PF vê indícios de interferência de juiz em licitação da Sedu, mas empresa citada foi barrada pelo governo
20 Mar, 2026
Foto: Divulgação / Ufes Em mais um capítulo das investigações envolvendo o juiz federal capixaba Macário Júdice Neto , o Governo do Estado foi citado em um relatório da Polícia Federal sobre conversas mantidas entre o magistrado e o empresário Adilson Ferreira. O caso envolve a compra de até R$ 10,5 milhões em aparelhos de ar-condicionado em uma licitação da Secretaria de Estado da Educação ( Sedu ). O governo, no entanto, afirmou que barrou todos os recursos feitos pela empresa, que foi inabilitada ainda na fase administrativa. As informações foram divulgadas em uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, publicada nesta sexta-feira (20). De acordo com a reportagem, um relatório da PF afirma ter identificado uma “rede de influências espúrias” entre Macário e o Governo Estadual, que refutou as acusações e apresentou novos documentos (leia mais abaixo). Macário está preso desde dezembro por suspeita de vazar informações da operação Zargun , que acabou prendendo o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias , e outras duas pessoas ligadas a ele, além do deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar . Os parlamentares são do Rio de Janeiro. Já o empresário Adilson Ferreira é investigado dentro da operação Baest , da Polícia Civil, e apontado como operador financeiro de um esquema ligado à Facção Primeiro Comando de Vitória (PCV) para lavar dinheiro do tráfico de drogas. PF diz que juiz teria atuado em favor de processo de licitação, mas empresa foi barrada O juiz Macário Júdice, segundo as informações da PF divulgadas pelo jornal Folha de S. Paulo, teria atuado em favor da empresa Unique Serviços e Transportes em uma licitação da Sedu. A empresa, no entanto, acabou barrada no certame e não conseguiu reverter a exclusão, mesmo após recorrer à Justiça. Os diálogos foram encontrados no celular de Adilson , apreendido em maio de 2025 na Operação Baest e foram compartilhados com a PF com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e da Justiça do Espírito Santo. Textos e áudios trocados entre os suspeitos indicariam que o juiz federal acompanhou os passos de um recurso feito pela empresa dentro da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), além de ter orientado estratégias jurídicas a serem adotadas e afirmar que estava em contato com servidores envolvidos no caso. Em um dos áudios, o magistrado diz que estava aguardando a ligação do “PGR” . Para a PF, é uma referência ao procurador-geral do Estado , cargo ocupado, à época, pelo procurador Jasson Amaral . O irmão de Macário Júdice, o procurador Rodrigo Júdice , também é citado pela reportagem. Segundo as informações, a influência de Macário no órgão se dava por meio de seu irmão. O juiz teria compartilhado o telefone de Rodrigo com Adilson, e haveria registros de conversas entre os dois citando o nome do procurador. PGE diz que atuou para proteger o erário A PGE afirmou que rejeitou todos os recursos apresentados pela empresa e que atuou para proteger o erário. O órgão também destacou que não houve qualquer manifestação favorável à empresa ao longo do processo. O Folha Vitória obteve os documentos que comprovam que a empresa foi inabilitada por Comissão de Licitação da Sedu ainda na fase administrativa. Após apresentar recurso, o caso foi analisado pela PGE, que manteve a decisão e entendeu que a exclusão era correta. Segundo documentos oficiais, havia fundamentação técnica suficiente para barrar a empresa , sem qualquer indício de favorecimento. Mesmo após a negativa administrativa, a empresa entrou com dois mandados de segurança para tentar retornar ao certame. Nos dois casos, a PGE atuou contra os pedidos e a empresa não conseguiu decisões favoráveis. Diante das derrotas, acabou desistindo das ações. A PGE chegou a ingressar com um pedido de suspensão de segurança no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para impedir qualquer decisão que pudesse beneficiar a empresa. O que dizem as pessoas citadas? As pessoas citadas na matéria da Folha de S. Paulo foram procuradas pela reportagem do Folha Vitória para comentar o caso. O procurador Jasson