Pães e bolos industrializados aumentam o risco de doenças intestinais
2 Apr, 2026
Pães e bolos industrializados aumentam o risco de doenças intestinais Resumo À mesa de 95% dos lares brasileiros, alguém desembala o pão de cada dia. Ninguém está falando de tirá-lo do saquinho de papel da padaria, nem do pão amassado em casa. Vá lá que uma fatia ou outra da versão industrializada talvez não fizesse mal ao intestino ou à saúde em geral. A questão é que esse consumo, ao se somar ao dos bolos prontos, do macarrão instantâneo, da pizza congelada, da bolacha e até de certas barras de cereais, pode ficar alto. Para fazer justiça à bisnaguinha, o estudo recém-publicado no American Journal of Gastroenteroly não acusa somente aquele pãozinho capaz de morar várias semanas nas gôndolas do supermercado sem endurecer, nem embolorar. Ele foi mencionado aqui por ser uma preferência nacional, de acordo com o dado da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães e Bolos Industrializados) de que essa categoria está presente em 95% das casas do país. Direto ao ponto, o artigo recente afirma que quem consome 19 gramas ou mais de grãos usados como ingredientes desses produtos que passaram por ultraprocessamento corre um risco 86% maior de desenvolver doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, em relação a quem limita a ingestão a apenas 9 gramas diários. A informação tem o que os cientistas chamam de significância estatística, ou seja, infelizmente é para a gente confiar nesse crescimento de 86% no risco de o intestino inflamar-se em algum momento da vida. Os pesquisadores acompanharam mais de 124 mil pessoas por nada menos do que 17 anos até chegarem a essa conclusão. Por que adoecemos? Esta é a pergunta fundamental do estudo PURE (sigla de "Prospective Urban Rural Epidemiology", título que pode ser traduzido como Epidemiologia Prospectiva Urbana e Rural). O pontapé dessa iniciativa de fôlego foi dado na McMaster University, no Canadá, por onde o cardiologista Alvaro Avezum fazia um treinamento na época. Até hoje, ele é pesquisador associado de lá, além de coordenar o Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. "O PURE é um estudo observacional que a gente chama de coorte prospectivo", diz ele, que é responsável pela investigação no Brasil. Nela, estamos ao lado de outros 26 países. Explicando o "cientificês", um coorte prospectivo é quando os pesquisadores acompanham um grupo de pessoas dia após dia, durante muito, muito tempo para entender o impacto de algum fator de risco. "É a melhor estratégia que temos para entender por que adoecemos", garante o professor Avezum. Diga-se, hoje o PURE envolve mais de 300 mil participantes, embora "só" quase metade deles tenha participado nessa sub-análise para enxergar o que fazemos no sentido de prevenir ou, ao contrário, aumentar a probabilidade de sofrermos de uma dessas doenças inflamatórias intestinais. "Já tínhamos avaliado câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, problemas renais e até suicídio", conta Alvaro Avezum. "O interessante, mais do que a quantidade de indivíduos, é a diversidade. Além de pegar pessoas de grandes cidades e populações rurais, entre os países existem aqueles de alta renda, como o Canadá e a Suécia. Outros de renda intermediária, como o Brasil e a Polônia. E outros, ainda, de renda mais baixa, como Bangladesh e Zimbábue", exemplifica. Desse modo, temos uma fotografia global, enquanto a maioria dos estudos foca em uma população única, principalmente a dos Estados Unidos. "E não necessariamente o que acontece lá vale para o mundo inteiro", observa o médico. Os cientistas do PURE buscam pontos em comum em gente tão diferente e um deles é essa associação entre comer muito produto ultraprocessado à base de grãos na rotina e doenças inflamatórias intestinais. Seria culpa do trigo e de outros grãos? Nada disso! "Nessas formulações da indústria, os grãos nunca estão sozinhos. Eles estão mal acompanhados por corantes, aromatizantes, conservantes, flavorizantes", diz Alvaro Avezum. Esse combo de aditivos químicos não apenas torna esses produtos mais palatáveis, fazendo a pessoa querer mais uma fatia ou mais uma porção, enquanto entregam um baixíssimo valor nutricional. "Os aditivos são bastante inflamatórios também", completa o professor. A ciência já mostrou a ligação de ultraprocessados em geral com o crescimento do diabetes e da obesidade, entre outros males. "Até