o conjunto de imóveis avaliado em R$ 602,2 milhões. Os autores alegam que a medida foi adotada sem observar as exigências do Estatuto interno, que prevê aprovação por quórum mínimo e maioria qualificada de conselheiros. Ao firmar o acordo com a PGFN, o presidente teria desrespeitado normas do Código Civil, da Lei Geral do Esporte, da Lei Pelé e do próprio Estatuto do clube, ao não seguir os ritos que envolvem a participação do Conselho Deliberativo e do Conselho de Orientação (Cori), órgãos que possuem funções consultivas e deliberativas na gestão do Corinthians. O texto sustenta ainda que a inclusão da sede social como garantia representa oneração patrimonial, já que o imóvel pode ser executado judicialmente em caso de inadimplência. Assim, existe o risco de o Parque São Jorge ser levado a leilão em eventual cenário de inadimplência. O grupo ainda anexou no pedido um declaração recente atribuída a Osmar Stabile, onde ele teria dito que “se ele não desse certo no cargo, o Parque São Jorge poderia virar um monte de prédios e apartamentos”. O documento também cita possível violação do artigo 3o do Estatuto do Corinthians, que determina que bens imóveis e marcas do clube só podem ser colocados como garantia mediante autorização expressa do CD. Com base nesse trecho, o pedido aponta que a utilização do Parque São Jorge como garantia, sem comprovação do cumprimento dessas exigências, configuraria violação estatutária e exporia o patrimônio do clube a riscos elevados, em desacordo com o Código Civil e com os princípios da LGE. Além disso, o documento destaca que a LGE, em seus artigos 66 e 67, atribui responsabilidade pessoal aos dirigentes por atos de gestão irregular ou temerária. Na avaliação dos conselheiros e associados, isso se aplicaria ao caso de Osmar Stabile. Requerimentos ignorados, supostas funcionários fantasmas e descumprimento de prazos Para além do acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o grupo aponta que o presidente Osmar Stabile tem ignorado diversos requerimentos de conselheiros, associados e órgãos internos que solicitam esclarecimentos e soluções para problemas que afetam diretamente o dia a dia do clube. Segundo o documento, a ausência de respostas a questionamentos considerados cruciais impede a fiscalização e a participação dos associados na vida do Corinthians, configurando uma grave omissão. Entre os requerimentos não respondidos, o grupo lista alguns exemplos: - Manutenção da Neo Química Arena: pedidos de esclarecimento sobre a deterioração do estádio por falta de manutenção adequada, o que comprometeria a segurança e a imagem do patrimônio do clube; - Substituição da REAG: questionamentos sobre a troca da administradora do FII Arena, responsável pelas finanças da Neo Química Arena, que está em liquidação extrajudicial por suposta ligação com o crime organizado, gerando incertezas na gestão financeira; - Cargos e salários: dúvidas sobre a estrutura administrativa, especialmente diante de denúncias de funcionários fantasmas; - Distribuição de ingressos e credenciais: pedidos de maior transparência na política de distribuição, sobretudo em jogos de grande apelo; - Contratação de empresa de segurança armada: solicitações de esclarecimentos sobre a regularidade da contratação; - Esclarecimentos sobre o Censo Timão: questionamentos sobre os dados coletados e possíveis descumprimentos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Com base nesses pontos, o grupo volta a citar o Estatuto do clube, que prevê a obrigação de transparência e prestação de contas por parte da diretoria, além da Lei Geral do Esporte (LGE), que impõe responsabilidade e transparência na gestão esportiva. Outro ponto destacado é a suposta existência de funcionários fantasmas no quadro do clube, mencionada pelo próprio presidente em entrevista, na qual Osmar Stabile afirmou que havia “pessoas que estavam no centro de custo do futebol que nunca tinham aparecido no futebol” e “pessoas que estavam no centro de custo da base que nunca apareceram na base”. A redução do quadro de funcionários de 1.300 para 1.080, citada na mesma ocasião, reforçaria a existência de uma estrutura administrativa inchada. Para o grupo, a situação é considerada grave, pois pode configurar má