“Tenho aversão ao Lula”
10 Apr, 2026
Quando a pessoa me diz que tem aversão ao Lula... eu entendo. Juro que entendo. A voz cavernosa e cheia de estalactites; o jargão que cheira a mofo; as grosserias; o culto à própria ignorância; o histórico de corrupção. E um sujeito desses ainda consegue ser presidente do Brasil pela terceira vez. Mais do que isso: um sujeito desses ainda consegue manter milhões enfeitiçados por suas mentiras. É, eu também tenho aversão ao Lula político. Mas confesso que o Lula ser humano e o Lula histórico me fascinam. Aquele mais do que este. Porque nada do que o Lula ser humano diga ou faça, inclusive os malditos e malfeitos, me é estranho. Daqui, a uma distância segura e com a carteira bem protegida, fico deslumbrado. Como é possível que alguém tão perdedor se convença e convença multidões de que é um vencedor? Forças históricas e vícios E o pior é que, em sendo Lula quem é, ele não vão nos legar um registro desse seu lado humano. Nenhum diário, muito menos uma autobiografia razoavelmente sincera. E aqui entra novamente a pergunta: como pode alguém abdicar assim do seu lado mais vulnerável e digno, realmente digno, inclusive digno do perdão – e em troca de umas viagens, uns jantares, uns rapapés e um lugar para sempre controverso na história? Me fascina, não adianta. E é por isso que às vezes me pego tentando superar a aversão: para tentar vislumbrar qualquer coisa de humano, verdadeiramente humano, que reste num homem que é produto de seu tempo e que, impelido tanto pelas forças históricas quanto pelos vícios inerentes à condição humana, se transformou nisso que vemos hoje: um homem que poderia ter sido grande justamente na sua vulnerabilidade, mas que preferiu ser o mito oco das narrativas.