Amaral , que na época das menções era procurador-geral do Estado, afirmou que a informação de que o termo “PGR” se refere a ele é, na verdade, uma “ilação”. “Primeiro que procurador-geral do Estado é PGE, não é PGR. Isso é uma ilação. Segundo que eu recebo essas informações com muita surpresa, porque nossa atuação foi muito enérgica. Nós fomos até o STJ. Eu atuei pessoalmente nesse processo para rechaçar as pretensões dessa empresa. Eu nunca dei abertura para ninguém tratar comigo de qualquer tipo de assunto que não fosse de maneira institucional. Nunca tratei no meu gabinete algo que eu não pudesse tratar publicamente” , disse o procurador. Amaral defendeu que não faz sentido afirmar que houve tentativa de favorecimento por parte da PGE. “É até ilógico dizer que houve qualquer tipo de ajuda a essa empresa na seara administrativa ou de forma espúria pela PGE. Basta ver nossa atuação no processo, que foi toda contrária aos interesses da empresa, tanto que essa empresa foi inabilitada no certame” , disse o procurador. Sobre sua relação com Macário Júdice, Amaral afirma que os dois moram na mesma rua e se viam com frequência devido a essa proximidade geográfica, mas negou relação de proximidade ou amizade com o juiz federal. “Tenho uma relação cordial com ele. Fui, inclusive, à posse dele. Mas a gente não tem nem intimidade para que fosse feito qualquer tipo de pedido. Eu não atuei em nenhum processo em que ele era relator” , afirmou o procurador estadual. Rodrigo Júdice diz que irmão não interferiu em seu trabalho e acredita na inocência dele O irmão do juiz Macário Júdice, Rodrigo Júdice, que atua como procurador na PGE, enviou nota e também conversou com o Folha Vitória por telefone. Ele afirmou que nunca tentou realizar qualquer tipo de interferência no trabalho de colegas e que, apesar do grau de parentesco com Macário, nunca deu liberdade a ele para que interferisse em seu trabalho. “Eu não tenho controle sobre o uso indevido do meu nome. O próprio relatório da PF afirma categoricamente que tentaram contato comigo e não conseguiram. O mais interessante nesse caso é que a empresa não obteve êxito em nada” , afirmou. Na nota, o procurador sustenta que nunca interferiu em processos licitatórios e que sua trajetória é marcada pela ética. “Jamais intervi, direta ou indiretamente, em procedimentos licitatórios, em recursos administrativos ou na emissão de pareceres por colegas da Procuradoria. Em quase 30 anos de carreira na advocacia pública, nunca tive qualquer conduta questionada, investigada ou objeto de processo disciplinar. Essa trajetória é pautada, desde o início, pela independência funcional, pela ética e pelo respeito irrestrito ao interesse público” , diz a nota enviada. Questionado sobre sua relação com o irmão e seu posicionamento sobre as acusações que pesam sobre Macário, Rodrigo afirmou acreditar que o irmão é inocente. “Eu acredito na inocência dele” , disse, sem se estender. A defesa de Macário Júdice Neto afirmou que não teve acesso aos autos, mas que entende que se trata de mais uma manobra “pela qual tentam envolver o nome do desembargador numa disputa política em ano eleitoral” , diz a nota enviada. O texto afirma, ainda, que Macário não participou de qualquer trama a ele atribuída e que a utilização reiterada de seu nome tem o único propósito de macular sua reputação. A empresa Unique Serviços e Transportes também foi procurada, mas não respondeu. A reportagem também tenta localizar a defesa do empresário Adilson Ferreira. O espaço segue aberto para futuras manifestações. Quem é quem? Macário Júdice Neto – juiz Tribunal Regional Federal da 2a Região (TRF-2), que atua em processos do Espírito Santo e do Rio de Janeiro; Rodrigo Júdice, irmão de Macário – procurador estadual no Espírito Santo, foi citado como suposto elo de influência de Macário na PGE; Adilson Ferreira, empresário – investigado na operação Baest, da Polícia Civil, tem relação com Macário investigada pela PF e pela PC; Jasson Amaral – procurador no Espírito Santo, era o PGE na época das menções nas conversas entre Macário e Adilson; Unique Serviços e Transportes – empresa que participou de licitação para fornecer aparelhos de ar-condicionado à Sedu, mas foi inabilitada no certame.