Educação antirracista fortalece a autoestima de crianças negras
22 Mar, 2026
Vinte e um de março é marcado pelo Dia Mundial da Infância e o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. As datas reforçam a discussão sobre o papel da educação na formação da autoestima infantil. Para as crianças negras, o ambiente escolar pode ser fundamental na construção de uma identidade positiva, principalmente, quando a representatividade é tratada de forma respeitosa. De acordo com Maria Correa, Especialista em Articulação e Gestão Educacional do Projeto SETA, iniciativa cujo objetivo é transformar a rede pública escolar brasileira em um ecossistema de qualidade social antirracista, a educação integral precisa, necessariamente, implementar a perspectiva da luta contra o racismo. "Para que a escola seja antirracista é fundamental que os professores também sejam, e suas práticas reflitam esse princípio. Na primeira infância, estamos construindo caminhos, conceitos e aprendizagens que serão levados por toda a vida. Nessa fase, é preciso ter respeito às diferenças, comunitarismo, no sentido de se entender como parte de uma comunidade, circularidade de saberes e crenças, e ter entendimento de que as pessoas negras, indígenas e quilombolas também construíram e constroem a sociedade brasileira com seus saberes, sua inteligência e sua participação", afirma. Creche Municipal desenvolve projeto para valorizar saberes periféricos A Creche Municipal Betinho, na Favela da Chatuba, no Complexo da Penha, desenvolve com seus alunos diversos projetos a fim de implementar a educação antirracista. Neste ano letivo de 2026, a unidade escolar conduz um trabalho voltado para a valorização dos saberes e fazeres periféricos. De acordo com Estela Martins, Diretora Geral da unidade, o Projeto Pedagógico Anual (PPA) dialoga diretamente com o território do Complexo da Penha, a partir de várias reflexões, principalmente, sobre como a localidade foi historicamente marginalizada. "Essa escolha também nasce de tudo o que vivemos no ano passado, quando houve uma operação, resultando em diversas mortes no território. Isso teve impacto direto nas nossas famílias e nas nossas crianças, pois, muitas vezes, elas acabam tendo acesso apenas a essas narrativas. Então, a nossa proposta é, justamente, mostrar a potência desse lugar e que dentro das favelas existem muitas outras histórias para além da subalternidade e da violência", destaca a educadora.Como parte do conteúdo programático, a escola realizará um ciclo de formação, em que irá convidar pessoas para dialogarem com a equipe sobre diferentes temáticas que atravessam a relação entre educação e favela. A proposta de temas a serem trabalhados contempla racismo ambiental, corpo e território, que tem o objetivo de abordar a educação antirracista na perspectiva da periferia, saúde da população negra periférica e, também, o próprio território em um recorte histórico e social. Para Estela Martins, a creche tem um papel fundamental na construção de valores como respeito, diversidade e igualdade desde os anos iniciais de vida, porque é um dos primeiros espaços coletivos de convivência das crianças. "É nesse ambiente que elas começam a perceber as diferenças, aprender a compartilhar, a ouvir o outro e a reconhecer que existem muitas formas de ser, viver e pertencer ao mundo. Quando a creche assume intencionalmente práticas pedagógicas que valorizam diferentes culturas, histórias e identidades, ela contribui para formar crianças mais sensíveis às diferenças e comprometidas com relações mais justas. Trabalhar esses valores desde a primeira infância ajuda a construir bases sólidas para uma sociedade mais respeitosa, diversa e menos marcada por preconceitos", salienta. A profissional destaca que a educação antirracista não é um tema à parte do currículo, não é um projeto ou questão de datas especificas. Ela precisa atravessar todo o trabalho pedagógico. De acordo com Estela, começar na primeira infância significa ajudar a construir uma sociedade mais justa desde o início da vida, o que se faz com intencionalidade pedagógica, estudo, escuta e, principalmente, compromisso diário.