Esforço para levar astronautas à Lua não é consenso nos Estados Unidos
1 Apr, 2026
Pergunte aos poderosos em Washington, e eles dirão que é uma questão de importância nacional que os astronautas da Nasa retornem à Lua antes que a China chegue lá. "Não se enganem", disse o senador Ted Cruz, republicano do Texas, que preside o Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado, durante uma audiência em setembro. "Estamos em uma nova corrida espacial com a China." Mas se você perguntar às pessoas na rua o que elas acham que a agência espacial deveria estar fazendo, talvez elas não coloquem o envio de astronautas à Lua no topo da lista de prioridades. Na verdade, pode estar perto do fim da lista. Porém, quando se trata de política espacial, as opiniões dos poderosos geralmente prevalecem. Nesta quarta (1o), a Nasa planeja lançar quatro astronautas —três americanos e um canadense— em direção à Lua pela primeira vez em mais de 50 anos. A missão, Artemis 2, é frequentemente retratada como parte de uma nova corrida espacial com a China. Em dezembro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva definindo como meta o retorno de americanos à superfície da Lua até 2028 e o início de uma base lunar permanente dois anos depois. "Estaremos lá, estabelecendo o potencial científico e econômico na superfície lunar", disse Jared Isaacman, administrador da Nasa, em uma entrevista em janeiro. A agência que Isaacman lidera desde dezembro tem um amplo portfólio de atividades no espaço e na Terra. Seus astronautas vivem na Estação Espacial Internacional há mais de 25 anos. Dois rovers em Marte estão investigando rochas antigas tentando entender quando aquele planeta era quente e úmido. Espaçonaves mais recentes estão a caminho de Europa, a lua gelada de Júpiter, e de um objeto rico em metais no cinturão de asteroides. A Nasa monitora as erupções solares e as mudanças climáticas da Terra. Também está construindo aviões supersônicos experimentais que prometem cortar o ar sem gerar estrondos. No entanto, em 2026, como tem acontecido há anos, o programa de voos espaciais tripulados, que inclui o Artemis, representa quase metade do orçamento de US$ 24,4 bilhões da Nasa. Tanto republicanos quanto democratas no Congresso têm apoiado firmemente a agência. Em 2023, quando o Pew Research Center, um centro de estudos apartidário com sede em Washington, entrevistou mais de 10 mil adultos americanos sobre o espaço, descobriu que as opiniões gerais deles sobre a Nasa continuavam positivas. Quando solicitados a classificar a importância de nove atividades realizadas pela agência, a maioria dos entrevistados considerou todas como "prioridade máxima" ou "importantes, mas de prioridade menor". Embora mais pessoas tenham apoiado o envio de "astronautas humanos para explorar a Lua" do que o contrário, essa atividade ficou em penúltimo lugar em importância, e 41% disseram que não era algo tão importante para a Nasa ou que não valia a pena ser feito. Das nove atividades, apenas "enviar astronautas para explorar Marte" teve pontuação mais baixa. No topo da lista estavam duas outras coisas que a Nasa faz: "monitorar asteroides e outros objetos que podem atingir a Terra", seguida de "monitorar partes essenciais do sistema climático da Terra". A atitude indiferente dos americanos em relação aos voos espaciais tripulados é persistente. Cinco anos antes, o Pew fez as mesmas perguntas e recebeu quase as mesmas respostas. "Eu acho que estamos perdendo a conexão que a Nasa tem com o segmento mais amplo do público, que são esses aspectos da agência que impactam suas vidas", disse Lori Garver, que, como administradora-adjunta da Nasa durante o governo Obama, foi uma grande defensora de uma abordagem mais empreendedora. Isso atraiu empresas aeroespaciais mais ágeis, como a SpaceX, ajudando a acelerar algumas missões da Nasa a um custo menor. Garver se perguntou se a incompatibilidade de prioridades poderia no fim corroer o apoio à agência. Ela ficou particularmente impressionada com a alta prioridade que as pessoas davam à detecção de asteroides que um dia poderiam colidir com a Terra. Quando se tornou administradora-adjunta da Nasa em 2009, segundo ela, a agência não gastava quase nada nessa área, talvez US$ 15 milhões. Embora a proteção do planeta contra impactos catastróficos de asteroides tenha recebido mais de US$ 300 milhões no último orçamento, isso ainda é apenas uma fração do que a Nasa gasta. Um único lançamento do foguete SLS (Space Launch System) e da espaçonave Orion, como o que levará os astronautas da Artemis 2 ao redor da Lua, tem custo estimado em US$ 4,1 bilhões. A ambivalência dos americanos em relação ao envio de astronautas à Lua não é novidade. Durante a primeira corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética, os astronautas eram heróis nacionais e a Nasa era vista de forma positiva. No entanto, as pessoas sempre se preocuparam com os custos. "Quase sempre é uma questão de orçamento", disse Roger Launius, historiador espacial que trabalhou na Nasa e no Smithsonian Institution. "Não é que elas tenham uma aversão real a humanos irem à Lua ou a Marte." Desde que Trump pôs a Nasa no caminho do programa Artemis em seu primeiro mandato, o argumento tem sido que uma presença humana na Lua poderia impulsionar uma nova economia lunar, levar a descobertas sobre o Sistema Solar e fazer frente às ambições geopolíticas da China. Isaacman disse que bilionários como Jeff Bezos e Elon Musk agora estão contribuindo com uma parcela significativa dos custos. "Não está tudo nas costas dos contribuintes", afirmou. O administrador da Nasa também mencionou o hélio-3, uma versão mais leve do hélio que é mais abundante na Lua do que na Terra. Ele poderia fornecer um combustível eficiente para futuros reatores de fusão nuclear. "O que podemos encontrar, o que podemos descobrir, pode ter um impacto significativo aqui na Terra", disse Isaacman. "Se o hélio-3 se tornar uma fonte de nova energia aqui na Terra, isso pode mudar a trajetória da humanidade, certo?"