gestão de recursos e possível desvio de verbas, impactando diretamente a saúde financeira do clube. Os autores defendem que a diretoria deve investigar e responsabilizar os envolvidos nas contratações e na manutenção desses vínculos. Por fim, o documento cobra a divulgação dos balanços e demonstrações financeiras do Corinthians, apontando que a transparência é essencial para a boa governança. Apesar de ser uma associação sem fins lucrativos, o clube possui estrutura comparável à de grandes empresas e deve seguir parâmetros da Lei das Sociedades Anônimas, segundo o grupo. Atualmente, o último balanço financeiro disponibilizado pelo clube em seu site se refere ao mês de novembro de 2025, desde então, não houve atualizações. Pelas normas aplicáveis, as demonstrações financeiras devem ser publicadas até o fim de março, permitindo a realização da assembleia de aprovação de contas até abril. A não divulgação no prazo compromete a transparência, dificulta a fiscalização e pode gerar desconfiança entre associados, patrocinadores e credores. O texto aponta que essa omissão pode caracterizar falha grave de gestão, nos termos da Lei Geral do Esporte, além de violar o Estatuto. Também ressalta que o presidente pode ser responsabilizado pessoalmente pelo descumprimento dessas obrigações. O grupo dina destaca que a falta de transparência cria um ambiente propício a irregularidades e pode motivar medidas como uma intervenção judiciail, já que a jurisprudência reconhece o direito dos associados de exigir prestação de contas e a publicação dos balanços. Conforme publicado pelo Meu Timão, a diretoria alvinegra planeja reanalisar as demonstrações financeiras de 2024, que teriam impactado diretamente nas contas de 2025. O clube cogita a possibilidade de novas irregularidades após a ausência de R$ 294 mil em “valores não conciliados” no caixa do clube, referentes ao período entre 17 de janeiro e 11 de julho de 2025. Conclusão do pedido e próximos passos Com base nos pontos apresentados no requerimento encaminhado a Leonardo Pantaleão, presidente em exercício do Conselho Deliberativo (CD), o grupo afirma que a gravidade das supostas violações estatutárias e legais praticadas por Osmar Stabile, presidente do Corinthians, compromete a imagem, o patrimônio e a credibilidade do clube. Dessa forma, os autores solicitam a instauração imediata do processo de impeachment contra o mandatário, além do afastamento cautelar de Osmar Stabile de suas funções, a fim de garantir a lisura da apuração e evitar a continuidade de atos considerados lesivos. Também pedem a apuração rigorosa das irregularidades apontadas, com a devida responsabilização dos envolvidos, a aplicação das sanções cabíveis conforme o Estatuto e a legislação vigente, além da intimação do presidente para apresentação de defesa no prazo legal. “As condutas do presidente, conforme detalhadas neste pedido, demonstram uma gestão que se afastou dos princípios de legalidade, transparência e responsabilidade, essenciais para a administração de uma instituição do porte e da importância do Sport Club Corinthians Paulista. A inércia diante de tais violações seria um desserviço à história do clube e aos milhões de associados e torcedores. Este Conselho Deliberativo, zeloso por suas atribuições e pela defesa dos interesses do Sport Club Corinthians Paulista, tomará as medidas necessárias para restabelecer a ordem estatutária e legal, garantindo a integridade e o futuro da nossa instituição”, detalha um trecho do documento. Agora, Leonardo Pantaleão deverá encaminhar o pedido à Comissão de Ética e Disciplina (CE) em até cinco dias. Após a emissão do parecer, caberá ao presidente do CD convocar uma reunião do Conselho Deliberativo para deliberar sobre o andamento do processo. Em caso de aprovação, será convocada, também em até cinco dias, a Assembleia Geral (AG) dos associados, responsável pela decisão final sobre uma eventual destituição. Em caso de eventual afastamento cautelar ou definitivo de Osmar Stabile, a presidência do clube seria assumida pelo segundo vice-presidente, Armando Mendonça. Procurado pelo UOL Esporte, Stabile afirmou ter sido surpreendido pela informação e declarou que só poderá se manifestar após ter acesso ao conteúdo completo do pedido.