Análise: Megaevento da Universal reforça papel feminino na salvação do lar
3 Apr, 2026
O olhar secular pode até estar treinado para tirar a temperatura política do Família ao Pé da Cruz, o gigantesco ato que a Igreja Universal do Reino de Deus promoveu simultaneamente em estádios e templos do país. O bispo Renato Cardoso deu essa brecha quando, em vídeo para apresentar este que se vendia como "o maior evento pela salvação" dos lares cristãos, chamou-o de "a maior lata de conservas da família". O chiste era óbvio: referiu-se a uma ala no Carnaval carioca com foliões fantasiados de "neoconservadores em conserva" —uma lata cujo rótulo exibia um casal hétero e seus dois filhos. O desfile em questão homenageou o presidente Lula (PT), a quem a Universal já se aliou no passado, uma parceria da qual Cardoso não é particularmente afeito. Casado com a primogênita de Edir Macedo e apontado como um possível sucessor do sogro, ele faz parte de uma geração na igreja mais avessa a reconstruir pontes com a esquerda. Com o eleitorado evangélico tratado a peso de ouro, não é de estranhar que a participação política nos complexos esportivos tenha sido relevante. Passaram por suas arquibancadas o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e os governadores da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), e do Distrito Federal, Celina Leão (PP). Do lado de dentro dos estádios, a pulsação é outra. Tudo bem que um evento dessa dimensão para exaltar a "tradicional família brasileira" também carrega uma voltagem política altíssima. Já acenos eleitorais mais diretos são coadjuvantes perto do que realmente importa para o fiel que compareceu nesta Sexta-Feira Santa (3). No dia a dia dessa gente preocupada com casamentos em frangalhos, saúde debilitada e outros problemas da esfera íntima, a fé é bem mais do que cálculos políticos esmiuçados à exaustão no noticiário. Elas parecem querer saber menos de candidatos e mais do "terremoto espiritual" que, no Mercado Livre Arena Pacaembu, o bispo Adilson Silva prometia para a plateia. Aqui fica evidente o papel atribuído à mulher nessas engrenagens religiosas. Cabe a elas, que são maioria nas igrejas evangélicas, a tarefa de resgatar o homem. Pode ser do vício em álcool, drogas ou bets. Pode ser da infidelidade. Da apatia espiritual. Longe de ser um detalhe, essa dinâmica ajuda a explicar a força da fé evangélica no Brasil. O que está em jogo é também uma narrativa de poder doméstico, em que a mulher, mesmo sobrecarregada, é protagonista da promessa de redenção masculina. Não por acaso o bispo Adilson diz que Deus fará "estremecer os alicerces do inferno" para que homens que traem suas esposas "sintam nojo da amante". Ou que para Cristiane Cardoso, filha de Edir, "a mulher cristã casada com o incrédulo santifica o marido". Às vezes, a pessoa "passa por situações que nós nem sabemos, mas que hoje ela desconta na família, desconta nas pessoas que a amam", e saiba que "o Senhor pode reconstruir esse coração" e operar onde "o psicólogo não pode, o remédio não pode", ela afirma. Cristiane lidera o Godllywood, movimento da Universal que enaltece a "mulher virtuosa" —ela não detém título pastoral porque, na Universal, só homens podem ser pastores ou bispos. Edir Macedo, aliás, já publicou no site da Universal uma explicação para isso. Reproduziu, 12 anos atrás, as palavras de uma fiel baiana que dizia que, "quando estamos auxiliando um homem de Deus, somos muito mais USADAS pelo Espírito Santo". A caixa alta no texto é dela. É um pensamento que continua a ecoar nas fileiras cristãs. Foram vários os testemunhos, no evento da Universal, de homens que pisam na bola. Podem priorizar o futebol sobre a família ("enquanto meu time entrava em campo, minha família estava se perdendo de goleada", lamentou um fiel), ou não conseguem abandonar o vício do cigarro e deixam a família desmoronar ("ia à igreja, ouvia a palavra, mas não a praticava, eu era um hipócrita, uma verdadeira fraude", admite outro). São as mulheres as fiéis dessa balança conjugal, e isso não é mera oratória da Universal. A adesão ao evangelicalismo produz reflexos bem concretos em milhões de famílias brasileiras. Na maioria das vezes, a esposa é a primeira a se converter. Acaba levando seu marido junto com ela para a igreja. Não se trata apenas de crença, mas de expectativa de mudança comportamental. As ciências sociais produziram material sobre esse fenômeno: o homem convertido tende a beber menos, a frequentar menos a rua e reduzir episódios de violência doméstica. A igreja funciona como rede de vigilância moral e pertencimento, oferecendo códigos de conduta que, na prática, reorganizam o funcionamento da casa. Não que virar crente torne alguém puro da noite para o dia, claro. Violências ainda aparecem em lares cristãos, inclusive sufocadas sob certa premissa religiosa de que o agressor deve ser perdoado, e o casamento, preservado a qualquer custo. Mas reconhecer isso não invalida o efeito material desse trânsito religioso que multiplicou a presença evangélica na população. Menos gasto com álcool e saídas significa mais dinheiro disponível para prosperar. A fé vira uma ferramenta de reabilitação social, mediada sobretudo pela mulher. É devoção, mas é também cálculo de sobrevivência. Não por acaso, ouviu-se nos atos da Universal "Começa Comigo", música gospel outrora famosa na voz do convertido Nelson Ned. Diz sua letra: "Derrama no meu casamento uma bênção sobrenatural". É esse "terremoto espiritual" que tantas fiéis querem em suas vidas.