CEO de construtora diz que filhos de pedreiros não querem seguir na construção
22 Mar, 2026
O CEO da Benx, Luciano Amaral, aponta a escassez de mão de obra qualificada como o problema mais urgente da construção civil no Brasil, à frente até dos juros elevados que marcaram o setor nos últimos anos. Segundo ele, a falta de pedreiros, mestres de obras e outros profissionais do canteiro já está afetando o ritmo de lançamentos e o cumprimento de prazos nas obras da empresa, e não há tecnologia disponível em escala suficiente para compensar essa lacuna no curto prazo. A origem do problema, na avaliação do executivo, é estrutural. O país não investiu em formação profissional enquanto o mercado imobiliário explodia, e as novas gerações encontram alternativas de renda mais atraentes. “O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro, o filho do mestre não quer mais ser mestre”, resume Amaral. A proliferação de plataformas de trabalho por aplicativo e a expansão dos cursos técnicos criaram saídas que não existiam para as gerações anteriores, esvaziando um ofício de alta demanda mas exigente em esforço físico. Em busca de alternativas, a Benx enviou uma comitiva de dez pessoas à China para visitar obras e avaliar a adoção de tecnologias construtivas que possam ser trazidas ao Brasil em parceria com fornecedores locais. A empresa também está se reposicionando para fugir dos gargalos de demanda. Diante da competição acirrada nas faixas econômicas aquecidas pelo Minha Casa, Minha Vida e do impacto da volatilidade dos juros sobre a classe média, a Benx migrou para o segmento de altíssimo padrão, onde lançou o 280 Art no Itaim Bibi com unidades que podem chegar a R$ 180 milhões. Amaral rejeita a tese de bolha especulativa nesses preços. Sua leitura é que há riqueza real sustentando a demanda, gerada pelo agronegócio, pelo mercado financeiro e por executivos de grandes indústrias, público numericamente pequeno mas com capacidade de absorver empreendimentos de 20 a 30 unidades de altíssimo padrão. O CEO também comentou sobre o possível fim da escala 6×1. Para ele, mudanças nessa direção não podem ser tomadas de forma abrupta pelo governo, especialmente num país onde a produtividade já vem caindo. Reduzir o tempo de trabalho sem endereçar primeiro as questões de eficiência e investimento em educação, na avaliação dele, pressiona custos e alimenta a inflação. Sobre o futuro estratégico da empresa, Amaral admite que o movimento para o altíssimo luxo não é necessariamente permanente. A Benx lançou a marca Arbórea voltada para esse segmento com três projetos em andamento, mas o executivo reconhece que o mercado imobiliário é cíclico e que o planejamento estratégico precisa ser revisitado anualmente, especialmente num país onde a Selic oscila entre 2% e 15% em curtos intervalos de tempo.