da depressão, que é uma doença com base inflamatória também, apesar de muitos desconhecerem isso", lembra o professor. "E, no que diz respeito ao intestino, o PURE já tinha apontado que ultraprocessados, de modo geral, aumentam a ameaça de câncer colorretal", informa. Tenha cuidado com o que é vendido como "saudável" Se é ultraprocessado, não se iluda. A associação de pães, biscoitos e pratos prontos industrializados com retocolite ulcerativa, Crohn e outras doenças inflamatórias intestinais apareceu até mesmo quando os produtos eram integrais. Para saber disso, os pesquisadores de todos os países reunidos no PURE fazem questionários validados, iguais para todo mundo, descobrindo o que cada uma dessas milhares de pessoas anda comendo, em um nível de detalhe que chega a calcular a quantidade de grãos e em quais alimentos eles estão. Os cientistas não partem do pressuposto de que essa ou aquela quantidade do ingrediente é a mais indicada. Eles fazem a média de consumo dos indivíduos. Juntam todos aqueles que têm uma média menor — no caso dos grãos em comida ultraprocessada, 9 gramas —, assim como juntam os participantes com consumo médio intermediário e, em outro grupo, aqueles com consumo elevado. No levantamento, aqueles que comiam mais ultraprocessados devoravam 19 gramas ou mais de grãos por meio deles. Apesar de grãos integrais serem notoriamente melhores para a saúde, o PURE mostra que o arroz branco caseiro, por exemplo, não eleva o risco para o intestino. Nem o pão fresco, da padaria ou feito em casa, à base de farinha branca. O "x"da questão para inflamações intestinais, especificamente, parece ser mesmo o ultraprocessamento. E, reforçando, a hipótese é que seria por causa da quantidade de aditivos que esses produtos levam nas formulações. Elas estão longe de ser receita de saúde. Isso preocupa a gastroenterologista Karoline Garcia, médica do Centro Especializado em Aparelho Digestivo, também do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. "Existem alimentos que se vendem na embalagem como super saudáveis, como uma série de barras de cereais com proteínas, e que são ultraprocessados até a raiz", comenta. Para ela, o estudo esclarece ainda mais a relação, nem tão surpreendente, entre ultraprocessados e inflamações crônicas no intestino, incluindo doenças bem sérias e debilitantes nesse órgão. Faz isso principalmente ao colocar no mesmo saco (de plástico) os produtos "ditos" mais saudáveis. A gastroenterologista ressalta, porém, que a alimentação não é o único fator por trás das doenças inflamatórias intestinais. "Elas são multifatoriais", explica. "Envolvem, ainda, a genética e diversos outros fatores ambientais e comportamentos, como o tabagismo e o uso de certos remédios. Mas claro que o tipo de alimento pesa bastante." Sem exagerar no pão e nas massas caseiras O próprio PURE já trouxe, em análises anteriores, revelações importantes e até curiosas. Foi contundente ao reforçar a mensagem que vivemos mais se ingerimos mais frutas, legumes e verduras. Mostrou que comer um ovo por dia não é um bicho de sete cabeças para ninguém. Criou polêmica ao afirmar que consumir sem exagero gordura animal até reduziria a mortalidade por qualquer tipo de causa. "Mas, aí, apontava para a carne vermelha e para os laticínios integrais em preparações caseiras. O estudo nunca viu vantagem, ao contrário, no consumo de embutidos e outras fontes ultraprocessadas de gordura animal", esclarece o professor Avezum. Em relação aos carboidratos, há quase dez anos o PURE mostrou que adoece mais quem obtém mais de 60% das calorias diárias vindas desse tipo de nutriente, presente em doces e também em tubérculos, como a batata, massas, biscoitos e, claro, pães. Portanto, não vale se entusiasmar e exagerar nos pedidos feitos no balcão da padaria. "O mais frustrante é que antes não sabíamos por que adoecíamos", lamenta o professor. "E hoje, mesmo sabendo, as pessoas não mudam seus hábitos. O marketing da indústria de alimentos é cruel", opina. Não só isso: os pães ultraprocessados, amassados com muitos conservantes, duram um tempão, parecendo evitar desperdício de comida e de dinheiro. Sem contar que todos os produtos com grãos, com exceção daqueles com o apelo fitness, são mais baratos na versão industrializada. Nessa competição desigual, vem ganhando quem promove as doenças inflamatórias intestinais e outras mazelas. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.